COMENTÁRIO

Entrevista: "Probabilidade de novo surto de febre amarela está diretamente relacionada ao status vacinal da população na área de risco"

Dr. Sergio Cimerman 

Notificação

19 de outubro de 2018

Durante a IdWeek 2018, realizada no início de outubro em San Francisco (EUA), o Dr. Sergio Cimerman, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), entrevistou o infectologista Antonio Bandeira, coordenador do Comitê de Arboviroses da entidade, sobre a situação atual da febre amarela no país. Leia a seguir a entrevista.

Dr. Sergio Cimerman: Como está a situação da febre amarela no Brasil?

Dr. Antonio Bandeira: A situação é delicada, pois tivemos dois anos seguidos de elevado número de casos, com a concentração das epizootias e casos humanos no Sudeste do Brasil em regiões urbanas. É fundamental a continuidade das ações de vigilância, em particular a ampliação da cobertura vacinal, para protegermos o maior número possível de suscetíveis à infecção pelo vírus da febre amarela.

Dr. Cimerman: Nos comente brevemente a questão da evolução dos casos no estado de São Paulo?

Dr. Bandeira: São Paulo teve 77 casos de febre amarela em 2017, e 498 casos autóctones em 2018, um aumento de mais de 400%. O surto atingiu parte da cidade de São Paulo, apesar de não ter havido evidências de transmissão urbana mediada pelo Aedes aegypti. Mais de 5,5 milhões de doses de vacina foram aplicadas, mas não atingiram a cobertura ideal de pelo menos 90%. Por isso preocupa muito a chegada do verão e a possibilidade de novo incremento no número de casos da doença.

Dr. Cimerman: Diante da epidemia que vivenciamos, o que você acha de a vacina ser oferecida em meia dose?

Dr. Bandeira: As evidências de recente estudo da Fiocruz-RJ apontam para proteção ao redor de 90% após oito anos com doses fracionadas da vacina. Além disso, mais de 95% das pessoas foram vacinadas esse ano em São Paulo e no Brasil com doses fracionadas e o surto foi controlado, assim como ocorreu em Angola e na República Democrática do Congo.

Dr. Cimerman: Sua experiência com a vacina da febre amarela resulta em efeitos adversos graves?

Dr. Bandeira: É uma vacina muitíssimo segura. Todas as vacinas apresentam algum grau de evento adverso grave, e a vacina contra a febre amarela não é menos segura do que as outras de vírus atenuado.

Dr. Cimerman: Quais sinais e sintomas o médico deve observar para entrar com os cuidados necessários?

Dr. Bandeira: Paciente que tenha estado em área com epizootias confirmadas para febre amarela ou casos humanos nos últimos 15 dias, que não tenha sido vacinado, e que apresente um quadro de febre de início súbito, com cefaleia, mialgias, evoluindo para icterícia, deve fazer o médico pensar em febre amarela. Se o paciente apresentar hemorragias (hematêmese, hematúria, epistaxes, hemoptise), o diagnóstico torna-se imperativo. E se evoluir com insuficiência renal, instabilidade hemodinâmica com falência hepática aguda, o diagnóstico da doença está praticamente definido.

Dr. Cimerman: Você acredita que pode ser feito um diagnóstico mais precoce dos casos pelo médico não especialista?

Dr. Bandeira: É importante que o médico não especialista seja treinado, com educação médica continuada, para o diagnóstico e o manejo clínico da febre amarela.

Dr. Cimerman: Você sugere alguma medida de controle vetorial?

Dr. Bandeira: Infelizmente o controle vetorial para Haemagogus e Sabethes, que são os mosquitos implicados na transmissão silvestre, é impraticável porque esses vetores habitam regiões de mata e floresta.

Dr. Cimerman: Por fim, você acha que vamos sofrer em 2019 uma nova epidemia?

Dr. Bandeira: Sim, podemos sofrer uma nova epidemia de febre amarela, e essa probabilidade está diretamente relacionada ao status vacinal da população na área de risco.

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