ORLANDO — Novos dados mostram que o risco de transtorno do espectro autista (TEA) está aumentado nos filhos de mães com diabetes tipo 1, sugerindo que a gravidade do diabetes materno e o tempo de exposição podem ser importantes na associação.
Especificamente, com o diabetes tipo 1 na gravidez, o risco de TEA na prole aumentou, com uma hazard ratio (HR) de 2,33 (p = 0,005), em comparação com as gestações não complicadas pelo diabetes.
"O que mais nos surpreendeu dos nossos dados foi o quão alto era o risco de autismo para crianças nascidas de mães com diabetes tipo 1", observou Anny Xiang, da Kaiser Permanente, em Pasadena, Califórnia (EUA), que apresentou o estudo nas Sessões Científicas da American Diabetes Association (ADA) 2018.
Os resultados do estudo observacional foram publicados simultaneamente como uma carta de pesquisa no JAMA.
Os resultados também confirmam e se somam às evidências existentes de uma associação entre risco de TEA e diabetes gestacional ou diabetes tipo 2 na gravidez (com maior risco se diagnosticado até 26 semanas), conforme relatado anteriormente por Xiang e colaboradores (JAMA. 2015;313:1425-1434).
O moderador da sessão, Dr. Peter Damm, professor de obstetrícia no Rigshospitalet, Copenhague (Dinamarca), disse que achou o estudo forte, embora com algumas limitações, como reconhecido pelo apresentador do trabalho.
"O resultado de que o diabetes tipo 1 na gravidez tem uma hazard ratio maior para o autismo do que o diabetes tipo 2, e mais ainda do que o diabetes gestacional, reflete o grau de hiperglicemia materna e parece plausível", disse ele.
"Da mesma forma, o resultado de que as mulheres diagnosticadas com diabetes gestacional precoce (≤ 26 semanas de gestação), em comparação com aquelas com diagnóstico posterior, têm um risco maior, nos mostra uma relação dose-resposta em relação aos diferentes tipos de diabetes e o risco de autismo".
Ainda assim, ele ressaltou que, embora o diabetes na gravidez pareça aumentar o risco de autismo na prole, esse risco é muito pequeno.
"Para uma mulher individualmente, há um risco muito pequeno de que o bebê tenha o transtorno. Eu nunca levaria esse assunto a uma paciente a menos que ela me pedisse".
Primeiro a estudar associação entre diabetes tipo 1 na mãe e TEA
"Nosso interesse geral é olhar para o impacto potencial da hiperglicemia na gravidez em distúrbios do comportamento neural", explicou Anny. "Neste estudo, analisamos nossos dados para quaisquer relações entre diabetes tipo 1 e autismo, porque isso não havia sido feito antes".
A nova análise de coorte retrospectiva incluiu crianças nascidas entre 28 e 44 semanas, durante um período de 17, anos até 2012, nos hospitais Kaiser Permanente do sul da Califórnia. As crianças foram rastreadas por meio de prontuários eletrônicos por um tempo mediano de acompanhamento de 6,9 anos para um diagnóstico clínico de TEA, incluindo transtornos autistas, síndrome de Asperger e transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação.
O diabetes tipo 1 foi identificado usando um algoritmo desenvolvido para dados de prontuários eletrônicos e confirmado pela prescrição de insulina durante a gravidez.
Os resultados foram ajustados para potenciais fatores de confusão, incluindo ano de nascimento, idade materna no parto, paridade, escolaridade, raça/etnia autorreferida, mediana da renda familiar, e história de comorbidades.
De 419.425 crianças elegíveis, 621 foram expostas ao diabetes materno tipo 1, 9.453 ao diabetes materno tipo 2, 11.922 ao diabetes gestacional diagnosticado até 26 semanas de gestação e 24.505 ao diabetes gestacional diagnosticado após 26 semanas de gestação.
No total, 5.827 crianças foram diagnosticadas com TEA.
Risco ajustado de TEA na prole associado à exposição intrauterina a diabetes materno pré-existente durante a gestação
| Tipo de diabetes materno | Incidência de TEA para cada 1000 crianças | Hazard ratio ajustada* | Valor de p |
|---|---|---|---|
| Nenhum | 1,8 | 1,0 (referência) | N/A |
| Diabetes tipo 1 | 4,4 | 2,33 | 0,005 |
| Diabetes tipo 2 | 2,36 | 1,39 | < 0,001 |
| Gestacional diagnosticado até 26 semanas | 2,9 | 1,26 | < 0,001 |
| Gestacional diagnosticado após 26 semanas | 2,1 | 0,98 | 0,72 |
| *Ano de nascimento, idade materna no parto, paridade, escolaridade, raça/etnia autorreferida, mediana da renda familiar, história de comorbidades, tabagismo durante a gestação e IMC antes da gestação. |
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Todas as gestantes com diabetes tipo 1 e tipo 2, mas apenas 29% daquelas com diabetes gestacional, receberam medicamentos antidiabéticos durante a gravidez.
O risco potencial associado à exposição a medicação antidiabética foi avaliado no grupo de diabetes gestacional, ajustando-se para potenciais fatores de confusão mais a idade gestacional no diagnóstico de diabetes gestacional. Os riscos não foram significativamente diferentes entre aquelas com e sem exposição a medicamentos antidiabéticos durante a gravidez no grupo de diabetes gestacional (HR ajustada, 1,18; p = 0,10).
Anny apontou que fatores de confusão relacionados a fatores de risco paternos, e outras exposições intrauterinas e pós-natais, precisam ser avaliadas para fornecer um entendimento mais completo. Além disso, o potencial papel da glicemia materna, outras características do diabetes tipo 1, nascimento prematuro, e hipoglicemia neonatal ainda precisam ser explorados.
Em conclusão, Anny e colaboradores afirmam: "Esses resultados adicionam novas informações sobre o diabetes tipo 1, e ampliam conhecimentos anteriores sobre diabetes tipo 2 preexistente e diabetes gestacional". No entanto, "o diabetes gestacional diagnosticado após 26 semanas de gestação não foi associado a maior risco em comparação com não ter diabetes".
Implicações clínicas dos resultados
Anny explicou que a gravidez é uma oportunidade de triagem para mulheres com um problema subjacente existente.
"Muitas vezes, as grávidas são jovens e nunca considerariam ser submetidas ao rastreio de diabetes, mas elas já podem ter uma intolerância à glicose subjacente que poderia levar a diabetes gestacional e, possivelmente, diabetes futuro", disse ela.
Refletindo sobre as implicações clínicas dos resultados, ela observou: "Não importa se a mulher tem diabetes tipo 2, tipo 1 ou gestacional, as mulheres devem realmente ser tratadas durante a gravidez".
"No diabetes gestacional, a maioria recebe informações de estilo de vida como tratamento, mas a medicação só começa se os níveis de glicemia atingem um certo limite. Até o momento não temos dados de monitoramento contínuo da glicose para saber se a associação é resultado do controle sub-ótimo da glicose durante a gravidez".
"É importante, tanto para o paciente quanto para o clínico, monitorar o controle glicêmico da forma mais cuidadosa possível e garantir que ele seja normal desde o momento da concepção".
Reforçando este ponto, o Dr. Damm destacou que, idealmente, o monitoramento da glicose durante a gravidez deveria ser mais rigoroso, mas alertou que "o resultado de aumento do risco de autismo com diabetes não está associado apenas ao controle glicêmico, mas possivelmente também a outros fatores, como nascimento prematuro e status socioeconômico".
"Como clínico, neste momento não acho que mudaremos a conduta porque já tentamos controlar o metabolismo da melhor forma possível em mulheres diabéticas na gravidez ou com diabetes gestacional", concluiu.
Os autores não relataram conflitos de interesses relevantes.
Sessões Científicas da American Diabetes Association 2018. 22 de junho de 2018; Orlando, Flórida. Resumo 117-OR.
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Citar este artigo: Diabetes tipo 1 na gestação dobra o risco de autismo na prole - Medscape - 6 de julho de 2018.
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