COMENTÁRIO

ASCO 2018: resultados animadores no tratamento de tumores metastáticos de cabeça e pescoço

Dr. Paulo Mora; Dr. Luiz Henrique Araújo; Dr. Cícero Martins

Notificação

2 de julho de 2018

Colaboração Editorial

Medscape &

Dr. Paulo Mora: Olá, eu sou o Dr. Paulo Mora e estou aqui com os Drs. Luiz Henrique Araújo e Cícero Martins, oncologistas clínicos do Américas Oncologia. Nós vamos conversar sobre neoplasia de cabeça e pescoço direto do ASCO 2018 para o Medscape em português. Luiz, que que você achou de mais interessante em HPV e em tumores de cabeça e pescoço?

Dr. Luiz Henrique Araújo: Bem, Paulo, queria destacar um estudo do banco de dados norte-americano, no qual os pesquisadores olharam para 2.500 casos de pacientes com câncer de orofaringe, estágio I, e olharam especificamente para ver o desfecho de eficácia daqueles pacientes tratados com cirurgia. E o que eles viram nesse banco de dados foi que a sobrevida global dos pacientes em quatro anos era de 93%. Esse trabalho olhou exclusivamente para pacientes de risco baixo e intermediário, ou seja, aqueles pacientes que tinham margem positiva ou com extravasamento extracapsular macroscópico foram excluídos. E o fato é que, independentemente de adjuvância, os resultados foram semelhantes. Naqueles pacientes foram operados com ou sem radioterapia adjuvante, com ou sem quimio e radioterapia adjuvante, a sobrevida foi idêntica, tanto em uma análise univariada quanto em uma multivariada. Então isso coloca que, provavelmente, a cirurgia nesse cenário é uma excelente alternativa para o tratamento desses pacientes.

Dr. Paulo Mora: E na doença localmente avançada? Alguma novidade?

Dr. Luiz Henrique Araújo: Na localmente avançada também teve um trabalho superinteressante. É um um estudo de fase II com 20 pacientes. Os dados são bem preliminares, precoces, mas o que eles faziam era quimioterapia neoadjuvante: faziam 3 ciclos de uma combinação de cisplatina com docetaxel, procurando uma taxa de resposta elevada, que é o que a gente vê nos casos HPV-positivos, de orofaringe e, em seguida, operava esses pacientes. E o que foi observado foi que todos eles tiveram redução de mais de 80% do tumor. Na cirurgia (todos foram operados), dos 20 pacientes, 15 tiveram resposta patológica completa na cirurgia, o que é bem impressionante, e 18 desses pacientes estavam sem evidência da doença no follow-up de dois anos.

Dr. Cícero Martins: Eu acho que é legal falarmos também que se trata de uma tentativa de diminuir o tratamento para os pacientes HPV-positivos. Sempre que se fala de indução se fala de radioterapia, mas acho que é a primeira vez que fazemos indução e poupamos esses pacientes da radioterapia, e o resultado tem sido magnífico, não é mesmo?

Dr. Luiz Henrique Araújo: Exatamente. A radioterapia fica para aqueles casos de exceção, que vão ter algum tipo de recidiva local ou locorregional.

Dr. Paulo Mora: Por falar nisso, vamos falar de doença avançada. Você viu alguma coisa interessante, Cícero?

Dr. Cícero Martins: Tem um trabalho interessante no cenário metastático. Sabemos que o cenário metastático de cabeça e pescoço até teve a aprovação do nivolumabe pelo CheckMate-141, mas a ainda carecemos de tratamentos melhores. E foi apresentado um estudo da combinação do CTX, do cetuximabe, com palbociclibe. A lógica desse estudo é: sabe-se que o cetuximabe, que pode ser usado tanto em doença locorregional, junto com a radioterapia, quanto no cenário metastático, ele tem como uma das vias de resistência uma ativação na veraciclina, e fazia todo um racional combinar o palbociclibe nesse grupo de pacientes. Estamos falando de uma droga que, isoladamente, em segunda-linha, é metastática, tem algo em torno de quatro a seis meses de sobrevida global, cerca de dois meses de sobrevida em nível de progressão, e a combinação do palbociclibe com o cetuximabe transforma esses quatro a seis meses em nove meses e meio de sobrevida global, e em cinco meses de sobrevida em nível de progressão. Acho que é um estudo pequeno, é um estudo fase II, mas se lembrarmos que com o CheckMate-141, o nivolumabe foi aprovado com uma sobrevida global de sete meses e meio, acho que ele necessita ser investigado em um estudo fase III, que é o que estamos tendo por agora. E mais ainda, acho que podemos começar a pensar em incorporar o palbociclibe, eventualmente, até em primeira-linha.

Dr. Paulo Mora: Muito bem. E em relação a radioproteção? Você viu alguma coisa?

Dr. Cícero Martins: Acho que cada vez mais precisamos de estudos em relação à toxicidade. Na ASCO esse ano teve dois estudos, um de melatonina oral, foi um estudo negativo, mas tivemos um estudo muito interessante, fase II, razoavelmente pequeno, de uma droga nova chamada avisopasen. Na verdade, funciona como uma inibição da oxidação que acontece na mucosa e a ideia desse remédio é diminuir a incidência e o tempo de mucosite, que é um problema praticamente universal nos pacientes em radioterapia. E como funcionou? Foram três braços, duas doses diferentes (30 mg e 90 mg) e placebo. Quando olhamos o braço de 90 mg, vê-se 90% de duração de mucosite e 40% a menos incidência de mucosite, com 40% a menos de incidência grau 3 e grau 4, ou seja, são pacientes que não conseguem se alimentar com sólidos, só com líquido, ou que não conseguem se alimentar, que precisam de uma gastrostomia. Acho que o problema do medicamento é que ele é feito diariamente, intravenoso, 60 minutos de infusão até 60 minutos antes da radioterapia. Então acho que isso é um problema, mas os resultados foram tão importantes que já se está levando ele para uma fase III e a FDA deu fast-track para essa droga. Acho que é uma coisa que vai começar a vigorar nos próximos anos, vamos ver falarem muito disso.

Dr. Luiz Henrique Araújo: É interessante colocarmos em contexto. Por exemplo, no nosso centro, temos o hábito de usar a laserterapia. Então não dá para saber como vai ser o efeito dessa droga em vigência de um cenário como o nosso, no qual a laserterapia já é rotina, e onde já foi definido, em estudos inclusive de fase III, que tem um efeito benéfico na redução da mucosite. Na nossa prática, vemos cada vez menos, pelo menos a mucosite oral, que é controlável pela laserterapia. Então, são cenários a serem visto daí para frente.

Dr. Paulo Mora: Essas foram as novidades em neoplasia de cabeça e pescoço. Obrigado e até a próxima.

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