Preenchimento ligado à morte de paciente no RJ tem liberação da Anvisa, mas deve ser usado com cautela, alertam especialistas

Elioenai Paes

Notificação

2 de agosto de 2018

ATUALIZADA EM 2/8/2018 — O caso do médico brasileiro Denis Cesar Barros Furtado – conhecido nas redes sociais como Dr. Bumbum – acusado de injetar uma grande quantidade de polimetilmetacrilato (PMMA) nos glúteos de uma paciente em um procedimento no próprio apartamento onde vivia, no Rio de Janeiro, gerou comoção no Brasil.

Furtado, que era seguido por mais de meio milhão de pessoas no Instagram, fez o procedimento estético na bancária Lilian Calixto, de 46 anos, fora do ambiente ambulatorial ou hospitalar, contrariando regras de segurança.

A paciente morava no estado do Mato Grosso, centro-oeste brasileiro, e viajou ao Rio de Janeiro para fazer a bioplastia – como é conhecido o procedimento. De acordo com relatos na imprensa, Lilian avisou a família que voltaria para sua cidade logo após o procedimento. De acordo com um vídeo publicado nas redes sociais pelo próprio médico, seis horas após o procedimento Furtado levou Lilian ao hospital para ser socorrida, mas dentro de algumas horas o quadro da bancária evoluiu para óbito por parada cardíaca. Um laudo do Instituto Médico Legal (IML) do Rio de Janeiro, divulgado em 1/8 confirmou que a morte de Lilian Calixto foi causada por embolia pulmonar.

Furtado e a mãe, que é ex-médica, estão presos desde 20 de julho, acusados de homicídio qualificado e associação criminosa. A tragédia levantou discussão sobre o uso seguro do PMMA, material supostamente usado no procedimento. Apesar de a substância ser aprovada e regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), especialistas consultados pelo Medscape recomendam cautela no uso.

O PMMA é um preenchedor biocompatível bifásico, composto por microesferas suspensas em uma solução de colágeno bovino, carboximetilcelulose ou hidroxietilcelulose. O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Dr. Sérgio Palma, informa que o PMMA é um preenchedor definitivo, pois não é absorvido pelo corpo.

"É um produto utilizado para sustentação, reposição de volume da face e de volume corporal, e para preenchimento de sulcos", explica.

De acordo com o especialista, a aplicação deve ser limitada a pequenas quantidades, como é tipicamente feito em casos de preenchimento reparador da lipodistrofia facial decorrente de aids. O Sistema Único de Saúde (SUS) inclusive prevê em seu rol de procedimentos o uso do PMMA em pacientes que apresentam diminuição do tecido adiposo facial em decorrência do HIV ou dos medicamentos antirretrovirais.

O Dr. Márcio Soares Serra, dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, faz preenchimento com PMMA em pacientes com HIV há duas décadas. De acordo com ele, o sucesso da aplicação depende muito da técnica do médico, e a substância não é indicada para aplicação em grandes quantidades, já que não existem trabalhos de longo prazo mostrando eficácia e segurança. Em estudo do uso em pequena quantidade, como 22 ml, o preenchimento pode ser seguro[1], desde que o médico esteja tecnicamente habilitado para utilizar o produto corretamente.

De acordo com o Dr. Serra, o preenchedor deve ser utilizado de forma subcutânea.

"Na minha experiência, todos os problemas que vi relacionados ao PMMA, aconteceram quando o produto foi injetado muito profundamente, dentro do músculo, ou muito superficialmente".

A Dra. Marcela Cammarota, cirurgiã plástica e secretária-adjunta da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) adverte: usar o PMMA nas quantidades necessárias para preenchimento do glúteo, panturrilha e coxas não é recomendado, pois a chance de complicação é muito alta.
No caso de preenchimento estético para aumento de glúteo, a quantidade utilizada de PMMA pode variar de 400 ml a até 1,5 l, o que aumenta exponencialmente a imprevisibilidade dos efeitos colaterais, e é absolutamente desaconselhado, orienta a Dra. Marcela.

Problemas com o PMMA

O cirurgião plástico Dr. Wendell Uguetto, membro da SBCP conta que, mesmo usado em pequenas quantidades, o PMMA não está livre de efeitos adversos decorrentes da aplicação. Os efeitos podem surgir, inclusive, muitos anos depois do uso do produto. Entre eles estão edema, infecção no local da aplicação, granuloma, e migração da substância para outra parte do corpo.

Quando acontece algum problema com o preenchimento, é preciso uma intervenção cirúrgica para tentar retirar o produto do corpo, o que não acontece em sua totalidade, já que o PMMA pode se entremear aos tecidos do paciente, dificultando a retirada.

O Dr. Palma explica que, na maioria dos casos, as complicações posteriores do uso do PMMA não comprometem a vida, mas a autoestima do paciente, pois os efeitos como edema e granuloma são visíveis.

"Alguns pacientes podem precisar de medicações que controlem essas reações imunológicas e inflamatórias, como corticoides. Muitas vezes é preciso tomar ciclos de medicações anti-inflamatórias para contornar o problema", diz o dermatologista, acrescentando que, como o PMMA é um preenchedor definitivo, os problemas podem retornar depois de algum tempo.

A dermatologista Dra. Larissa Montanheiro se preocupa também com o risco da aplicação.

"Ele se torna mais alto quando o médico não tem boa técnica, treinamento, e excelente conhecimento da anatomia. Na falta desses quesitos, pode ser indicado erroneamente".

Há diferentes marcas de PMMA no mercado. A manipulação do produto foi proibida pela Anvisa em 2007, portanto o preenchedor vem em seringas prontas para o uso.

Para o Dr. Uguetto, a substância não deveria ter autorização da Anvisa, em decorrência dos problemas que podem acontecer anos depois. Para ele, há alternativas mais seguras que proporcionam resultados semelhantes, como o ácido hialurônico – embora os efeitos deste durem no máximo 18 meses, o que exige reaplicação. Mesmo com um custo que chega ser até 10 vezes maior do que o do PMMA, o Dr. Uguetto considera o uso de ácido hialurônico mais prudente, tanto para preenchimentos reparadores quanto para fins estéticos.

Resposta da advogada

O Medscape falou por telefone nesta quinta-feira (2/8) com Naiara Baldanza, a advogada que está representando Furtado. Naiara afirmou que ainda não teve acesso a todos os documentos oficiais da perícia, e por isso ainda não é possível confirmar se o médico aplicou PMMA na paciente. Segundo ela, independentemente do resultado da investigação, Furtado usou apenas produtos da MTC Medical, produzidos com rígidos padrões de qualidade.

De acordo com a advogada, Furtado estava habilitado para usar PMMA em bioplastias, mas não é cirurgião plástico, portanto os procedimentos realizados por ele não eram invasivos.

Naiara acrescentou que é prematuro atribuir a morte de Lilian Calixto ao procedimento feito pelo médico, e que é possível que a paciente tenha uma condição pré-existente que possa ter contribuído para o óbito. Ela também sustentou que o laudo sobre a causa da morte de Lilian foi inconclusivo.

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