Chicago — Médicos que tratam de pacientes com câncer podem um dia querer enviar uma carinha sorridente, polegares para cima e um coração vermelho para a Dra. Carrie A. Thompson, oncologista da Mayo Clinic em Rochester, Minnesota, por seu novo estudo sobre o uso de emoticons para obter e avaliar os desfechos descritos pelo paciente.
Os hieróglifos da era digital podem tornar mais fácil para os pacientes descrever desfechos como fadiga e estado funcional, e assim tornarem essas informações vitais mais acessíveis para os médicos, disseram Dra. Carrie e colaboradores.
“As escalas emoticons são uma ferramenta promissora para avaliar os desfechos descritos pelos pacientes”, disse a médica à audiência na reunião anual de 2018 da American Society of Clinical Oncology (ASCO).
Obter os desfechos descritos pelo paciente por meio das enquetes tradicionais com caneta e papel pode ser oneroso para eles, então a equipe da Mayo Clinic inventou novas escalas de emoticons para a descrição dos desfechos e criou aplicativos para o iPhone e o Apple Watch.
Os pesquisadores alocaram aleatoriamente 300 pacientes com câncer em três grupos com base no modo de resposta da pesquisa dos desfechos descritos pelo paciente: papel, iPhone e Apple Watch. Todos os pacientes responderam a perguntas sobre qualidade de vida física, emocional e geral durante 12 semanas. Os pacientes que usaram papel preencheram questionários semanais com papel e caneta. Os pacientes que usaram o iPhone e o Apple Watch também completaram pesquisas semanais com texto nos próprios dispositivos e responderam a perguntas diárias com emoticons.
Cabe ressaltar que independentemente do grupo de pesquisa, todos os participantes do estudo receberam um Apple Watch, que registrou os níveis diários de atividade e frequência cardíaca por meio de sensores.
Dra. Carrie e colaboradores descobriram que as respostas às escalas de emoticons se correlacionavam bem com as das avaliações tradicionais de desfechos descritos pelo paciente, e que os registros de atividade física por meio das tecnologias móveis se correlacionavam bem com a função e a qualidade de vida.
Embora os dados objetivos sobre as atividades do Apple Watchtenham sido “significativamente associados aos resultados descritos pelos pacientes”, os índices de resposta da pesquisa semanal pelo Apple Watch foram menores do que os observados pelo iPhone ou com papel e caneta.
A Dra. Carrie indicou que o estudo está em andamento, e que os pacientes serão acompanhados a cada três meses durante 24 meses para identificar eventos como recidiva, retratamento, hospitalização e morte, para examinar as associações entre os níveis de atividade, os desfechos descritos pelo paciente e os desfechos clínicos.
“Além disso, estamos fazendo outras análises para entender as discrepâncias dos índices de resposta entre os grupos”, disse a pesquisadora.
Atualmente, os achados mostram que “a coleta dos desfechos descritos pelos pacientes e dos dados de atividades por meio da tecnologia móvel para os pacientes com câncer é exequível”, acrescentou a Dra. Carrie.
O Dr. Martin J. Taphoorn, neuro-oncologista do Haaglanden Medisch Centrum, em Haia, na Holanda, disse à audiência que a consciência do estado funcional e do bem-estar do paciente por meio dos desfechos descritos pelo paciente “pode facilitar a comunicação entre os médicos e os pacientes, bem como aumentar a qualidade de vida relacionada com a saúde e informar os médicos sobre a repercussão de um tratamento específico (…), e pode até ajudar a melhorar a sobrevida”.
O Dr. Taphoorn disse que a possibilidade de substituir os métodos tradicionais de avaliação dos desfechos descritos pelo paciente pelo uso de emoticons e tecnologias modernas como o Apple Watch e o iPhone é “muito importante, pois sabemos que as pessoas podem achar difícil responder a tantas perguntas”.
O comentarista acrescentou: “A coisa boa que Dra. Carrie e colaboradores fizeram foi elaborar um estudo randomizado entre esses três grupos de pacientes e demonstrar que realmente vemos uma associação positiva entre a atividade dos pacientes em termos de melhora funcional e os sintomas nesses pacientes”.
O Dr. Taphoorn disse que as fraquezas do estudo foram a necessidade de um Apple Watch, e que o índice de resposta foi apenas moderado nesse dispositivo.
O médico também se perguntou se haveriam diferenças culturais em termos de interpretação dos emoticons, bem como se os resultados variariam de acordo com diferenças de idade dos pacientes.
No entanto, o Dr. Taphoorn disse que os resultados são “promissores” e “facilmente interpretáveis”, e que esses dispositivos podem melhorar a adesão entre os pacientes.
Mais detalhes do estudo
A equipe da Mayo Clinic criou tecnologias para medir a atividade física e os desfechos descritos pelos pacientes por meio do Apple Watch e do iPhone com um aplicativo criado com a estrutura de desenvolvimento de código aberto ResearchKit, da Apple.
A seguir, recrutaram pacientes adultos com diagnóstico de linfoma, mieloma, câncer no cérebro, câncer de pâncreas, câncer de mama ou câncer de ovário nos últimos cinco anos, cuja expectativa de vida era superior a seis meses.
Todos os participantes precisavam ter um iPhone versão 5.0 ou superior. Os participantes receberam um Apple Watch e ambos dispositivos foram carregados com o aplicativo de estudo.
Os pacientes foram solicitados a usar o Apple Watch por um mínimo de oito horas por dia durante 12 semanas, para a obtenção dos dados sobre a própria atividade física.
Os participantes preencheram os formulários resumidos Patient-Reported Outcomes Measurement Information System (PROMIS), que avaliaram saúde global, estado funcional, fadiga, transtornos do sono, função e papel social, e ansiedade.
Eles também preencheram autoavaliações lineares analógicas (LASAs, do inglês Linear Analogue Self-Assessments) sobre bem-estar físico, bem-estar emocional, fadiga e qualidade de vida.
Para as perguntas com os emoticons, a equipe criou uma escala ordinal de emoticons. Cinco carinhas foram escolhidas. Os emoticons foram então validados em 20 pacientes com câncer, e foram testados comparando-os à autoavaliação linear analógica.
Os pesquisadores também criaram uma escala de humor por emoticon, na qual uma série de emoticons foi escolhida para corresponder aos sentimentos vivenciados pelos pacientes com câncer, como fadiga, frustração, sentimentos médios/medíocres, gratidão e felicidade.
A mediana de idade dos pacientes foi de 53 anos e 94% eram brancos. A mediana do tempo desde o diagnóstico de câncer foi de 14,4 meses. A maioria (63%) dos pacientes estava em tratamento.
Com relação à alfabetização em informática, 100% dos pacientes usavam iPhone, 99% tinham usado computador nos últimos 12 meses, e 87% usavam computador de cinco a sete dias por semana. Apenas 27% já tinham usado algum smartwatch.
A Dra. Carrie observou que os grupos foram bem equilibrados em relação às características iniciais.
Durante a vigência do estudo, os pacientes usaram o Apple Watch por uma média de 9,8 horas por dia durante uma média de 131,6 dias.
O índice médio de resposta para as pesquisas semanais foi de 76% no grupo de papel e caneta, 77% no grupo do iPhone e 60% no grupo do Apple Watch. Em todos os grupos os índices de resposta diminuíram ao longo do tempo.
Para as pesquisas diárias com emoticons o índice de resposta foi de 86% no grupo do iPhone, e de 69% no grupo do Apple Watch.
A equipe coletou no total 21,4 milhões de registros. O número médio de passos por dia foi de 4.419,5, o que, segundo a Dra. Carrie, ficou logo abaixo do número médio de passos diários da população dos EUA, como mostrado em estudos anteriores.
Mais passos por dia foram associados com menos fadiga (p< 0,0001), melhor função física (p< 0,0001), mais bem-estar físico geral (p< 0,0001), melhor função social (p= 0,0127) e menos transtornos do sono (p= 0,0233).
Ter mais minutos de exercício por dia foi associado a melhor bem-estar mental geral (p= 0,0027) e menos transtorno do sono (p= 0,0167).
A equipe também descobriu que os resultados obtidos com os emoticons foram correlacionados de forma altamente significativa em geral e para as emoções individuais (p< 0,0001).
Além disso, houve correlações significativas entre as pontuações dos desfechos descritos pelo paciente para a qualidade de vida em geral, a saúde física e mental geral, o estado funcional, a fadiga, a ansiedade e o sono, nos formulários abreviados PROMIS e seus correspondentes emoticons (p< 0,001 para todos).
A Dra. Carrie disse que gostaria de ver mais pesquisas com seus aplicativos. Ela pediu mais estudos randomizados para determinar se a avaliação dos desfechos descritos pelo paciente e os dados de atividade com tecnologia portátil melhora os desfechos em pacientes com câncer, incluindo as pessoas que não falam inglês, os pacientes mais velhos, e os pacientes sem conhecimentos de informática.
Não foi informado nenhum financiamento para o estudo. A Dra. Kathryn Jean Ruddy, tem ações e outras participações emMerck e Pfizer, e tem patentes, royalties e outras propriedades intelectuais. O marido dela é coinventor da tecnologia licenciada pela Mayo Clinic para a AliveCor, que fabrica um sistema de monitoramento de ECG remoto habilitado para smartphone. O Dr. Joon H. Uhm recebeu honorários, acomodações de viagem e compensação por despesas e consultoria deNovocure. O Dr. Thomas E. Witzig tem ações e outras participações emValeant Pharmaceuticals International; prestou consultoria ou assessoria para as Celgene e Seattle Genetics; e recebeu financiamento de pesquisa institucional deAcerta Pharma, Celgene, Novartis e Spectrum Pharmaceuticals.
American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2018. Resumo6501, apresentado em 1º de junho de 2018.
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Citar este artigo: Emoticons ajudam pacientes com câncer a informar sintomas e qualidade de vida - Medscape - 22 de junho de 2018.
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