Câncer hepático duplicou nos países de alta renda

Pam Harrison

Notificação

9 de julho de 2018

A incidência de câncer hepático e de morte pela doença dobrou desde o início dos anos 90 em vários países de alta renda, como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Reino Unido.

O câncer hepático é o único câncer importante cuja mortalidade está aumentando nesses países, indicam os novos resultados.

"Muitos desses tumores hepáticos atingem pessoas na faixa dos 50 anos, quando elas ainda estão em idade produtiva", disse o Dr. Morris Sherman, professor emérito de medicina da University Health Network e da University of Toronto, em Ontário (Canadá), em um comunicado.

"As perspectivas de sobrevivência ao câncer hepático são reservadas, então nossa única esperança é intervir precocemente e evitar a ocorrência do câncer ou identificar os tumores curáveis em fase inicial", acrescentou.

O tema foi discutido durante o Global Hepatitis Summit 2018, realizado em Toronto.

Dados de uma taxa de incidência padronizada por idade por 100.000 habitantes mostram que a incidência de câncer hepático aumentou vertiginosamente nos quatro países desde o início dos anos 90.

No geral, a maior incidência foi observada no Reino Unido, com uma incidência padronizada por idade de 9,6 por 100.000 em 2015, seguida de 9,2 por 100.000 nos Estados Unidos, 7,4 por 100.000 na Austrália e 6,0 por 100.000 no Canadá.

Tabela 1. Câncer hepático: Incidência padronizada por idade (por 100.000)

País Homens 1993 Homens 2015 Mulheres
1993
Mulheres
2015
Reino Unido 5,4 13,5 2,6 6,2
Estados Unidos 7,2 14,1 2,5 5,0
Austrália 5,1 11,5 (2014) 1,5 3,6 (2014)
Canadá 5,0 9,6 1,6 2,6

As mortes por câncer hepático aumentaram igualmente entre homens e mulheres, novamente de acordo com a mortalidade padronizada por idade por 100.000 habitantes.

Em 2014, a mortalidade padronizada por idade foi de 8,7 por 100.000 habitantes no Reino Unido, enquanto em 2015 a mortalidade padronizada por idade foi de 6,6 por 100.000 nos Estados Unidos e na Austrália, e de 7,5 por 100.000 habitantes no Canadá.

Tabela 2. Câncer hepático: mortalidade padronizada por idade (por 100.000)

País Homens
1993
Homens
2015
Mulheres
1993
Mulheres
2015
Reino Unido 5,6 11,6 (2014) 3,1 6,2 (2014)
Estados Unidos 5,8 9,7 2,7 4,0
Austrália 4,9 9,4 1,7 4,0
Canadá 6,5 10,6 3,1 4,9

Surto de câncer hepático

Dr. Sherman disse ao público que as causas do aumento da incidência de câncer hepático e do aumento da mortalidade são a infecção pelos vírus da hepatite B e da hepatite C, bem como a "epidemia" de obesidade.

A "epidemia" de obesidade está alimentando uma "epidemia" de esteatose hepática não alcoólica (EHNA) que pode evoluir para câncer hepático, explicou.

Mesmo nos países de alta renda, como os Estados Unidos, muitas pessoas não sabem que foram infectadas pelo vírus da hepatite B ou C. Quando os sintomas aparecem, costuma ser tarde demais para oferecer tratamento curativo.

Embora os novos antivirais de ação direta (DAA, do inglês Directly Acting Antiviral) tenham revolucionado o tratamento da hepatite C – efetivamente curando 95% de todos os pacientes tratados com essa classe de medicamentos – o mesmo progresso não aconteceu para a hepatite B. No entanto, existem medicamentos que podem ajudar a prevenir a evolução para o câncer hepático em muitos pacientes.

A "epidemia" de obesidade que está causando aumento do número de pacientes evoluindo para esteatose hepática não alcoólica não está nem de longe sob controle, comentou o Dr. Sherman. Por exemplo, estima-se que 20% da população dos países desenvolvidos tenha algum grau de esteatose hepática não alcoólica. Destes, 1 em 10 poderia evoluir para cirrose, dos quais 20% a 30% poderiam ter câncer hepático.

"Estamos vendo mais câncer hepático relacionado com a esteatose hepática não alcoólica agora do que há 10 anos", disse Dr. Sherman ao Medscape.

"E também é bastante provável que, no futuro, a esteatose hepática não alcoólica seja a maior causa de câncer hepático, porque a hepatite C estará adequadamente controlada", acrescentou.

Parte do problema com hepatite B e hepatite C é o envelhecimento da população infectada.

"Quanto mais tempo você tem a infecção e quanto mais velho você é, maior a sua probabilidade de evoluir para câncer hepático", explicou o Dr. Sherman. "Então, as pessoas que adquiriram a hepatite C nas décadas de 50 e 60 agora estão chegando a uma idade na qual o câncer começa a ser mais provável, e o mesmo se aplica à hepatite B", disse o pesquisador.

De fato, no início de junho de 2018, a Canadian Association for the Study of the Liver publicou diretrizes recomendando que as pessoas nascidas entre 1945 e 1975 – os baby boomers –  façam o teste da hepatite C.

O raciocínio por trás disso é que entre dois terços e três quartos de pessoas com hepatite C, pelo menos no Canadá, nasceram entre 1945 e 1975.

Entre 40% e 70% das pessoas infectadas pelo vírus da hepatite C não sabem que estão infectadas, porque pode levar muitos anos até os sintomas aparecerem.

"Por isso que essa recomendação de testar os baby boomers é tão importante", disse o Dr. Sherman.

"A questão não é só porque esta faixa etária tem a maior prevalência de hepatite C, mas também por estarem em maior risco dentro da categoria devido ao tempo de duração da infecção", acrescentou.

No entanto, nem todos os infectados pelos vírus da hepatite B ou C, ou com esteatose hepática não alcoólica, correm risco significativo de ter câncer hepático, ressaltou o Dr. Sherman.

"Não se pode rastrear todo mundo", disse o pesquisador.

"Mas há várias classificações de risco que podem ser usadas para identificar as pessoas de alto risco para a doença, e você pode usar os sinais e sintomas clínicos, sendo o mais significativo a cirrose", observou ele. "Se o paciente tiver cirrose, o risco de câncer hepático é consideravelmente maior do que se não tiver", acrescentou.

Ao diagnosticar cirrose, os pacientes entram em um programa de rastreamento no qual fazem ultrassonografia a cada seis meses.

"Quando o diagnóstico é precoce, o câncer hepático costuma ser curável", disse o Dr. Sherman.

"E poderíamos ter um impacto enorme na futura incidência de câncer hepático, investindo mais recursos no rastreamento e no diagnóstico das hepatites B e C", previu.

Em 2012, estima-se que 745.000 pessoas morreram de câncer hepático em todo o mundo.

Dr. Morris Sherman informa que prestou consultoria para Gilead Sciences.

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