Existe uma preocupação global em tentar prevenir e controlar as doenças cardiovasculares, pois elas são a principal causa de morte em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A sessão intitulada Doenças cardiovasculares e renais discutiu algumas pesquisas que estão em andamento no país, vinculadas a aspectos práticos imediatos da clínica generalista e especializada durante o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, realizado de 26 a 29 de julho no Rio de Janeiro, nas dependências da Fundação Oswaldo Cruz. A seguir, uma coletânea dos trabalhos que tiveram destaque no evento.
Pressão arterial aferida em única consulta como indicador para desfechos cardiovasculares
O Dr. André Sant'anna Zarife, da Universidade Federal da Bahia, relembrou que quanto maior o controle da pressão arterial (PA), menores são as chances de ocorrência dos riscos associados, como acidente vascular cerebral (AVC) e morte cardiovascular. Ele é um dos autores do estudo Variabilidade pressórica e perfil de risco cardiovascular no ELSA-Brasil, apresentado na sessão Doenças cardiovasculares e renais. De acordo com o médico, o valor da variabilidade pressórica é importante indicador resultante da interação entre variáveis clínicas, ambientais e comportamentais.
O Dr. Zarife explicou que a variabilidade pressórica obtida por monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA), ou por aferições sequenciais em consultório separadas por dias ou meses, tem valor prognóstico independente para desfechos cardiovasculares. No entanto, são poucos os estudos publicados sobre essa medida em uma única consulta. Nesse estudo, os pesquisadores investigaram as características demográficas e clínicas de pacientes de acordo com os quartis da variabilidade pressórica aferida em uma única visita.
O estudo foi conduzido com 15.105 participantes da linha de base do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil)[1], durante 2008 e 2010. De acordo com o médico, entre os resultados do estudo, a equipe verificou que o quartil mais elevado de coeficiente de variação da pressão arterial foi observado em pacientes com maior idade, com LDL mais elevado, com maior prevalência de síndrome metabólica e diabetes, e com valores mais elevados de velocidade de onda de pulso e de risco cardiovascular global.
"Nossa conclusão é que indivíduos que apresentam maior variabilidade pressórica apresentam maiores prevalências de alterações metabólicas e alto risco cardiovascular", disse. Segundo o Dr. Zarife, "esses resultados mostram a possibilidade de a variabilidade pressórica ser utilizada como bom indicador de risco para futuros desfechos cardiovasculares".
Pesquisa mostra efeito neutro entre café e doença coronariana
A hipertensão é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, mas ainda existem dúvidas quanto a outros possíveis fatores agravantes, entre eles, o consumo de café.
"As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo e o café é uma das bebidas mais consumidas. Porém, a relação entre os dois não é clara", afirmou Fabio Daniel Pereira Sampaio, graduando de medicina da Universidade Federal do Pará, integrante do projeto de extensão PIBEX-UFPA intitulado "Katuana da Baía do Guajará", e um dos autores do estudo "Katuana da Baía do Guajará: consumo de café e risco cardiovascular", que verificou a associação entre o consumo de café e a doença coronariana.
O estudo foi realizado pela Universidade Federal do Pará com 252 pacientes, com 30 anos ou mais de idade, que responderam a um questionário sobre frequência e quantidade de café consumido, foram submetidos a exames bioquímicos, e tiverem a pressão arterial aferida. Segundo Sampaio, os resultados confirmam aqueles publicados no artigo Coffee consumption and risk of coronary heart diseases: a meta-analysis of 21 prospective cohort studies[2], em que não foi observada relação entre consumo de café e risco cardiovascular. Porém, ele ressalta a importância deste estudo ter sido realizado na Região Norte do Brasil.
"Nossos resultados corroboram as evidências do efeito neutro do café para doença coronariana. Porém, este trabalho é um dos primeiros a serem realizadas no Norte do Brasil, região com populações bem distintas, o que também reforça a necessidade de outros estudos que englobem as diversas populações da região como ribeirinhos, indígenas e quilombolas", disse o acadêmico.
Instrumento UWIN adaptado: avaliação de sintomas do trato urinário inferior
Outro trabalho apresentado durante a sessão sobre doenças cardiovasculares e renais foi o estudo Adaptação transcultural e validação do instrumento simplificado para avaliação de sintomas do trato urinário inferior (UWIN-BR) que mostrou a viabilidade do uso do questionário Urgency, Weak Stream, Incomplete Emptying and Nocturia (UWIN)[3] na avaliação de sintomas do trato urinário inferior em homens. Segundo a autora, a enfermeira Caroline Santos Silva, sintomas do trato urinário inferior são comuns entre homens em todo o mundo, sendo o International Prostatism Symptom Score (IPSS)[4], o principal instrumento usado na avaliação destes quadros. O trabalho faz parte do mestrado de Caroline, orientado pelo Dr. José de Bessa Júnior, professor-associado da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, e coordenador do Grupo de Pesquisa em Urologia/Subgrupos populacionais e coordenador do internato em cirurgia.
"Embora tenha a aplicação bem consolidada, o IPSS é complexo, o que dificulta o uso por pacientes com baixo nível de escolaridade. Por outro lado, o questionário UWIN é mais simples e curto, com a intenção de melhorar a precisão e minimizar o erro na avaliação de sintomas do trato urinário inferior", disse a pesquisadora.
Caroline e colegas da Universidade Estadual de Feira de Santana realizaram a adaptação transcultural e validação do UWIN, aplicando-o em 100 participantes com sintomas do trato urinário inferior. Entre os participantes 90,91% completaram os questionários sem ajuda, enquanto 9,09% foram conduzidos como entrevista. Segundo a pesquisadora, os resultados mostram que o UWIN é um questionário rápido e simples, que apresenta propriedades psicométricas e possibilita resultados semelhantes aos do IPSS, sendo uma alternativa na atenção básica.
"As características do questionário adaptado ampliam a possibilidade desse instrumento, especialmente nas ações de atenção à saúde do homem, permitindo a detecção precoce de homens sob risco de agravamento dos sintomas do trato urinário inferior e direcionamento do atendimento para equipe capacitada", disse.
Citar este artigo: Pressão arterial aferida em única consulta pode ser um bom indicador para desfechos cardiovasculares - Medscape - 1 de agosto de 2018.
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