“Inércia clínica” é comum em pacientes com diabetes não controlado

3 de julho de 2018

ORLANDO, EUA — Inércia clínica pode ser definida como "falha dos serviços de saúde em iniciar ou modificar o tratamento quando necessário", uma situação frequente segundo um grande estudo envolvendo pacientes com diabetes tipo 2 não controlado. O trabalho foi apresentado no American Diabetes Association (ADA) 2018 Scientific Sessions.

"A descoberta surpreendente, ou talvez nem tanto assim, é que esta situação foi observada em 90% dos pacientes, mas apenas 56% destes atingiram o controle glicêmico (HbA1c < 8,0%) dentro de dois anos, com um tempo médio de cerca de nove meses", relatou Elizabeth L. Ciemins, diretora de Research & Analytics na American Medical Group Association (AMGA) em Alexandria, Virginia (EUA).

Especificamente, os pesquisadores definiram inércia clínica como não prescrever uma nova classe de tratamento do diabetes ou persistência na falta de controle do diabetes (HbA1c ≥ 8,0%) no estudo de pacientes não-internados com informações de um grande banco de dados nacional dos Estados Unidos.

Uma das grandes barreiras para lidar com a inércia clínica é o custo, disse Elizabeth ao Medscape, pois a insulina e as novas drogas para o diabetes, como os agonistas do receptor GLP-1 e os inibidores SGLT-2, são muito caros.

Ou talvez os médicos não estejam seguindo as diretrizes – como as da ADA – ao pé da letra, especulou um médico de Londres (Reino Unido).

"Acho que o termo inércia clínica é carregado. Ele dá a entender: Médico levado, você não está fazendo o que o professor mandou, neste caso o professor é a ADA", disse ele, arrancando risos da plateia.

E se o médico preferir seguir as diretrizes do American College of Physicians (ACP), "sobre as quais houve muita discussão, e que são mais flexíveis considerando comorbidades, idade e potenciais ganhos em QALYs (quality-adjusted life-years) ao diminuir a HbA1c", por exemplo, em um paciente de 75 anos de idade com muitas comorbidades?

Além disso, ele questionou se os pesquisadores ajustaram para diferenças de renda.

Elizabeth respondeu que o diabetes não controlado foi mais provável de persistir em pacientes com menor nível de educação ou que viviam em bairros menos afluentes.

Muitos fatores ligados aos pacientes e ligados aos médicos poderiam contribuir para a persistência da glicemia fora de controle. Contudo, o estudo não foi concebido para determinar os fatores que levam à inércia clínica, apenas para documentar o problema.

"Os médicos sempre culpam os pacientes e os pacientes sempre culpam os médicos" pela falta de controle da glicemia, relatou ela.

"E ambos poderiam culpar a ADA", disse o médico britânico, causando mais risos.

As diretrizes da ADA estão sendo seguidas?

As diretrizes da ADA recomendam o aumento da terapia do diabetes a cada três meses se os pacientes não atingirem os níveis esperados de HbA1c, explicou Elizabeth. No entanto, vários estudos prévios sugerem que muitos pacientes podem não estar recebendo este aumento recomendado no tratamento.

E a inércia clínica aumenta com a duração do diabetes, a idade do paciente e a polifarmácia. Por outro lado, médicos também devem evitar o excesso de exames que podem levar a tratamentos desnecessários e potenciais eventos adversos, como a hipoglicemia em idosos.

Os pesquisadores identificaram 281.000 pacientes não-internados com diabetes tipo 2, entre 18 e 75 anos, que foram acompanhados em 22 serviços de saúde (membros da AMGA), de 2012 até 2017.

Destes, 27.925 pacientes que nunca fizeram uso de insulina, apresentavam HbA1c ≥ 8,0%, tinham a idade média de 58 anos e cerca de 44% eram do sexo feminino.

Durante os primeiros seis meses, quase metade destes pacientes (46%) não recebeu alteração observável em seu tratamento (variação de 34% até 56% dos pacientes em diferentes serviços de saúde), e foi classificado como grupo "inércia clínica".

No ano 1, este número foi de 25%, e aos 18 meses, foi de 20%.

Aos dois anos, 3.208 pacientes (11%) foram considerados como parte do grupo "inércia clínica" (variação de 7% a 19% dos pacientes em diferentes serviços de saúde).

Aqueles no grupo de inércia clínica tinham menores IMC (34,5 vs. 35,3 kg/m2) e índice de gravidade do diabetes (1,4 vs. 1,8), comparados com aqueles em que foi feita alguma mudança no tratamento. Eles também tinham maior probabilidade de ser asiáticos (2,4% vs. 1,6%) ou afro-americanos (14,5% vs. 11,0%), p < 0,01 para todos.

"A falta de ação clínica nos seis meses após uma HbA1c ≥ 8,0% sugere inércia clínica segundo as diretrizes ADA", concluíram os pesquisadores.

"E maiores taxas em grupos com seguro de saúde para baixa renda e adultos de minorias étnicas/raciais sugerem populações-alvo que potencialmente podem receber melhor tratamento para o diabetes."

Os serviços de saúde mais bem-sucedidos foram "sistemas como o Geisinger e o Kaiser, que podem incluir medicações caras porém efetivas no seu rol de tratamento, pois têm o papel de financiadores e de provedores de serviços de saúde."

Para superar a inércia clínica, ela sugere que os sistemas de saúde identifiquem clínicas e médicos com alta performance, "e entendam o que eles estão fazendo diferente de outras clínicas dentro do mesmo sistema para obter melhores desfechos."

Esta pesquisa recebeu o apoio de Novo Nordisk como patrocinador da AMGA Together to Goal National Diabetes Campaign através da AMGA Foundation. Ciemins declarou não possuir conflitos de interesses relevantes.

Sessões científicas American Diabetes Association 2018. 22 de junho de 2018; Orlando, Florida. Resumo 1-OR.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....