COMENTÁRIO

Opinião: benefícios da dieta low-carb no diabetes 1 e 2

Dr. Fabiano Serfaty

Notificação

24 de setembro de 2018

Um auditório completamente lotado, em pleno domingo à tarde, para assistir a duas apresentações sobre o uso da very low carb diet (VLCD) – dieta com muito baixo teor de carboidratos – no diabetes tipo 1 e 2 chamou a atenção de toda a mídia leiga e especializada durante o último encontro da American Diabetes Association (ADA), realizado em junho, em Orlando.

Na primeira apresentação a Dra. Jeannie Tay, da University of Alabama, resumiu as principais evidências científicas atuais do uso da VLCD em pacientes com diabetes tipo 2 e apresentou resultados de alguns estudos clínicos. Na segunda, o Dr. Martin I. de Bock, do Princess Margaret Hospital, discutiu os dados do uso de VLCD em crianças com diabetes tipo 1, incluindo os benefícios e modos de se realizar um melhor acompanhamento destes pacientes[1,2].

Pacientes com diabetes tipo 2

A Dra. Tay começou sua apresentação resumindo os dados e evidências científicas disponíveis nos estudos que utilizam VLCD em pacientes com diabetes tipo 2 (DM2). Ela definiu a VLCD como uma dieta que contém de 20 a 70 gramas de carboidratos por dia.

Além de ter demonstrado interessantes resultados de ensaios controlados e randomizados recentes, que acompanharam os pacientes por pelo menos seis meses, ela destacou a significativa melhora da HbA1c, da resistência à insulina, um aumento nos níveis de HDL e uma redução substancial dos triglicerídeos nos pacientes com DM2 que fizeram a dieta.

A Dra. Tay apresentou, então, dados inéditos do estudo clínico randomizado e controlado que ela realizou com colegas, no qual comparou o uso de VLCD ao de uma dieta com alto teor de carboidratos em pacientes com diabetes tipo 2.

Foram avaliados por dois anos 115 adultos com DM2 e obesidade, com média de HbA1c de 7,3 +/- 1,1%, sendo excluídos pacientes com patologias renais pré-existentes.

Os participantes foram divididos em dois grupos: um seguiu a VLCD, com 14% do valor total da dieta composto de carboidratos, e outro uma dieta com alto teor de carboidratos (53% de carboidratos), sendo que as duas dietas tinham a mesma quantidade de calorias. A adesão à dieta dos participantes foi controlada por profissionais, e todos foram orientados a seguir o mesmo programa de exercícios físicos.

Os pacientes utilizaram vários métodos para controle glicêmico, incluindo o uso de drogas orais com ou sem o uso de insulina. Os pesquisadores avaliaram a comparação de vários parâmetros entre os grupos, incluindo peso, composição corporal e HbA1c. Além disso, também foi utilizado um sistema de monitoramento contínuo da glicose (CGMS, do inglês, continuous glucose monitoring system) para avaliar a glicose e a variabilidade glicêmica. A taxa de abandono da dieta não foi significativamente diferente entre os dois grupos no estudo.

Entre alguns importantes achados do estudo: os pacientes que utilizaram VLCD, quando comprados com o grupo que usou uma dieta rica em carboidratos, reduziram duas vezes mais o uso de suas medicações, além de terem apresentado uma maior redução dos triglicerídeos e o dobro de redução da variabilidade glicêmica. Não houve diferença significativa entre os níveis LDL dos dois grupos. O grupo que utilizou uma dieta com um alto de teor de carboidrato apresentou uma queda significativa nos níveis de HDL durante o estudo. Foi realizada uma avaliação abrangente da função renal e cognitiva de todos os pacientes estudados, demonstrando a segurança da VLCD em ambas.

A Dr. Tay afirmou, ao final de sua apresentação, que as evidências respaldam que uma dieta com teor muito baixo carboidrato oferece uma grande vantagem sobre uma dieta com alto teor de carboidratos na abordagem dos pacientes com DM2.

Pacientes com diabetes tipo 1

Na segunda apresentação da sessão o Dr. de Bock falou sobre o uso da VLCD em crianças com diabetes tipo 1 (DM1). Ele apresentou dados recém-publicados de um estudo que avaliou uma grande coorte de pacientes com DM1, demonstrando que a VLCD, de fato, ajuda a otimizar o controle glicêmico nestes pacientes. Os participantes também apresentaram uma menor variabilidade glicêmica e menores médias de HbA1c.

Por conta da relevância do assunto, o Dr. Bock disse que mais estudos sobre o tema estão sendo realizados, uma vez que a quantidade de ensaios clínicos randomizados publicados, que abordam este a VLCD no DM1 não é igual à quantidade de estudos em pacientes com DM2. Assim, ele reiterou a importância dos pais de crianças com diabetes tipo 1 que seguem a VLCD de trabalharem em estreita colaboração com o médico.

De fato, as evidências científicas demonstram o benefício do uso de uma abordagem dietética com baixo teor de carboidrato no manejo da diabetes tipo 1 e 2 e também da obesidade. A VLCD deve ser considerada como um estratégia importante e segura no manejo destes pacientes na prática clínica[3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,19,20,21,22,23,24,25,26,27,28], pois várias evidências científicas demonstram que comer menos carboidratos ajuda na melhora do controle  glicêmico.

Na prática clínica, o controle glicêmico muda rapidamente nos pacientes que aderem à redução dos carboidratos na dieta. Por isso, deve-se atentar ao risco de hipoglicemia principalmente nos pacientes diabéticos que utilizam doses fixas de insulina.

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