COMENTÁRIO

ASCO 2018: novidades no tratamento de tumores genitourinários

Dr. Raphael Brandão; Dr. Tiago Pádua; Dr. Diogo Rodrigues

Notificação

13 de julho de 2018

Colaboração Editorial

Medscape &

Dr. Raphael Brandão: Olá, sou o Dr. Raphael Brandão, oncologista do Américas Oncologia. Tenho a honra de estar aqui hoje com o Dr. Diogo e com o Dr. Tiago, dois experts no nosso time de geniturinário, para discutir o que teve de novidade, o que foi mais pontual, o que foi mais plausível para nossa prática clínica durante essa ASCO 2018. A gente teve um trabalho fantástico, o CARMENA, que demorou, mas saiu, não foi Tiago? Foi apresentado na Sessão Plenária. Vamos discutir um pouco esse estudo.

Dr. Tiago Pádua: Claro. O CARMENA foi um estudo apresentado hoje na Plenária. Foi um trabalho francês, do grupo do Gustav Russi, que avaliou o papel da nefrectomia citorredutora no cenário do câncer de rim metastático. Essa era uma grande dúvida da uro-oncologia. Alguns trabalhos da década de 1990, de 2000, mostraram benefícios na sobrevida global associado ao interferon da cirurgia, mas era questionado esse benefício na área terapia-alvo. Então foi o primeiro trabalho prospectivo, randomizado, que avaliou mais de 450 pacientes randomizados em dois braços. Um braço recebeu Sutent isolado e o outro braço recebeu a cirurgia seguido de Sutent. O trabalho mostrou que a nefrectomia citorredutora não acrescentou em nada em termos de sobrevida global, taxa de resposta e sobrevida livre de progressão. Mas vale ressaltar que esses pacientes eram de risco intermediário e, na prática, nós já não indicávamos a nefrectomia para esses pacientes. Talvez para os pacientes de risco favorável, ou com doença metastática, ainda pode ser considerada a cirurgia. Mas é necessário individualizar.

Dr. Raphael Brandão: Eu concordo com você. Acho que, se tivermos volume baixo de doença, ou uma doença indolente, acho que vale a pena eventualmente, deixar o paciente livre de remédio um tempo maior.

Dr. Diogo Rodrigues: Sim, isso foi algo discutido. Aqueles pacientes que têm um volume muito grande de doença no rim e pouca doença metastática, esses doentes talvez ainda se beneficiem de fazer a nefrectomia. Acho que é um dado a mais, mas ainda tem de ser individualizado.

Dr. Raphael Brandão: Sim, concordo. E próstata, Diogo? Em câncer de próstata, definitivamente, não temos respostas 100%, não é? Sempre se discute, sempre se tem várias possibilidades. E PET com PSMA? Os americanos vão começar a adotar o PET com PSMA?

Dr. Diogo Rodrigues: Com certeza. Os americanos não seguiam até então o que estava sendo feito na Europa e na Austrália, e também muito no Brasil, nos últimos dois anos, que era o uso do PET com PSMA na recorrência bioquímica. Já tínhamos uma experiência com o PET com fluoreto, mas basicamente para avaliar doença óssea e também o PET com colina, embora não tivesse no Brasil, fora pesquisa clínica. Nós conseguíamos eventualmente fazer com que o paciente fizesse em um outro contexto. O PET com PSMA veio, mas os americanos ainda tinham uma resistência, eles usavam PET com fluciclovina, que não era tão bom. Hoje foi apresentado um estudo com 250 pacientes, um trabalho prospectivo para recorrência bioquímica que mostrou uma sensibilidade em torno de 85%, um valor preditivo positivo de 85%, o que é muito alto. Esse valor, ele está secundário ao valor do PSA, então acima de 0,2, já pode ser feito, acima de…

Dr. Raphael Brandão: Isso é uma boa coisa, porque tínhamos na cabeça que é preciso ter um PSA acima de 4 ou 5 para poder fazer. Então 0,2 já pode…

Dr. Diogo Rodrigues: Sim, 0,2 já pode ser feito. Acima de 0,5, o valor preditivo positivo é de 66%, acima de 1, de 86%, acima de 5, acima de 95%, 98%. E o interessante é que aqueles pacientes em que foi feita alguma terapia direcionada para metástase, tiveram uma taxa de resposta da ordem de 78%, uma queda do PSA maior do que 50%, sendo que desses, 30% tiveram controle total do PSA, ficaram livres de um tratamento sistêmico, só controlando a metástase, uma linfadenectomia, uma radioterapia localizada para doença oligometastática. Eles ficaram livres do tratamento para doença metastática, o que é muito interessante.

Dr. Raphael Brandão: Fantástico, fantástico, fantástico, fantástico.

Dr. Tiago Pádua: E o interessante é que eles vão submeter à FDA a aprovação do PET com PSMA para uso na prática.

Dr. Diogo Rodrigues: Isso. Trata-se de uma coisa que talvez possamos puxar para o Brasil também, para disponibilizar. Hoje o paciente tem de pagar, mas talvez as seguradoras possam reembolsar, não é mesmo?

Dr. Raphael Brandão: Nossos colegas europeus têm isso disponível, é fantástico. E alguma novidade fora rim e bexiga? Teve imunoterapia, combinação, como é que foi?

Dr. Tiago Pádua: O que foi interessante foram alguns trabalhos de imunoterapia na neoadjuvância de bexiga. Foram apresentados dois trabalhos de fase II com imunoterapia. Teve um trabalho com pembrolizumabe e um com atezolizumabe, e os dois mostraram taxa de resposta patológica completa. Com dois ciclos de atezolizumabe eles conseguiram uma taxa de 30%…

Dr. Raphael Brandão: Dois ciclos?

Dr. Tiago Pádua: Dois ciclos. E com pembrolizumabe, e três ciclos, atingiu 40%. Para o paciente com PD-L1 positivo chegou a quase 50% de taxa de resposta. Então são dados promissores.

Dr. Diogo Rodrigues: O que lembra um pouco a taxa de resposta com quimioterapia. Só que é uma imunoterapia, não é mesmo?

Dr. Raphael Brandão: Sim, com uma toxicidade muito diferente.

Dr. Diogo Rodrigues: E não teve novidade só para imunoterapia contra o câncer de bexiga, tivemos o enfortumab, um anti-nectina 4, que é uma molécula que está hiperexpressa no carcinoma urotelial, e o erdafitinibe, que é um anti-EFGFR. E os dois tiveram uma taxa de resposta para pacientes politratados, muitos com mais de duas linhas de tratamento, da ordem de 40%, ou seja, uma coisa muito boa. O erdafitinibe está um pouquinho mais à frente no desenvolvimento, já se falou do estudo THOR, que é o estudo fase III comparando o erdafitinibe com quimioterapia ou pembrolizumabe. Então temos muita coisa nova surgindo para carcinoma urotelial, para o câncer de bexiga.

Dr. Raphael Brandão: Fantástico. Queria agradecer a vocês. Fantástica discussão. Obrigado a todos. Continuem nos acompanhando aqui no Medscape em português.

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