Pacientes idosos com câncer necessitam de cuidados além do foco puramente oncológico

Liam Davenport

Notificação

18 de junho de 2018

CHICAGO — Quando a avaliação geriátrica (AG) é parte da rotina de atendimento de oncologistas que cuidam de pacientes idosos com câncer (>70 anos), ela pode conduzir discussões de melhor qualidade sobre questões de saúde ligadas à idade. Isto resulta em intervenções mais personalizadas, conclui um novo estudo feito nos Estados Unidos.

“Em oncologia, não temos muito tempo com o paciente no consultório”, comentou a autora principal do estudo Dra. Supriya Gupta Mohile, professora da cátedra Wehrheim de medicina na University of Rochester, de Nova York.

“Estamos muito focados no câncer e no tratamento”, e quando os pacientes vão ver o oncologista, “eles também estão pensando sobre o câncer”.

A AG avalia a saúde geral, assim como, os status funcional e de desempenho, por isso “abre espaço para as pessoas falarem sobre (questões de saúde ligadas à idade)”, explicou a Dra. Supriya. Ela leva em conta aspectos de memória, problemas de deambulação e questões da dinâmica familiar dos pacientes. Por exemplo, uma mulher que acabou de receber o diagnóstico de câncer está preocupada com os cuidados de que necessita o marido dela, que tem demência.

A AG é uma maneira de avaliar características geriátricas conhecidas por predizer morbidade e mortalidade, incluindo status funcional, desempenho físico, comorbidades, cognição e estado nutricional.

Ela dá uma oportunidade a pacientes e cuidadores, assim como aos oncologistas, de “compreender claramente” o que pode ser relevante, e isso “vai levar a melhores decisões sobre o tratamento e a um melhor cuidado de forma geral”, comentou ela.

“Como oncologistas, precisamos parar de focar apenas no câncer, especialmente em pacientes idosos”, comentou ela em um comunicado à imprensa.

“Viver mais é importante, mas há muitos problemas de saúde não relacionados ao câncer que são tão importantes quanto, e talvez até mais do que o câncer.”

A Dra. Supriya apresentou seu trabalho na American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2018, em uma coletiva de imprensa da qual o estudo foi um dos destaques.

Um guia de prática clínica recente da ASCO reforçou a importância da avaliação geriátrica, e fez uma série de recomendações de avaliação e tratamento de vulnerabilidade em pacientes idosos recebendo quimioterapia.

Contudo, apesar da AG ter se mostrado viável e capaz de orientar intervenções conhecidas por melhorar o desfecho clínico em adultos, apenas 20% dos oncologistas a utilizam na prática clínica.

A Dra. Supriya e colegas então utilizaram informações do ensaio clínico COACH (do inglês Communication in Older Cancer Patients and Their Caregivers) para determinar se fornecer o resumo da avaliação geriátrica e recomendações de intervenções resultaria em aumento da preocupação dos médicos com questões de saúde dos pacientes relacionadas à idade deles.

O ensaio clínico randomizado em cluster e controlado envolveu 542 pacientes, com pelo menos 70 anos, com tumores sólidos avançados ou linfoma, e com déficit em ao menos um domínio da AG. Os pacientes foram recrutados de 31 locais diferentes.

Todos os pacientes passaram por uma avaliação geriátrica, que consistiu de autoavaliações, usualmente completadas pelos pacientes em menos de 30 minutos, e de testes objetivos que tomavam cerca de 10 minutos para serem realizados.

Os testes foram transformados em escores, e um algoritmo baseado em pontos de corte validados foi utilizado para gerar um resumo dos déficits e uma lista de propostas de tratamentos personalizada para cada paciente.

Os pacientes foram encaminhados para o grupo intervenção, onde os oncologistas recebiam o resumo e a lista de intervenções, ou para o grupo controle, onde os oncologistas não recebiam estes documentos.

A Dra. Supriya observou que no grupo intervenção, “o oncologista tinha total controle sobre o que fazer com” o resumo e a lista de intervenções.

“Não dissemos que algo deveria ser feito com estes documentos, apenas providenciamos as informações e o oncologista as levou para o consultório para discutir com o paciente”, explicou.

As consultas nos dois grupos foram gravadas, e os pesquisadores avaliaram de forma cega o número e a qualidade das discussões relacionadas à idade, assim como o plano para as intervenções seguintes.

Pacientes também responderam a pesquisas telefônicas para determinar o nível de satisfação.

A prevalência de déficits variou de 93,5% para desempenho físico até 25,1% para o status psicológico, 33,2% dos pacientes tinham déficit cognitivo. No geral, 89,3% dos pacientes tinham dois ou mais déficits.

Melhora nas discussões e na satisfação

Providenciar o resumo da AG e a lista de intervenções levou a um aumento significativo no número de discussões relacionadas à idade: 7,74 vs. 4,24 no grupo controle, para uma diferença média de 3,5 discussões (p < 0,0001). Também foi associada de maneira significativa com discussões de melhor qualidade (4,42 vs. 2,47 no grupo controle, diferença média de 2,0, p < 0,0001); e com um maior número de intervenções: 3,08 vs. 1,15 (diferença média de 1,9; p < 0,0001).

Pacientes no grupo intervenção se mostraram mais satisfeitos com a comunicação médico-paciente, um aumento médio de 1,12 pontos no Health Care Climate Questionnaire (p = 0,01), resultado que se manteve por até três meses.

Melhoras semelhantes foram observadas em uma versão do questionário modificada para questões relacionadas à idade (p = 0,02 entre os grupos intervenção e controle).

A Dra. Supriya comentou: “Pacientes e cuidadores claramente querem que o oncologista discuta questões relacionadas à idade. Nosso estudo mostrou que a AG pode ajudar oncologistas a oferecerem o cuidado de que os idosos necessitam.”

Os resultados “dão maior apoio ao guia de prática clínica da ASCO que recomenda a AG para todos os pacientes em quimioterapia.”

A comunidade da oncologia geriátrica planeja uma parceria com a ASCO e com outros grupos, como o Cancer and Aging Research Group, para continuar o trabalho de implementação da AG para os seus pacientes, disse ela.

Ao comentar o estudo, o Dr. Joshua A. Jones, expert da ASCO disse se tratar de “um estudo muito importante, que deve ter um impacto direto no cuidado de pacientes idosos com câncer”.

“Isto mostra, de maneira randomizada, que podemos melhorar a comunicação sobre o que é realmente importante para pacientes idosos com câncer com uma simples intervenção”, disse.

O Dr. Jones enfatizou que existem intervenções disponíveis a pacientes e familiares, como fisioterapia e aconselhamento, que auxiliam os oncologistas “a escolher o melhor tratamento para estes indivíduos”.

Por isso, ao utilizar a AG, “podemos ter certeza de que entendemos o que é mais importante para nossos pacientes e que estamos oferecendo o cuidado que eles querem”.

O coautor do estudo, Dr. William Dale, titular da cátedra Arthur M. Coppola Family Chair in Supportive Care Medicine, no City of Hope, em Duarte, California (EUA), disse ao Medscape que as AGs são utilizadas de três formas diferentes nos pacientes com câncer.

Uma é avaliar a probabilidade de complicações sérias como resultado da quimioterapia ou da cirurgia; outra é para determinar o que pode ser feito antes do tratamento para melhorar o desfecho clínico, como fisioterapia ou lidar com a situação social do indivíduo. E a terceira é avaliar a expectativa de vida do paciente à parte do câncer.

Para prover oncologistas com estas informações, houve uma mudança de preferência favorecendo instrumentos eficientes e formais derivados da literatura, em vez de avaliações abrangentes que levam uma hora e meia ou mais para serem realizadas.

O objetivo do estudo era de ser capaz de realizar a avaliação geriátrica não apenas em centros médicos acadêmicos, mas também no âmbito dos oncologistas clínicos, que “estão vendo 30 pacientes por dia. Honestamente, nós sentimos que chegamos na essência destes instrumentos”.

Um exemplo de que estas avaliações podem auxiliar na tomada de decisão é no déficit cognitivo.

“No caso de uma pessoa com problemas de memória ou de cognição, podemos pedir o consentimento dela para a quimioterapia?”, questionou o Dr. Dale. “Nenhum de nós acha que esta é a coisa certa a ser feita”.

Ele disse que mais estudos são necessários para demonstrar que a AG faz diferença nos desfechos clínicos, “mas uma coisa que sabemos é que ela modifica as decisões das pessoas”.

O Dr. Dale aponta um problema que pode afetar a aplicação da AG: o pagamento pela avaliação. “Somos pagos para dar coisas às pessoas e fazer procedimentos”, disse “e recebemos menos para gastar um longo tempo falando com pacientes”.

Ele acredita que as formas de financiamento baseado no valor das iniciativas terão de ser ajustadas para “levar as pessoas a fazerem as coisas certas”, mesmo que elas sejam “menos tangíveis e difíceis de medir” do que taxas de sobrevida pós quimioterapia.

Este estudo recebeu apoio financeiro do Patient Centered Outcomes Research Institute e do National Cancer Institute. A Dra. Supriya Gupta Mohile declarou ser consultora junto à Seattle Genetics. Um co-autor declarou ser consultor junto a GTx, Boehringer Ingelheim, On Q Health, Sanofi, OptumHealth, Pierian Biosciences e MJH Healthcare Holdings LLC, e ter recebido apoio financeiro para pesquisa de GlaxoSmithKline, Celgene e Novartis. Outro co-autor declarou ter recebido apoio financeiro para pesquisa de Amgen. Outro co-autor declarou ser consultor junto à AIM Specialty Health.

American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2018: Resumo LBA10003. Apresentado em 3 de junho de 2018

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