CID-11 traz alterações importantes no rol de transtornos mentais

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

4 de julho de 2018

A Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou em 18 de junho a 11ª edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-11). O documento é uma pré-visualização, pois a versão final só será oficialmente apresentada em maio de 2019 na Assembleia Mundial da Saúde, e a previsão é que entre em vigor em janeiro de 2022[1,2]. Entre as novidades da nova classificação, estão a criação de capítulos de saúde sexual e medicina tradicional, bem como atualizações no campo da saúde mental, com a retirada da transexualidade e a inclusão do transtorno dos jogos eletrônicos (gaming disorder) nesse rol.

A versão anterior da classificação (CID-10), em vigor atualmente, foi lançada em 1990 e inclui 14.400 códigos de doença, enquanto a CID-11 inclui 55 mil. A decisão de atualizar o documento para o século 21 foi tomada em 2000. O psiquiatra Dr. Fernando Portela, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), falou sobre as diferenças das edições em entrevista ao Medscape.

Capítulo sobre saúde sexual representa mudança de paradigma

Tradicionalmente, a saúde é dividida em saúde física e mental. Mas, com a CID-11, surge um terceiro tipo: a saúde sexual. “Estamos vendo agora o surgimento de um novo paradigma, o que é muito interessante”, diz o Dr. Portela.

Segundo ele, esse capítulo traz diversos problemas, tais como disfunção erétil, disfunções sexuais, transtorno da dor sexual e transtorno do desejo sexual hipoativo. Mas, de acordo com o psiquiatra, os transtornos sexuais que têm como causa um transtorno mental continuam no rol de transtornos mentais.

“A dependência de sexo, por exemplo, é um transtorno de impulso, no qual o indivíduo desloca o impulso para o campo sexual, então, na verdade, é um transtorno de impulso”, explica.

Por outro lado, há quadros que deixaram de ser considerados transtornos mentais e passaram a figurar no campo da saúde sexual, tal como a transexualidade. Essa condição foi retirada do capítulo de saúde mental e passou para a seção de saúde sexual como incongruência de gênero.

O médico, no entanto, não vê grandes mudanças na prática. “Esse transtorno, que agora é chamado de incongruência de gênero, se caracteriza pela insatisfação com o próprio gênero. As pessoas têm a angústia de estar em um corpo estranho e ela é aliviada quando se começa a mudar o corpo, o que pode ocorrer por meio do uso de hormônio, de cirurgia de mudança de sexo ou pela adoção de uma nova forma de se vestir. É um problema sério, que deixa de ser considerado transtorno mental. Estamos na fronteira entre a psiquiatria, a saúde mental e a sociologia”, diz.

A mudança reflete, segundo o Dr. Portela, a pressão de setores LBGT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros) que conseguiram incluir no âmbito dos direitos humanos o direito de gênero.

“Não se sabe ainda qual a causa, e também há incerteza quanto ao tratamento. É uma nova condição humana, em que o indivíduo assume o risco, e que surge espontaneamente”, considera, destacando, no entanto, que é preciso muita cautela quando a questão é abordada na infância: “querer mudar o sexo de uma criança é uma grande violência porque ela não tem experiência e vivência para fazer uma escolha. Para que esse processo seja iniciado, o indivíduo precisa estar plenamente consciente”, afirma.

O capítulo de saúde sexual representa, para o Dr. Portela, uma das principais novidades da CID-11. “O fato de a saúde deixar de ser separada em saúde física e mental e passar a ser dividida em saúde física, mental e sexual representa uma revolução na medicina, pois coloca a medicina na fronteira com a sociologia e a antropologia, o que é muito interessante”, diz.

Transtorno dos jogos eletrônicos é transtorno de impulso

O grupo de transtornos mentais não sofreu apenas perdas; uma das novidades da CID-11 é a inclusão do transtorno dos jogos eletrônicos (gaming disorder). Oficialmente, a condição ainda não foi traduzida para o português, mas, segundo o Dr. Portela, três expressões vêm sendo usadas com maior frequência: transtorno dos jogos eletrônicos, transtorno de videogame e transtorno de game.

A CID-11 define esse quadro como um padrão de comportamento persistente ou recorrente de jogar (jogos digitais ou videogames) on-line ou off-line, manifestado por: “1) controle prejudicado sobre o jogo (por exemplo, início, frequência, intensidade, duração, término, contexto); 2) prioridade crescente dada ao jogo, na medida em que o jogo tem precedência sobre outros interesses da vida e atividades diárias; e 3) continuação ou escalada da prática de jogar, apesar da ocorrência de consequências negativas. O padrão de comportamento é de gravidade suficiente para resultar em prejuízo significativo nas áreas pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional, ou outras áreas importantes de funcionamento. O padrão de comportamento do jogo pode ser contínuo ou episódico e recorrente. O comportamento de jogo e outras características precisa ser evidente durante um período de pelo menos 12 meses para que um diagnóstico seja atribuído, embora a duração necessária possa ser encurtada se todos os requisitos de diagnóstico forem cumpridos e os sintomas forem graves”. É importante atenção ainda aos critérios de exclusão: jogos perigosos e transtorno bipolar do tipo I e II.

O médico da ABP tem uma visão crítica com relação ao novo diagnóstico. “Acho que, como todo o transtorno de impulso, tal como o transtorno de jogo, de sexo, de bebidas alcoólicas, de droga, o transtorno dos jogos eletrônicos incluiu o mesmo tipo de personalidade. Em minha opinião, este quadro deveria ser, portanto, mais um item de dependência. Acho que a OMS separou esse item mais pela modernidade do assunto: funciona como propaganda”, afirma o Dr. Portela. Ele explica que os psiquiatras já vêm lidando com esse quadro, na prática, há algum tempo, portanto, a alteração tem mais um valor social, diz o especialista.

O psiquiatra chama atenção, no entanto, para a possibilidade deste novo diagnóstico impulsionar o surgimento de clínicas que supostamente fornecerão tratamento para pessoas diagnosticadas com o transtorno.

“É possível que muita gente ganhe dinheiro com isso, criando clínicas, tal como ocorre com a dependência química. Mas, embora esses estabelecimentos sejam criados com grande frequência, as taxas de dependência química só aumentam”, ressalta.

Outra novidade no capítulo de transtornos mentais é a simplificação do transtorno de estresse pós-traumático.

“Na CID-10 esse diagnóstico conta com muitos itens. A nova edição reduziu a quantidade e simplificou os termos diagnósticos. Com isso, o quadro será mais diagnosticado, pois facilitou esse diagnóstico”, acredita o médico da ABP.

Nova versão já é um instrumento eletrônico

Segundo o Dr. Portela, ao disciplinar e unificar a linguagem e os critérios de diagnóstico, a CID torna-se um instrumento epidemiológico, uma ferramenta de classificação estatística que fornece um panorama do que está acontecendo na saúde das populações em todo o mundo.

“A primeira finalidade da CID é, portanto, ser uma ferramenta que trace um mapa do estado de saúde e bem-estar da população. Além disso, é um orientador para políticas de saúde. Com base nesses dados, nessas estatísticas, sabe-se exatamente para onde direcionar as políticas de saúde pública. Também serve para pesquisadores, pois permite que eles façam uma análise do mapa da saúde do local onde pretendem investir”, afirma.

No campo da saúde mental, outra ferramenta importante é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)[3], publicado pela American Psychiatric Association (APA), mas, segundo o Dr. Portela, a CID tem uma especificidade que o DSM não tem: permite que os países possam adaptá-la para condições locais. De fato, a divulgação de uma pré-visualização da CID-11, segundo o site das Nações Unidas, destina-se a permitir que os países possam planejar o uso da ferramenta, preparar traduções e treinar os profissionais de saúde.

Embora a CID-10 esteja disponível em formato eletrônico, originalmente ela não foi publicada nesse formato. A CID-11, no entanto, já nasce como um instrumento eletrônico.

“Certamente a CID-11 vai fazer interface com outros programas que vão fazer coleta de dados e uma análise estatística final”, afirma o Dr. Portela, destacando que “essa característica é especialmente importante em países pobres, pois facilita o registro de dados e permite que grande parte das doenças que ainda não é computada possa passar a ser”.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....