Filhos de mães adolescentes e com menos anos de estudo são mais propensos a morrer durante infância

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

14 de agosto de 2018

Rio de Janeiro — Em julho deste ano, dados do Ministério da Saúde mostraram que a mortalidade infantil em 2016 aumentou 4,8% em relação a 2015, uma tendência contrária ao que vinha sendo observado desde 1990[1]. A notícia alarmou especialistas. Para o pediatra Dr. Paulo Vicente Bonilha Almeida, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trata-se de um momento difícil e que é consequência de diversos fatores.

"A rede de atenção ao binômio mãe-bebê está se rompendo em vários pontos", alertou ele durante o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva realizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. O Dr. Almeida, que coordenou sessão sobre puericultura e promoção da saúde infantojuvenil, defendeu a necessidade de se expandir a discussão acerca da saúde infantil.

Frequentemente, disse o médico, as mães chegam aos serviços de saúde e não encontram vacinas.

"As mulheres são então orientadas a regressarem depois. Além disso, há grande déficit de profissionais de saúde. Há, por exemplo, carência significativa de profissionais de enfermagem", disse o médico, acrescentando que é recorrente também a falta de medicamentos e insumos na rede pública de saúde, situação enfrentada inclusive nas maternidades.

Em muitos casos, problemas graves e óbito podem ser evitados com intervenção precoce. Tradicionalmente, a primeira consulta pediátrica presencial ocorre na primeira semana após o nascimento do bebê.

"Uma semana é bom, mas quanto mais precoce, melhor. O atendimento entre o terceiro e o quinto dia após o parto é estratégico", defendeu o Dr. Almeida.

Para o pediatra, a psicoprofilaxia é outro fator importante: "médico e equipe de saúde precisam saber identificar as pacientes que exigem atenção especial, por exemplo, mães multíparas, empoderadas e que desejavam a gestação, podem passar a ter consultas mais espaçadas, enquanto aquelas que não queriam a gravidez, e que se mantêm afetivamente distantes do bebê, deveriam ser acompanhadas com maior frequência".

Idade e escolaridade maternas são determinantes relevantes na mortalidade infantil e na infância

Entre os fatores que exigem atenção especial da equipe de saúde estão idade e escolaridade maternas.

"Já se sabe que escolaridade e idade materna, individualmente, são determinantes que interferem na mortalidade infantil. Porém, ainda se desconhece o que ocorre quando estão agrupadas", disse a dentista Fernanda Pinheiro Aguiar, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante apresentação na mesma sessão do evento.

Para avaliar os efeitos da interação desses fatores, a pesquisadora conduziu um estudo com uma coorte de crianças nascidas vivas, de gravidez única, entre 2007 e 2008, na cidade do Rio de Janeiro. O trabalho foi fruto do projeto desenvolvido durante o doutorado da dentista em saúde coletiva, na UFRJ, sob orientação da Dra. Cláudia Medina Coeli.

O grupo utilizou o processo de linkage probabilístico para analisar dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) e do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Foram identificados 153.527 nascidos vivos no município do Rio de Janeiro durante o período analisado. Ocorreram 2.144 óbitos em menores de cinco anos, sendo a taxa de mortalidade infantil de 12 por mil nascidos vivos, e a de mortalidade na infância de 14 por mil nascidos vivos.

Os resultados mostraram que as taxas de mortalidade foram maiores em mulheres com menos de quatro anos de escolaridade e nos extremos etários, especialmente em adolescentes. A taxa de mortalidade infantil em mulheres entre 15 e 19 anos de idade com menos de quatro anos de estudo foi de 26,1 por mil nascidos vivos. No grupo com mesma escolaridade, mas no outro extremo etário (35 anos de idade ou mais) a taxa foi de 22,9 por mil nascidos vivos. A menor taxa foi encontrada em mulheres com mais de 12 anos de estudo com 20 a 34 anos de idade e com 35 anos ou mais: 7,5 por mil nascidos vivos. Um padrão semelhante foi observado para mortalidade na infância, com a taxa atingindo seu ápice no grupo com 15 a 19 anos de idade e com menos de quatro anos de estudo: 31,9 por mil nascidos vivos.

Segundo a Dra. Fernanda, os achados indicam que filhos de mães com 35 anos ou mais de idade e com menos de quatro anos de estudo têm 2,7 vezes a probabilidade de morrer na infância em relação aos de mulheres entre 20 e 34 anos com 12 anos ou mais de estudo. Já as crianças de mães entre 15 e 19 anos com menos de quatro anos de estudo têm 3,7 vezes mais probabilidade de morrer na infância em relação às crianças de mães entre 20 e 34 anos de idade com 12 anos ou mais de estudo.

Consulta multiprofissional detecta problemas de saúde precocemente

Além da atenção a fatores que podem ser determinantes na mortalidade infantil, outras estratégias podem contribuir para melhorar os desfechos do binômio mãe-bebê. A realização da consulta conjugada multiprofissional, segundo o Dr. Mauricio Vaillant Amarante, a enfermeira Ozinelia Pedroni Batista, e a dentista Camila Lampier Lutzke, é uma das opções viáveis. O trio, que atua na Estratégia Saúde da Família (ESF), apresentou sua experiência com essa intervenção durante o congresso da Abrasco (Abrascão 2018).

O projeto iniciado em agosto de 2017 incluiu crianças de zero a 12 anos atendidas na ESF Melgaço, de Domingos Martins, no Espírito Santo. A equipe utilizou busca ativa a partir de encaminhamentos da Unidade Básica de Saúde (UBS) e captação pelos agentes comunitários de saúde (ACS). Os pacientes foram atendidos na UBS mais próxima com horário agendado e o atendimento envolveu médico, enfermeiro e um odontólogo em um mesmo consultório. Foram investigados o histórico materno e nutricional, vacinas, e desenvolvimento físico e cognitivo da criança.

Até fevereiro de 2018, já haviam sido atendidas 133 crianças. Além da avaliação bucal foram feitos encaminhamentos para consultório e para exames e/ou outros níveis de atenção.

A equipe explicou, durante a apresentação, que a população mostra-se satisfeita com a intervenção e que a consulta conjugada é uma estratégia eficiente para detecção precoce de problemas de saúde como obesidade ou baixo peso, cárie e verminoses, entre outros.

Questionário é opção viável para diagnosticar transtornos mentais em crianças, mas uso exige cautela

Outra medida que pode contribuir para desfechos mais positivos, e que foi apresentada no congresso da Abrasco, é o diagnóstico precoce de transtornos mentais em crianças. O trabalho de Ruhan Carvalho Miranda, graduando em enfermagem da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ) e colegas, desenvolvido sob orientação do enfermeiro Richardson Miranda Machado, doutor em Psiquiatria, foi um estudo transversal desenvolvido em uma escola da área de abrangência de uma equipe da ESF de Divinópolis, município do Centro-Oeste de Minas Gerais. A instituição de ensino era da rede municipal e os alunos tinham entre dois e seis anos de idade.

A amostra foi composta por 68 crianças. Os participantes não apresentavam déficit sensorial ou neurológico, nem estavam em atendimento psicológico e/ou psiquiátrico.

Foram utilizados dois instrumentos para levantamento de dados, sendo um deles destinado à coleta de informações sociodemográficas dos pais ou responsáveis e o outro o Inventário dos Comportamentos de Crianças (Child Behavior Checklist - CBCL), desenvolvido por Achenbach e Rescorla[2]. Os pesquisadores usaram a versão do CBCL em português[3].

Segundo Miranda, os transtornos mentais em crianças podem ser agrupados em três categorias: (1) transtornos emocionais (problemas de internalização); (2) transtornos de comportamento (problemas de externalização); e (3) transtornos do desenvolvimento. São exemplos de desordens emocionais a depressão, o isolamento e o desinteresse por atividades, enquanto agressividade, agitação psicomotora, irritabilidade, nervosismo, rebeldia, desobediência e provocação são consideradas transtornos de comportamento. Quanto ao terceiro tipo (transtornos do desenvolvimento), é possível citar enurese, encoprese e esquizofrenia[4].

No trabalho em questão, o grupo avaliou apenas as desordens emocionais e de comportamento que, segundo a literatura, são as que trazem mais prejuízo ao desenvolvimento de crianças em idade pré-escolar[4].

Os resultados mostraram que, na maioria dos casos, a mãe foi a informante (86,8%). Quanto à escolaridade dos responsáveis, predominou o 2º grau incompleto (32,4%). As atividades domésticas foram a ocupação mais prevalente (36,8%). Sobre a saúde mental, quase 78% das crianças não tinham nenhum histórico familiar de transtornos psiquiátricos.

A investigação revelou que, considerando os casos identificados de transtornos de comportamento, os problemas de ansiedade foram os mais comuns na amostra, ocorrendo em 33,3% dos meninos e em 25,7% das meninas. Além disso, 27,2% dos meninos e 20% das meninas apresentaram alterações relacionadas ao estresse.

Para os pesquisadores, a identificação precoce de transtornos mentais na infância "pode auxiliar no delineamento de cuidados e políticas, principalmente na prevenção e no tratamento de casos diagnosticados, bem como na mensuração dos efeitos do tratamento". Nesse contexto, o questionário CBCL é uma ferramenta "capaz de propiciar uma avaliação inicial e obter um diagnóstico rápido e confiável para direcionar as intervenções necessárias a cada criança".

O coordenador da sessão, o pediatra Dr. Paulo Vicente Bonilha Almeida, alertou, no entanto, para a "necessidade de cuidado ao se empregar ferramentas de rastreamento de transtornos mentais na infância, pois estas podem resultar em estigmatização da criança, afetando de forma negativa o desenvolvimento dela".

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