Na sessão "Saúde mental de grupos específicos/Suicídio", debatida no 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, realizado em julho, no Rio de Janeiro, pesquisadores apresentaram dados sobre transtornos mentais vinculados ao cotidiano de portadores e familiares, e a tragédias ambientais como o desastre de Mariana. São questões que, segundo eles, merecem ser melhor investigadas pela comunidade científica.
Entre os transtornos mentais associados ao suicídio está o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), uma desordem altamente incapacitante e que frequentemente ocorre em comorbidade com outros transtornos mentais.
"Quem tem TEPT também apresenta depressão, ansiedade, abuso de substâncias, entre outros agravos. Também se observa nessa população alta prevalência de comportamento suicida, ou seja, a ideação suicida, o planejamento suicida ou a tentativa de suicídio", explicou a pesquisadora Aline Cristina de Oliveira Costa, farmacêutica e mestre em Epidemiologia em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, e doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Na pesquisa "Transtorno de estresse pós-traumático, comorbidades e comportamento suicida: resultados do estudo epidemiológico de transtornos mentais São Paulo Megacity" Aline estimou a prevalência de comportamento suicida em indivíduos com e sem TEPT e avaliou a associação entre TEPT em comorbidade com outros transtornos psiquiátricos e comportamento suicida. Ao todo 2.942 indivíduos com 18 anos ou mais foram avaliados.
"Os dados são parte do inquérito populacional São Paulo Megacity[1], estudo realizado na região metropolitana de São Paulo, que integra o World Mental Health Survey Consortium, uma iniciativa da Organização Mundial de Saúde (OMS). Nossa hipótese era de que o TEPT em comorbidade com outros transtornos psiquiátricos piora a condição do indivíduo e leva a situações mais graves como o comportamento suicida", disse Aline.
Os resultados mostram que indivíduos com TEPT, em comparação com pessoas sem este transtorno, apresentaram maior prevalência de ideação suicida, planejamento suicida e tentativas de suicídio.
"Os modelos logísticos sugerem três vezes mais chance de comportamento suicida em indivíduos com TEPT com comorbidade em comparação àqueles com TEPT isolado. Ao avaliar a comorbidade psiquiátrica como variável categórica em função do número de transtornos adicionais ao TEPT, observou-se efeito dose-resposta em função do número de transtornos comórbidos, ou seja, o comportamento suicida aumenta conforme aumenta o número de transtornos ou a manifestação do espectro pós-traumático".
Para a pesquisadora, esses resultados reforçam a importância de se estudar as comorbidades.
"É importante abordar esses pacientes como indivíduos que passaram por um trauma e estão desenvolvendo uma série de reações. Tratá-los com um medicamento para depressão, com outro para ansiedade, outro para o TEPT, dando vários diagnósticos, sem considerar o paciente como um todo, não seria aconselhado", sugeriu a farmacêutica.
Familiares cuidadores de pacientes psiquiátricos e ideação suicida
Na mesma sessão do congresso o pesquisador Carlos Alberto dos Santos Treichel, enfermeiro e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Campinas, abordou a prevalência de ideação suicida entre familiares cuidadores em saúde mental.
Ele é autor do estudo "Prevalência de ideação suicida entre familiares cuidadores de usuários de centros de atenção psicossocial", realizado com 537 familiares cuidadores de usuários de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) dos municípios de abrangência da 21ª Região de Saúde do Rio Grande do Sul, composta por 22 municípios, no período de fevereiro a outubro de 2016.
Segundo Carlos, a avaliação de ideação suicida foi realizada por meio do item 17 do Self Reporting Questionnaire (SRQ-20).
"Nesse item, consta a pergunta: 'Considerando os últimos 30 dias - Alguma vez pensou em acabar com a sua vida?'. Foi caracterizada ideação suicida nos familiares que indicaram como sim a resposta para esse item", explicou.
O pesquisador afirmou que ideação suicida é importante preditor das tentativas de suicídio, sendo um fenômeno já bem documentado em familiares cuidadores de pessoas com câncer e doença de Alzheimer, por exemplo.
"Portanto, ao considerar a susceptibilidade dos cuidadores em saúde mental às características previamente associadas à ideação suicida, torna-se relevante investigar esse desfecho junto a essa população", disse.
Segundo Treichel, os resultados mostram prevalência de ideação suicida no último mês de 12,5%, o que corresponde a 67 indivíduos. Para o pesquisador, esta é uma prevalência alta se comparada com a população geral, "o que sugere que familiares cuidadores em saúde mental constituem um grupo de risco para esse desfecho". Ele citou como exemplo um inquérito populacional realizado em Campinas, que apontou prevalência de cerca de 5% de ideação suicida na população em geral[2].
Mesmo comparando com outros cuidadores, Treichel diz que essa prevalência pode ser considerada elevada, porque na maioria dos estudos envolvendo essa questão, a ideação suicida foi considerada no período de um ano anterior à entrevista e no caso do seu estudo foi considerado o período de 30 dias.
Ele também destacou um resultado da sua tese de mestrado[3] que mostrou o uso frequente de medicamentos psicotrópicos por esses familiares.
"Em 44% dos entrevistados foi verificado um forte indicativo de adoecimento emocional psíquico, sendo que poucos deles estão recebendo algum tipo de atendimento. Porém, mesmo não estando recebendo atendimento, 30% deles já usam psicotrópicos regularmente", disse.
Para o pesquisador, esses resultados mostram necessidade de intervenção para esses familiares.
"Muitas vezes, tais familiares são considerados meros informantes das questões relativas ao usuário da rede. Eles, na verdade, devem ser encarados como parceiros e como pessoas que precisam ser cuidadas também, já que estão passando por situações que podem favorecer o adoecimento emocional psíquico".
Desastre de Mariana: lacuna em atenção psicossocial
O desastre do rompimento da Barragem de Fundão em Mariana (MG) em 5 de novembro de 2015 foi uma das maiores tragédias socioambientais no Brasil e no mundo, com importantes repercussões para o meio ambiente e para a população local. A tragédia causou o deslocamento forçado de várias famílias da área rural para a área urbana, com perda de vínculos sociais, laços simbólicos e dificuldade de adaptação, o que interferiu na saúde mental da população.
"Em tragédias como essa, os recursos de saúde mental precisam lidar com uma população que passa por um processo de vulnerabilização e desterritorialização. Temos de compreender a partir de diferentes ciclos de vida quais são os impactos para essa população. É a partir dessa compreensão que as políticas públicas de saúde mental serão pensadas, que as construções de ações e intervenções dentro do município e para outros contextos semelhantes, serão orientadas", afirmou a pesquisadora Marcela Alves de Lima Santos, terapeuta ocupacional, Coordenadora de Saúde Mental do Município de Mariana e mestranda do Instituto René Rachou/ Fiocruz Minas.
Marcela apresentou os resultados de dois estudos, um com adolescentes e outro com idosos, sobre os impactos psicossociais do rompimento da barragem a partir da percepção dos profissionais de atenção psicossocial de Mariana. De acordo com a pesquisadora, existe uma grande lacuna no campo da saúde mental e da atenção psicossocial em situação de desastres e, quando se trata de idosos e adolescentes, o número de publicações é menor ainda.
Segundo ela, "foi possível fazer uma leitura da dificuldade de adaptação ao novo território e de injustiça ambiental, quando se observou rompimento de vínculos sociais e comunitários, por meio de um processo de alocação abrupto e que viola vários direitos".
No primeiro trabalho, intitulado "Percepção dos profissionais sobre a saúde mental dos adolescentes atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão em Mariana – MG", Marcela mostra uma lacuna na atenção psicossocial aos adolescentes.
"Ainda identificamos uma invisibilidade histórica dos cuidados em saúde mental dos adolescentes. Durante muito tempo, a saúde mental de crianças e adolescentes foi delegada a associações filantrópicas, com pouca participação das políticas públicas", afirmou.
De acordo com a autora, os resultados deste estudo revelam dificuldades de adaptação e apropriação ao novo território, pouca relação de pertencimento, perda de vínculos significativos e desorientação espacial no período inicial. Também foi verificado o medo dos pais e dos adolescentes da maior exposição à situação de vulnerabilidade no meio urbano, o que causou isolamento.
Marcela afirmou que os profissionais tiveram dificuldades para acessar e trabalhar com esse público, tendo que, na maioria das vezes, acessar a família destes adolescentes por meio dos adultos.
"Porém, essa dificuldade possibilitou enxergar o protagonismo e o potencial dos adolescentes para lidar com o ocorrido. Em relação a outros grupos, observamos que os adolescentes, mesmo em situação de vulnerabilização, demonstram abertura para o novo. É interessante como eles começam a construir novas formas de se adaptar ao novo território", contou a pesquisadora.
No trabalho "Saúde mental e desastres: a condição dos idosos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão a partir da percepção de profissionais da rede de atenção psicossocial", Marcela explica que a condição de saúde mental da população idosa é motivo de preocupação devido à maior vulnerabilidade. Segundo ela, apesar de os idosos estarem no mesmo contexto que os adolescentes, o ciclo de vida diferente se apresenta como um importante fator.
De acordo com a pesquisadora, os resultados com idosos demostram redução de suporte social e comunitário, com interferência na autonomia e descolamento para realização das tarefas cotidianas dentro de um novo território. Entre os sintomas mais relatadas estavam isolamento, humor deprimido, angústia e ansiedade, além do sentimento de pouco pertencimento e do medo de não poder construir projetos de vida.
"O luto e as memórias têm significados diferentes para pessoas nessa faixa etária. O pensamento relacionado à morte também é mais frequente do que em outras faixas etárias, assim como a apropriação de um novo espaço é mais difícil quando comparado a outros ciclos de vida", explicou a especialista.
Marcela defendeu a importância da promoção de formas de organização a partir da própria comunidade e de intervenções que não sejam pautadas a partir da noção de trauma, o que, segundo ela, é muito encontrando no campo da saúde mental e atenção psicossocial em situações de desastres.
"Identificamos resultados que mostram exatamente o contrário. Não trabalhamos simplesmente com pessoas traumatizadas, como muitas vezes é divulgado pela mídia, ou como muitas linhas de pesquisa vêm trabalhando, voltadas para um diagnóstico descontextualizado", disse. Para ela, é imprescindível a participação dos adolescentes e idosos nos processos decisórios e na organização de ações comunitárias.
Citar este artigo: Novos dados sobre suicídio em transtorno do estresse pós-traumático e em cuidadores de pacientes psiquiátricos - Medscape - 24 de agosto de 2018.
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