Número de médicos brasileiros solicitando ingresso profissional em Portugal dispara

Giuliana Miranda

13 de setembro de 2018

Lisboa, Portugal —O número de médicos brasileiros que decidem trabalhar em Portugal deu um salto nos últimos cinco anos, acompanhando a intensificação da crise econômica e social no Brasil. Em 2013, a Ordem dos Médicos portuguesa recebeu apenas sete pedidos de ingresso de profissionais brasileiros. Em 2017, foram 57 – uma alta de 714% no período.

Nos primeiros sete meses de 2018, a quantidade de pedidos já superou a de todo o ano de 2017, o que mostra que o fluxo de profissionais permanece aquecido.

Existem atualmente 765 médicos de nacionalidade brasileira inscritos na Ordem dos Médicos de Portugal – o maior contingente já registrado.

O perfil do médico que emigra é bastante diversificado, indo desde recém-formados até especialistas com carreira consolidada.

A violência no Brasil e o desejo de dar maior qualidade de vida ao filho pequeno fez com que a Dra. Fátima Calani e o marido, neurocirurgião com mais de 10 anos de carreira, optassem por Portugal.

"Nós havíamos pensado em outros países, mas acabamos optando por Portugal, já que o meu pai é português. Viemos primeiro conhecer e gostamos. O processo todo de mudança, incluindo a validação dos nossos diplomas, levou cerca de dois anos", relata.

Na opinião do bastonário da Ordem dos Médicos de Portugal, Dr. Miguel. Guimarães, a chegada dos brasileiros tem aspectos positivos para seu país, desde que seja garantida a qualidade desses profissionais.

"Os médicos brasileiros têm necessidade sempre de validar seu curso de medicina. O Brasil tem muitas faculdades de medicina, tem alguns cursos de excelência, realmente muito bons, mas há os que são duvidosos", explica o bastonário, que também é professor de Urologia na Universidade do Porto.

"Para exercer a medicina, é preciso falar a língua nacional. Portanto, os médicos brasileiros já têm uma vantagem em relação aos demais estrangeiros. O reconhecimento do curso de medicina pelas universidades é que varia um bocado. Há cursos que têm reconhecimento mais ou menos automático com as universidades, porque já são consagrados. E há outros que não", detalha.

Dificuldades

O processo de validação e reconhecimento das especialidades médicas feitas no Brasil varia conforme a área de atuação, mas há algo em comum: é lento e bastante burocrático.

Os colégios de cada especialidade têm autonomia para julgar estas questões e podem pedir averiguação ou provas de competência adicionais.

Como a duração das residências em Portugal varia entre quatro e seis anos – uma formação, portanto, mais longa do que as homólogas no Brasil –, muitos brasileiros enfrentam dificuldades para conseguir a equivalência.

A maior parte dos médicos brasileiros acaba por começar da estaca zero quando chega a Portugal. Quase 80% dos 765 médicos brasileiros em Portugal são registrados como sem especialidade.

Entre os especialistas, a medicina geral e familiar aparece com a maior quantidade de profissionais, seguida pela ginecologia e obstetrícia e pela pediatria.

Ao contrário do Brasil, a graduação na faculdade de medicina não significa que os médicos podem começar a atender de forma independente.

Para conseguir a chamada autonomia médica, que garante o direito de emitir receitas e de tomar decisões clínicas, ainda é preciso de um período adicional de formação.

Quem se forma no Brasil e comprova pelo menos três anos de atuação profissional consegue a autonomia em Portugal. Quem tem experiência inferior a isso, precisa frequentar o chamado ano comum, algo similar ao internato no Brasil, mas que é feito após a graduação.

A médica carioca Dra. Fátima Calani, 37, acumulava dois anos e sete meses de experiência profissional quando chegou a Portugal e, por conta disso, está fazendo agora o ano comum, pré-requisito para a autonomia e também para o ingresso em uma especialidade médica.

"Muita gente me pergunta o motivo de eu não ter ficado mais uns meses no Brasil e completado os três anos para ter a autonomia. A verdade é que, com o medo constante da violência, eu já não conseguia viver. Tinha crises de ansiedade, já quase não saia de casa", conta a Dra. Calani, que acabou criando um blog para relatar sua experiência na mudança de país.

A falta de condições de atendimento aos pacientes nos hospitais públicos também foi um fator determinante.

"Faltava tudo. Não tinha remédio, às vezes não tinha sequer luvas. É um escárnio com a população do Brasil. Às vezes você como médico tem de escolher quem vai tentar salvar. Eu percebi que não ia mudar".

"O sistema público de Portugal não é perfeito e tem algumas deficiências quando comparado a outros que também são de países desenvolvidos. Mas os hospitais daqui parecem o paraíso quando colocados ao lado de muitos no Brasil", compara.

Salários mais baixos

A desvalorização do real frente ao euro não é suficiente para fazer com que os salários fiquem maiores ao norte do Atlântico.

No Brasil, um generalista sem especialidade ganha com facilidade R$ 10 mil por mês (cerca de 2.072 euros no câmbio atual).

Em Portugal, o salário-bruto de quem faz o ano comum é de 1.400 euros (R$ 6.755). Ao entrar na especialidade, pode chegar aos 1.937 euros (aproximadamente R$ 9.510).

Embora seja possível ganhar mais no serviço privado, no Serviço Nacional de Saúde (SNS) português, a posição mais alta dos médicos, o cargo de assistente graduado sênior, recebe 5.600 euros (cerca de R$ 27 mil) por 42 horas semanais de trabalho.

Profissionais brasileiros também relatam momentos de discriminação por conta da nacionalidade.

"Já tive alguns episódios de xenofobia, tanto de pacientes quanto de outros médicos. Alguns olham torto, com desconfiança. Esta é a parte mais chata, mas de resto eu gosto muito de ser médica aqui", resume a Dra. Calani.

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