Carcinoma hepatocelular ligado a doença hepática gordurosa não alcoólica aumenta na América Latina

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck) 

Notificação

13 de julho de 2018

Um estudo conduzido em Brasil, Argentina, Colômbia, Chile, México, Peru e Uruguai mostra que as etiologias responsáveis por carcinoma hepatocelular vêm mudando ao longo dos últimos anos: os casos atribuíveis a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) aumentaram cerca de seis vezes, enquanto a taxa causada por infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) caiu pela metade. Os dados são de um estudo publicado na edição de maio da Clinics and Research in Hepatology and Gastroenterology[1]. Em entrevista ao Medscape, o Dr. Federico Piñero, do Hospital Universitario Austral, da Universidad Austral, na Argentina, e primeiro autor do trabalho, falou sobre o estudo.

Foram analisados casos de uma coorte de adultos (N = 2761) submetidos a transplante de fígado, entre 2005 e 2012, em 17 centros de saúde da América Latina, e selecionados 435 participantes que tinham carcinoma hepatocelular (CHC). Foram feitas então investigações em diferentes intervalos de tempo: 2005-2006, 2007-2008, 2009-2010 e 2011-2012.

O Brasil foi o país que contribuiu com o maior número de pacientes (N = 191), seguido por Argentina (N = 98), Chile (N = 49), México (N = 12), Peru (N = 11) e Uruguai (N = 9).

Na coorte geral, a infecção por hepatite C crônica prevaleceu como a principal causa de CHC (37%), acompanhada por infecção pelo vírus da hepatite B (HBV), que foi responsável por 25% dos casos de CHC e doença hepática alcoólica (17%).

O grupo observou, no entanto, que os casos de carcinoma hepatocelular atribuíveis ao HCV diminuíram de 48% em 2005-2006 para 26% em 2011-2012. Por outro lado, doença hepática gordurosa não alcoólica aumentou de 1,8% para 12,8% durante o mesmo período, representando a terceira maior causa de CHC.

O Dr. Piñero diz que o grupo pretende investigar de forma aprofundada essa tendência de declínio dos casos de CHC relacionados ao HCV em outra pesquisa já em andamento, que inclui casos de CHC da América Latina de 2012 a 2017. De qualquer forma, afirma o médico, considerando a história natural do CHC e do HCV, “possivelmente estamos observando o pico da taxa de incidência. Não estamos vendo mais ou com maior frequência casos novos de HCV, e talvez os novos agentes antivirais diretos possam expandir a cura dessa doença e evitar o desenvolvimento de CHC durante as próximas décadas. Considerando a DHGNA, a situação de “pandemia” de obesidade e diabetes, juntamente com dietas hipercalóricas não saudáveis, está crescendo em todos os países, incluindo os da América Latina”. Ele destaca que essa tendência de aumento dos casos de carcinoma hepatocelular relacionados a doença hepática gordurosa não alcoólica é observada, portanto, em outros continentes e, em particular, na América do Norte.

Embora a América Latina, como um todo, apresente esse padrão, há variações entre os países desse bloco. O Dr. Piñero diz que “a DHGNA é uma etiologia crescente principalmente na Argentina e no Chile”.

Na Argentina, um estudo de coorte longitudinal publicado esse ano por Dr. Piñero e colegas avaliou as etiologias de CHC no país a partir de dados de 14 hospitais regionais entre 2009 e 2016. Foram incluídos 708 adultos com CHC. De forma geral, a infecção por HCV foi a causa de CHC em 37% dos casos, seguida por doença hepática alcoólica (20,8%), DHGNA (11,4%), caráter criptogênico (9,6%), HBV (5,4%), doença colestática e hepatite autoimune (2,2%), e outras causas (9,9%). Os dados mostram aumento importante da prevalência de DHGNA: em 2009 correspondia a 4,3% dos casos, passando para 25,6% em 2015[2].

Por outro lado, uma prevalência elevada de casos de CHC relacionados à infecção por HBV merece destaque, segundo o especialista, principalmente no Brasil e na Colômbia. No Brasil, a infecção por HCV também é a causa mais comum de CHC, representando a principal etiologia em mais de 50% dos casos, mas HBV aparece em segundo lugar. Há ainda variações dentro do próprio país. Por exemplo, nas regiões Norte e Nordeste tem sido reportada uma proporção de casos de CHC relacionados ao HBV maior do que em Sul e Sudeste (22% - 25% versus 12% - 15%). Já, na Região Centro-Oeste, o HBV aparece como a etiologia mais comum (40%), seguida pelo HCV (30%)[3].

Para o médico argentino, a prevenção do CHC envolve várias decisões de políticas de saúde diferentes. “Concordo que evitar dietas calóricas e com alto teor de açúcar deve ser um foco para todo governo durante os próximos anos, assim como considerar a expansão da indicação da vacina contra o HBV, e o tratamento para o HCV em todos os pacientes infectados”, defende.

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