A pílula aumenta o risco de diabetes depois da menopausa?

Becky McCall

Notificação

16 de julho de 2018

Orlando, EUA — O uso de contraceptivos orais durante a idade reprodutiva aumenta a prevalência de resistência à insulina e de diabetes entre as mulheres após a menopausa, revelou o primeiro estudo desta natureza, conduzido na Coreia do Sul.

O Dr. Sung-Woo Kim, do Daegu Catholic University Hospital, na Coreia do Sul, apresentou os resultados do estudo transverso nas sessões científicas de 2018 da American Diabetes Association (ADA).

“O estudo apresentado mostrou uma associação definitiva entre o uso de contraceptivos orais durante a idade reprodutiva e o aumento da prevalência de diabetes entre as mulheres após a menopausa, especialmente entre aquelas que usaram este método por mais de seis meses”, afirmou o Dr. Kim em entrevista ao Medscape.

Mas ele acrescentou que, mesmo entre as mulheres sem diabetes, “o uso de contraceptivos orais foi associado, de forma significativa, a maiores índices de insulinemia de jejum e resistência à insulina”.

A moderadora da sessão, Dra. Julie Bower, professora ajunta de epidemiologia na Ohio State University, em Columbus (EUA), indagou sobre o momento do início do diabetes em relação ao uso de contraceptivos orais.

“Estudos anteriores com mulheres mais jovens não identificaram vínculo entre o uso dos contraceptivos orais e o diabetes. Você acha que esta associação só é identificada com o passar do tempo?”, perguntou ela.

O Dr. Kim respondeu, que “essas mulheres após a menopausa tomaram contraceptivos orais por mais tempo do que as participantes dos estudos anteriores, que analisaram o uso vigente”. E o diabetes decorrente da resistência à insulina pode levar muitos anos para se instalar, “portanto, é necessário um longo período de observação".

Outra explicação possível é que as pacientes da coorte referida “tomaram contraceptivos antigos”, sugeriu ele.

Primeiro estudo voltado para o diabetes após a menopausa

O Dr. Kim explicou que o estrogênio é um importante regulador da homeostase da glicose. E reconheceu que dois estudos prospectivos anteriores, de grande escala e com mulheres relativamente jovens (antes da menopausa), avaliaram os efeitos do uso vigente de contraceptivos orais sobre a incidência de diabetes, mas não encontraram associações. No entanto, o pesquisador observou que o período de acompanhamento desses estudos foi limitado.

Os dados para esse estudo retrospectivo transverso foram obtidos na enquete nacional Korea National Health and Nutrition Examination (KHANES), feita com a população coreana entre 2007 e 2012.

Foram obtidas informações sobre o tempo de uso dos contraceptivos orais, idade no início da menopausa e no momento do diagnóstico de diabetes, bem como sobre terapia de reposição hormonal, hipertensão arterial sistêmica, hiperlipidemia, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e prática de atividades físicas.

O estudo contou com 6.554 mulheres após a menopausa, com cerca de 65 anos. Destas, 849 tinham de diabetes e usaram contraceptivos orais por mais de seis meses, enquanto 409 tinham diabetes, mas tomaram a pílula por menos de seis meses.

Além disso, constavam no KHANES informações sobre os níveis de glicose e de insulina de jejum de 3.338 mulheres sem diabetes após a menopausa. Deste modo, a associação entre a resistência à insulina e a história de uso de contraceptivos orais também foi analisada.

Uso de contraceptivos orais por mais de seis meses aumenta o risco de diabetes em quase 35%

Dentre as mulheres que usaram contraceptivos orais por mais de seis meses, 19,4% tinham diabetes. Esse percentual caiu para 14,4% dentre as que usaram contraceptivos orais por menos de seis meses, em comparação com 14,3% do grupo de referência que nunca tomou pílula, informou o Dr. Kim.

Isso significa que a prevalência de diabetes foi cerca de 35% maior, mesmo após ajuste por múltiplos fatores de confusão nas participantes após a menopausa, que tomaram pílula por mais de seis meses, em comparação àquelas que nunca usaram contraceptivos orais (odds ratio, OR, de 1,34; p < 0,01).

Em termos do risco de diabetes associado à duração do uso dos contraceptivos orais, a OR para um mês de uso foi de 1,005 (p < 0,01).

“A prevalência de diabetes revelou uma tendência de aumento de 0,5% por mês de uso de contraceptivos oral”, afirmou o Dr. Kim.

“Estes resultados sugerem que o uso prolongado de contraceptivos orais na idade reprodutiva pode ser um potencial fator de risco de diabetes após a menopausa”, afirmou.

O uso de contraceptivos orais por mais de seis meses também aumentou significativamente os níveis de insulina de jejum e de resistência à insulina (esta, avaliada pelo modelo homeostático de resistência à insulina) nas participantes sem diabetes, quando comparadas às que nunca tomaram pílula anticoncepcional.

A vida acontece...

Dra. Julie encerrou dizendo: “Estamos cientes de que as exposições que ocorrem na juventude podem repercutir na saúde muitos anos depois, mas muito pode acontecer ao longo do caminho, o que pode complicar as coisas”.

Os próximos passos devem considerar a “análise mais aprofundada destes e de outros dados, para determinar se o aumento do risco ocorre em função do uso dos contraceptivos orais, por causa de outros fatores de risco de diabetes, com os quais o uso também pode estar associado, ou como resultado do uso de contraceptivos orais”, acrescentou ela.

O Dr. Kim reconheceu que o estudo tem várias limitações e acrescentou que “é necessária uma investigação mais aprofundada para esclarecer os efeitos em longo prazo do uso de contraceptivos sobre o risco de diabetes em idade avançada”.

O Dr. Sung-Woo Kim e a Dra. Julie Bower informaram nã o possuir conflitos de interesses relevantes.

American Diabetes Association 2018 Scientific Sessions. 24 de junho de 2018; Orlando Flórida. Resumo 177-OR.

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