Racismo e segregação residencial aumentam risco para hipertensão e diabetes

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck) 

Notificação

14 de agosto de 2018

Rio de Janeiro — "Não há como reconstruir o Sistema Único de Saúde (SUS) sem pensar no racismo. O SUS que queremos precisa ter as lentes ajustadas e deve ser focado nas pessoas, em todas as pessoas, e orientado para as diferentes necessidades", destacou a bióloga Fernanda Lopes, doutora em saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP), durante mesa-redonda que tratou do tema racismo e saúde pública durante o 12º Congresso de Saúde Coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrascão 2018), realizado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro.

O racismo, segundo a palestrante, não é uma questão de opinião pessoal, e se concretiza quando "grupos que detêm determinadas características são pensados como de menor importância". Ao ser alimentado pela cultura, no dia a dia, o racismo passa, segundo a pesquisadora, a definir como as relações vão se estruturando, e define também oportunidades de educação e condições socioeconômicas, de vida e de saúde.

Segundo Fernanda, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, entre os brasileiros que só têm o SUS como opção, 80% são negros[1]. As estatísticas da pesquisa PNAD/IBGE mostram ainda que "três quartos das oito milhões de pessoas que ficaram internadas por 24 horas ou mais em hospitais do SUS eram negras. Das que buscaram pelo menos um medicamento na rede SUS, 40% eram negras e, dos usuários que relatam dificuldade de acesso aos serviços de saúde, a maioria é negra".

A violência também é desigual, sendo mais impactante entre a população negra. A pesquisadora citou dados do Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que mostram um aumento de 18,2% na taxa de homicídios de negros no país entre 2005 e 2015. No mesmo período, a taxa entre não negros teve redução de 12,2%. Essa diferença também foi observada quando se considerou apenas mulheres: entre as negras, houve crescimento de 22% na mortalidade registrada entre 2005 e 2015, enquanto a mortalidade de não negras teve redução de 7,4%[2].

A desigualdade aparece ainda na atenção pré-natal e dada ao parto no Brasil. Um estudo publicado ano passado nos Cadernos de Saúde Pública[3] revelou que puérperas negras têm maior risco de receber menos orientações durante o pré-natal sobre sinais do parto e possíveis complicações da gravidez. Nesse grupo, há ainda risco maior de acesso restrito aos métodos não farmacológicos para alívio da dor ou a analgesia peridural.

Diante das disparidades observadas, Fernanda destacou que "qualquer iniciativa em defesa do SUS que não esteja fundamentada no enfrentamento ao racismo nasce fadada ao fracasso".

Segregação residencial é determinante estrutural de fatores de risco cardiometabólicos

A Dra. Dora Chor, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), destacou a segregação residencial – separação sistemática de indivíduos em diferentes bairros baseada em classe social e/ou raça – como uma das causas fundamentais das desigualdades de saúde raciais[4]. A pesquisadora e colegas publicaram esse ano na Social Science & Medicine[5] um estudo que investigou a relação entre segregação residencial e fatores de risco cardiometabólicos no Brasil. O grupo utilizou dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA Brasil), pesquisa envolvendo mais de 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior e pesquisa das regiões Nordeste, Sul e Sudeste do país[6]. No trabalho da Dra. Dora e colegas, foram considerados dados do ELSA-Brasil coletados no período de 2008 a 2010.

O estudo mostrou que negros e pardos apresentaram maior probabilidade de residir em ambientes segregados do ponto de vista socioeconômico. Além disso, indivíduos que viviam nos bairros economicamente segregados tinham 26% mais chances de ter hipertensão e 50% mais chances de ter diabetes do que os que moravam em áreas mais privilegiadas[5].

"Esses resultados sugerem que a segregação residencial é importante determinante estrutural de fatores de risco cardiometabólicos nessa população", escrevem Dra. Dora e colegas.

As associações foram observadas em todas as capitais estudadas no ELSA-Brasil: Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória. Desigualdades espaciais e sua inter-relação com classe e renda, no entanto, já foram evidenciadas em outros estudos. Pesquisa indica, por exemplo, que, no Rio de Janeiro, os brancos representam mais de 80% dos moradores de bairros com maior renda (orla, Gávea, Jardim Botânico e Lagoa)[7].

Negras têm risco 51% maior de parto prematuro

Na mesma mesa-redonda a enfermeira Edna Maria de Araújo, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia, compartilhou sua experiência à frente do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdades Sociais em Saúde (NUDES) Entre algumas das temáticas estudadas pela pesquisadora e equipe está a associação entre etnia e transtornos mentais no Brasil. Revisão sistemática publicada pelo grupo identificou, por exemplo, tendência na literatura de maior prevalência desses problemas em pessoas não brancas[8].

Outro tema investigado pela equipe é a associação entre etnia/cor da pele e parto prematuro. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada esse ano na Revista de Saúde Pública[9] encontrou que mulheres negras apresentaram risco 51% maior de parto prematuro do que mulheres não negras.

Segundo Edna, ainda há carência de estudos sobre desigualdades em saúde no Brasil. Ao pesquisar no Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ela identificou apenas cinco grupos que têm esse tema como objeto principal de estudo.

"Desse total, quatro estão em Universidades nas regiões Sul e Sudeste do país. O único fora desse eixo é o NUDES", disse a palestrante, defendendo a importância dessas iniciativas.

"O conhecimento acadêmico é um mecanismo capaz de diminuir desigualdades sociais".

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