Exercício intervalado de alta intensidade antes de cistectomia radical melhora aptidão cardiopulmonar e desfechos clínicos no pós-operatório

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

12 de junho de 2018

Um estudo do Reino Unido, publicado na edição de maio de 2018 da Support Care Cancer[1] , mostra que a realização de exercício aeróbico de alta intensidade intervalado no período pré-cirúrgico melhora a aptidão cardiopulmonar e pode ter implicações importantes na recuperação pós-operatória da cistectomia radical em pacientes com câncer de bexiga. O trabalho do Dr. Srijit Banerjee, do Norfolk and Norwich University Hospital, do educador físico John Saxton, da Northumbria University, e equipe, contou com a participação do brasileiro Gabriel Cucato, graduado em Educação Física e pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Cucato, que fez um período de bolsa-sanduíche no Reino Unido junto à equipe do Dr. John Saxton durante o doutorado em Ciências na Universidade de São Paulo (USP), falou ao Medscape sobre o trabalho.

A pesquisa envolveu 60 pacientes (53 eram homens) com câncer de bexiga. Metade dos participantes (N = 30) foi designada para o grupo de exercícios e os outros fizeram parte do grupo controle. Os grupos foram pareados para variáveis demográficas, tratamento cirúrgico, comorbidades e tabagismo. As únicas diferenças identificadas foram com relação à história de doença cardíaca isquêmica, que foi mais frequente no grupo controle, e percentual de pacientes submetidos à quimioterapia neoadjuvante antes do estudo, maior entre os sujeitos do grupo de exercícios.

Os pacientes do grupo de intervenção fizeram atividade duas vezes por semana, totalizando, em média, oito sessões de exercícios supervisionadas durante o período pré-operatório de três a seis semanas. Já os participantes do grupo controle seguiram o próprio estilo de vida até a data da cirurgia. Um teste de exercício cardiopulmonar foi realizado antes de iniciar o acompanhamento (basal) e repetido antes da cirurgia nos dois grupos. Resultados associados à recuperação no pós-operatório também foram analisados (Classificação de Complicações Cirúrgicas de Clavien-Dindo, prevalência de íleo e pneumonia no pós-operatório, tempo gasto em unidade de alta dependência, necessidade de suporte inotrópico, e tempo de permanência hospitalar).

As sessões de exercício foram feitas em bicicleta, usando a escala de Borg Ratings of Perceived Exertion (RPE)[2] para controlar a intensidade. Inicialmente, os pacientes realizaram aquecimento com carga baixa na bicicleta, seguido de seis séries de cinco minutos de exercícios em alta intensidade (equivalente a 70%-85% da frequência cardíaca máxima prevista obtida no teste ergoespirométrico), com períodos de descanso entre as séries. Esses intervalos foram em recuperação ativa com carga baixa na bicicleta.

A comparação entre os resultados do teste de exercício cardiopulmonar dos pacientes no basal e na pré-cirurgia revelou melhora nos valores de pulso de oxigênio pico, ventilação minuto e potência média entre os pacientes que foram submetidos ao programa de exercício, sem efeitos adversos. Além disso, os autores identificaram que enquanto 36% dos participantes do grupo controle apresentaram algum desvio no curso normal de recuperação pós-operatória, essa taxa foi de apenas 15% no grupo de intervenção. E, embora o tempo gasto da unidade de alta dependência tenha sido similar entre os grupos, mais indivíduos do grupo controle necessitaram desse recurso: sete vs. dois.

Apesar de haver diferenças com relação ao histórico de cardiopatia isquêmica entre os participantes, os autores acreditam que esse fator não interferiu nos resultados.

“O ideal em estudos randomizados e controlados é o pareamento dos grupos, ou seja, eles devem ser iguais no período de intervenção na maioria das variáveis estudadas. Contudo, pacientes com câncer apresentam muita variabilidade em comorbidades associadas e no tratamento da doença”, afirma Cucato. Mas a diferença percentual com relação à história prévia de doença isquêmica, segundo o pesquisador, “não é necessariamente um fator decisivo, uma vez que os grupos saíram de valores iguais na variável de desfecho – consumo máximo de oxigênio”.

Brasil ainda não tem cultura de utilização de exercício físico antes da cistectomia radical

O grupo optou pelo programa de exercício intervalado de alta intensidade pois, segundo Cucato, estudos anteriores já demonstraram que esse tipo de atividade é capaz de aumentar o consumo de oxigênio em poucas semanas[3].

“Como tínhamos um curto espaço de tempo entre o início do treino e a data da cirurgia (média de 20 a 45 dias), optamos por utilizar este tipo de prescrição para nossos pacientes”, ressalta.

Até o presente momento, não existe um programa de treinamento físico específico para pacientes com câncer de bexiga que serão submetidos à cistectomia radical, e o esquema testado pelos autores surge como uma opção. No entanto, é necessário cautela na prescrição.

“Como utilizamos um exercício intervalado de alta intensidade, ele deve ser usado em pacientes que são habilitados para tal. Pacientes com baixa capacidade física, como cardiopatas graves ou pacientes com estado de saúde geral ruim, podem não ser elegíveis para a conduta”, diz o educador físico.

Cucato destaca ainda que, especialmente no Brasil, ainda não há a cultura de utilização do exercício físico no período pré-cirurgia em pacientes com câncer de bexiga que serão submetidos à cistectomia radical.

“Para que isso ocorra, nossos hospitais deverão ter centros integrados em saúde e reabilitação com profissionais capacitados para isso. Enquanto não há este tipo de serviço, o melhor a se fazer é indicar que o paciente possa aumentar os níveis de atividade física – atingir as recomendações da população geral (pelo menos 150 min de atividade física leve e moderada e/ou 75 min de atividade física intensa por semana) e reduzir o tempo de sedentarismo, para que, no momento pré-cirúrgico, os níveis de aptidão física sejam aumentados”, afirma.

Estes fatores, segundo o pesquisador, “podem ajudar o paciente a suportar melhor os impactos cardiovasculares durante a cirurgia, podendo melhorar os desfechos clínicos no período pós-cirúrgico: menor tempo de UTI, menor tempo até a alta e, principalmente, menor chance de mortalidade”.

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