ORLANDO – Em adolescentes com intolerância à glicose (pré-diabéticos) ou início recente do diabetes tipo 2, a intervenção precoce com insulina de longa ação seguida de metformina, ou metformina apenas – ambos regimes administrados durante um ano – não preveniram a deterioração da função da célula beta.
De fato, a função da célula beta diminuiu em ambos os grupos durante o tratamento e piorou após o final do tratamento no estudo sobre medicação em pediatria RISE (Restoring Insulin Secretion), apresentado aqui nas American Diabetes Association (ADA) 2018 Scientific Sessions em 25 de junho.
Dra. Kristen J. Nadeau
"O que mais chama a atenção foi o fato de que no estado de pré-diabetes não foram observadas melhoras, e ainda existem muitos pediatras que usam metformina nestes pacientes, pois o Programa de Prevenção do Diabetes (DPP na sigla em inglês) mostrou que este era um tratamento efetivo em adultos. Porém, não estamos observando esta resposta", disse a Dra. Kristen J. Nadeau, professora de pediatria no University of Colorado Anschutz Medical Campus, Aurora, durante uma coletiva de imprensa para discutir os achados. O trabalho foi publicado simultaneamente no Diabetes Care.
"A mensagem final é que não há evidência neste momento para indicar tratamento no estado pré-diabético [em adolescentes], ao menos não com estes regimes de tratamento", disse a Dra. Kristen ao Medscape Medical News.
Mas "com certeza, nós não estamos recomendando parar a metformina em jovens que tem diabetes tipo 2, pois existem alguns benefícios", em termos de diminuir a glicemia.
"A metformina sozinha não é uma solução de longo prazo para muitos jovens, por isso precisamos descobrir tratamentos adicionais", ela reforçou.
A insulina e a metformina são os únicos tratamentos aprovados para uso no diabetes tipo 2 em jovens, mas "existem tratamentos disponíveis para o diabetes tipo 2 [em adultos] que utilizamos fora de protocolo em pediatria, como os agonistas GLP-1 e os inibidores da SGLT2", disse a Dra. Kristen ao Medscape Medical News.
Diabetes muito mais agressiva em adolescentes
Dr. Steven E. Kahn
O co-pesquisador Steve E. Kahn do VA Puget Sound Health Care System, University of Washington, Seattle disse: "Todos nós ficamos muito despontados quando vimos os resultados pediátricos. Esta não foi a nossa previsão baseada em tudo o que vemos nos adultos, onde a insulinoterapia intensiva preserva as células beta, e onde metformina tem mostrado ser efetiva em adultos tanto como tratamento de primeira linha, como para prevenção.
"O que descobrimos foi que a doença é muito diferente e potencialmente muito agressiva [em adolescentes]", disse Kahn aos jornalistas. "Compreender porque o diabetes se comporta desta maneira é de grande importância, pois este pode ser o objetivo que precisamos atingir num nível mais básico, mais do que simplesmente prescrever as medicações que temos hoje."
"A falha precoce das células beta cria uma dependência permanente de insulina, e assim o jovem tem maior risco de futuras complicações do diabetes", disse.
O Dr. John B. Buse, da University of North Carolina School of Medicine, Chapel Hill concordou. Ele foi o coautor do editorial que acompanha a publicação do estudo RISE no Diabetes Care.
"A mensagem deste estudo é que esta epidemia de obesidade em jovens tem consequências reais, e estes jovens estão em apuros. Se não podemos tratá-los com insulina ou metformina... para fazer com que a HbA1c deles chegue a um patamar razoável por 80 anos, eles terão... complicações."
"Isto só faz aumentar o nosso dever de fazer alguma coisa a respeito da epidemia de obesidade", ele reforçou.
A Dra. Kristen concordou: "Eu gostaria de reforçar este comentário – é muito difícil tratar estes pacientes, por isso precisamos prevenir o diabetes – com exercícios, dieta e sono saudável. Estas coisas precisam acontecer para que estes jovens não cheguem ao ponto onde não podemos fazer mais nada."
Os resultados do RISE reforçam os achados do estudo TODAY
No estudo pediátrico sobre medicação RISE, 91 jovens obesos pré-púberes foram distribuídos aleatoriamente para tratamento de 12 meses com metformina na dose de 1.000mg duas vezes ao dia, ou 3 meses de insulina glargina duas vezes por semana, com o objetivo de atingir a glicemia de jejum de 4,4 – 5,0 mmol/l baseado no auto-monitoramento diário da glicemia, seguido imediatamente por 9 meses de metformina.
Os jovens tinham idade média de 14 anos, índice de massa corpórea (IMC) médio de 37,7 kg/m2, e HbA1c médio de 5,7%. No geral, 60% tinham alteração na tolerância a glicose, e o restante tinha diabetes tipo 2 há menos de 6 meses.
Menos de 30% eram brancos. A maioria (77%) não tinha recebido tratamento para controle da glicemia, enquanto que 23% tinham tomado metformina. Os participantes foram testados com técnicas de clamp hiperglicêmico e teste oral de tolerância à glicose em dias separados no início do estudo, aos 12 meses e aos 15 meses.
Ambas intervenções foram bem toleradas e a taxa de retenção do estudo foi alta, com 84 dos 91 participantes recrutados completando a avaliação de 15 meses. Pesquisadores, participantes e suas famílias foram felicitados por aderir aos rigores do protocolo de estudo, dado que isto envolvia avaliações sofisticadas e muitas visitas ao hospital.
Nenhuma diferença significativa foi observada entre os grupos de tratamento no início, aos 12 meses ou aos 15 meses para a função das células beta, percentil do IMC, HbA1c, glicemia de jejum, ou teste oral de tolerância à glicose 2-horas.
Em ambos grupos de tratamento, as medidas por técnicas de clamp da função da célula beta foram significativamente mais baixas aos 12 e 15 meses, comparadas com o início do estudo.
"Estes resultados reforçam os observados no estudo TODAY (Treatment Options for Type 2 Diabetes in Adolescents and Youth), que demonstrou que em 50% dos jovens com diabetes tipo 2, o tratamento inicial falhou, requerendo o início da insulinoterapia após uma média de tempo de seguimento de 3,9 anos. O que significa uma progressão da doença mais rápida do que a relatada em adultos.", dizem a Dra. Kristen e colegas em seu artigo.
A compreensão do diabetes tipo 2 em jovens "ainda está amadurecendo"
Estes achados têm relevância clínica porque a grande maioria dos pacientes adolescentes com diabetes tipo 2 são tratados com metformina e insulina, e este estudo mostra que os tratamentos padrão não alteram a história natural da doença, escreveram em seu editorial o Dr. Buse, o Dr. David A. D'Alessio do Duke University Medical Center, Durham, North Carolina, e o Dr. Matthew C. Riddle, da Oregon Health & Science University, Portland.
A Dra. Kristen afirma que mais pesquisas são necessárias sobre o que acontece durante a puberdade – quando a resistência à insulina piora e, portanto, há mais demanda sobre as células beta – "desta forma poderemos entender melhor a razão dos jovens parecerem tão diferentes do ponto de vista fisiológico."
"Além disso, estes resultados... indicam que precisamos de mais estudos para identificar opções de tratamento novas e efetivas para jovens com alteração da tolerância à glicose ou diabetes tipo 2", ela disse.
O Dr. Griffin P. Rogers, diretor do National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK) que financiou os estudos do consórcio RISE, concorda: "Nossa compreensão de como o diabetes tipo 2 afeta os jovens ainda está amadurecendo, e precisamos continuar a explorar formas de tratamento para assegurar que estes jovens possam viver saudáveis por muito tempo. Estes resultados nos dão uma nova peça do quebra-cabeça para encontrar formas de tratar os jovens com diabetes tipo 2."
American Diabetes Association 2018 Scientific Sessions. 25 de junho de 2018; Orlando, Florida. Simpósio: The Restoring Insulin Secretion (RISE) Study in Youth and Adults.
Diabetes Care. Publicado online em 25 de junho de 2018. Texto completo, Editorial
Siga Lisa Nainggolan no Twitter: @lisanainggolan1. Para mais notícias de diabetes e endocrinologia, visite-nos no Twitter e Facebook.
© 2018 WebMD, LLC
Citar este artigo: O tratamento do diabetes juvenil deve ser diferente do diabetes iniciado na vida adulta - Medscape - 6 de julho de 2018.
Comente