Rio de Janeiro — Insônia e alterações na duração do sono estão associadas a alterações cardiometabólicas em mulheres, mas não em homens. Um achado confirmatório de que diferenças de gênero são importantes, tanto na análise dos problemas de sono, quanto nas possíveis repercussões deles na saúde.
Esta análise, que utilizou dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA Brasil)[1], foi apresentada durante o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, realizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no final de julho, no Rio de Janeiro.
O estudo ELSA Brasil é uma pesquisa multicêntrica de coorte composta por dados de mais de 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior e pesquisa das Regiões Nordeste, Sul e Sudeste do país.
A segunda etapa da pesquisa, chamada de onda 2, foi realizada entre 2012 e 2014. Os dados dessa etapa foram utilizados pela bióloga Aline Silva-Costa, epidemiologista e professora de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), para investigar as diferenças de gênero na associação entre duração do sono, insônia e fatores de risco cardiometabólicos. O trabalho, que foi apresentado em julho desse ano no congresso da Abrasco, contou ainda com a participação da também bióloga Lúcia Rotenberg, da enfermeira Rosane Harter Griep, das estatísticas Maria de Jesus Mendes da Fonseca e Aline Araújo Nobre, e das Dras. Dora Chor, professora da Fiocruz e líder de Grupo do ELSA Brasil, e Sandhi Maria Barreto, coordenadora do ELSA Brasil em Minas Gerais.
Foi somente a partir da onda 2 que questões referentes ao sono passaram a ser abordadas no ELSA Brasil. Segundo Aline, vários estudos sugerem que há relação entre duração do sono e problemas cardiometabólicos. A literatura indica, por exemplo, que sono insuficiente ou de má qualidade e transtornos do sono estão associados à obesidade e a risco aumentado de hipertensão e diabetes[2]. Entretanto, a pesquisadora destacou, durante a apresentação no Congresso, que ainda existem inconsistências quanto ao padrão da associação e há carência de pesquisas que abordem essas questões considerando possíveis diferenças de gênero.
Buscando melhorar o conhecimento sobre o tema, a bióloga e equipe avaliaram dados de 7.491 mulheres e 6.232 homens incluídos na onda 2 do ELSA Brasil, classificando-os quanto à duração do sono (curto = menos de seis horas; adequado = entre seis e oito horas, e mais de oito horas), presença ou ausência de insônia, e se apresentavam ao mesmo tempo curta duração de sono e insônia.
Foram consideradas alterações metabólicas: hemoglobina glicada (HbA1c) igual ou maior que 6,5%; triglicerídeos iguais ou maiores que 150 mg/dL; colesterol HDL menor que 40 mg/dL nos homens ou menor que 50mg/dL nas mulheres; pressão arterial sistólica igual ou maior que 140mmHg ou diastólica igual ou maior que 90mmHg ou uso de anti-hipertensivo; e excesso de peso, representado por índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 25kg/m2.
Os resultados mostraram que 47,6% das mulheres e 49,1% dos homens disseram ter curta duração de sono. Por outro lado, sono de longa duração foi reportado por 4,5% das mulheres e 3,2% dos homens. Insônia foi referida em 27,8% das mulheres e em 19,3% dos homens.
Após análise ajustada por idade, escolaridade, atividade física, sintomas de depressão, e insônia ou duração do sono, o grupo identificou que, apenas nas mulheres, tanto duração do sono (curta e longa) quanto insônia foram associados com excesso de peso, hipertensão e níveis elevados de HbA1c.
Em entrevista ao Medscape após a apresentação, Aline destacou que a equipe ainda não sabe explicar totalmente as diferenças observadas entre os gêneros.
"Estamos tentando estudar mais. Para as mulheres há a questão do estresse, da demanda mais intensa de trabalho doméstico, e imaginamos que isso talvez possa potencializar a queixa nesse grupo, mas são hipóteses sobre as quais ainda não temos muita certeza. A literatura também não tem muitos estudos com diferenças de gênero", afirmou a pesquisadora, acrescentando que uma das análises em andamento envolve a estratificação dos resultados por idade.
Citar este artigo: Insônia e alterações na duração do sono têm impactos cardiometabólicos diferentes em homens e mulheres - Medscape - 13 de agosto de 2018.
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