Redução acentuada na taxa de melanoma após cirurgia bariátrica

Liam Davenport

Notificação

12 de junho de 2018

VIENA, Áustria — Pacientes obesos submetidos à cirurgia para perda de peso parecem ter uma redução substancial no risco de câncer de pele em geral, e de melanoma maligno em particular, indicam novos resultados de um importante estudo prospectivo.

Apresentando dados de seguimento de 18 anos em mais de 4000 pacientes obesos, pesquisadores mostraram que a cirurgia bariátrica foi associada a uma redução de 42% no risco de câncer de pele em comparação com o tratamento habitual.

Além disso, Magdalena Taube, do Departamento de Medicina Molecular e Clínica do Institute of Medicine, University of Gothenburg (Suécia), e colaboradores, descobriram que o risco de melanoma maligno foi reduzido ainda mais, em 61%, em análises ajustadas.

A pesquisa foi apresentada 24 de maio no European Congress on Obesity (ECO) 2018.

“Neste estudo de longo prazo a cirurgia bariátrica reduziu o risco de melanoma maligno”, afirmam os autores em um comunicado à imprensa.

“Esta descoberta confirma a ideia de que a obesidade é um fator de risco para o melanoma, e indica que a perda de peso em indivíduos com obesidade pode reduzir o risco de uma forma mortal de câncer que tem aumentado constantemente em muitos países ao longo de várias décadas”, acrescentam.

Durante uma coletiva de imprensa, Magdalena explicou que houve um aumento constante na incidência de melanoma maligno.

De fato, uma publicação recente da instituição de caridade Cancer Research UK mostrou que os casos de melanoma maligno mais do que dobraram no Reino Unido desde os anos 90. A doença é agora o quinto câncer mais comum em homens e mulheres, com mais de 15.000 casos e 2.000 mortes anuais.

Embora a relação entre obesidade e vários tipos de câncer, principalmente sólidos, esteja bem estabelecida, e alguns estudos já tenham descrito uma associação entre obesidade e melanoma, Magdalena disse que, até o momento, as evidências não têm sido tão robustas para uma associação entre obesidade e tumores de pele.

Ela ressaltou, no entanto, que estudos de intervenção podem dar suporte a uma possível associação mostrando, por exemplo, se o efeito putativo da obesidade no risco de melanoma pode ser revertido.

Além disso, “como a cirurgia bariátrica é a maneira mais eficiente de se obter a perda de peso de longo prazo em pacientes obesos, fizemos a pergunta: a cirurgia para perda de peso pode reduzir o risco de melanoma em pacientes com obesidade?”

Dados do SOS sugerem que obesidade é um fator no melanoma

Pesquisadores avaliaram dados da pesquisa Swedish Obese Subjects, um estudo de intervenção prospectivo e controlado que compara a cirurgia bariátrica com os tratamentos não-cirúrgicos usuais.

Entre 1987-2001, 6095 indivíduos com idade entre 37 e 60 anos, com índice de massa corporal (IMC)> 34 kg/m² em homens e > 38 kg/m² em mulheres foram selecionados para inclusão, resultando em 2010 pacientes designados para cirurgia bariátrica e 2037 para o tratamento habitual.

Os dois grupos foram pareados em 18 variáveis, incluindo idade, sexo, medidas antropométricas, fatores de risco cardiovascular, variâncias psicossociais e traços de personalidade.

Os participantes completaram um exame clínico, vários questionários (incluindo sobre a ingestão de álcool e tabagismo) e análises bioquímicas do sangue. Os prontuários deles também estavam vinculados ao Swedish National Cancer Registry, ao Swedish Cause of Death Registry, e ao Swedish Population Registry.

Após um acompanhamento mediano de 18,1 anos, a equipe descobriu que, embora o peso corporal permanecesse relativamente constante no grupo de tratamento habitual, diminuiu em 25% após um ano no grupo de cirurgia bariátrica antes de se estabilizar entre 15% e 20% abaixo linha de base.

Durante o acompanhamento, houve 23 casos de câncer de pele no grupo de cirurgia bariátrica em relação a 41 no grupo de tratamento usual, resultando em uma hazard ratio (HR) ajustada de 0,58 (p = 0,044).

E quando os pesquisadores analisaram especificamente a incidência de melanoma maligno, a redução foi ainda maior: 12 casos no grupo de cirurgia bariátrica em relação a 29 no grupo de tratamento usual, para uma HR ajustada de 0,39 (p = 0,008).

“Para entender se havia algum possível preditor que pudesse explicar o benefício do tratamento, realizamos uma análise de interação em diferentes parâmetros que poderiam ser importantes, como tabagismo, diabetes, glicemia de jejum, insulina, e assim por diante, mas não pudemos observar interações”, disse a pesquisadora.

Ela concluiu que os dados “fornecem apoio adicional para uma associação entre obesidade e câncer de pele, e para a ideia de que a perda de peso reduz a incidência do tumor”.

“Também sugere que a obesidade deve ser considerada um fator de risco evitável para o melanoma maligno”.

Grande efeito no melanoma, mas mecanismo subjacente ainda é desconhecido

Solicitado a comentar, Jason Halford, Presidente de Psicologia Biológica e Comportamento da Saúde, University of Liverpool (Reino Unido), disse que a obesidade “é uma doença inflamatória e inflamação é um componente importante do câncer… então eu me pergunto se esta pode ser a associação”.

No entanto, falando ao Medscape, ele destacou que poderia haver outra explicação mais simples.

Ele disse que, a menos que um paciente de cirurgia bariátrica tenha sido submetido a procedimentos corretivos para lidar com o excesso de pele e pratique atividade física para tonificar o corpo, ele pode não ficar feliz com a autoimagem e encobrir mais o corpo, resultando em menor exposição ao sol.

No entanto, Magdalena disse que não acredita que a exposição solar esteja causando a diferença de incidência nos tumores de pele vistos no estudo.

Evidências anteriores de estudos com ratos e humanos sugerem que, embora a exposição ao sol seja um processo que direciona o risco de melanoma, a obesidade pode ser outro mecanismo separado, “e isso pode explicar por que diferentes melanomas se comportam de maneira diferente”.

Ela disse ao Medscape que a própria cirurgia bariátrica também pode desempenhar algum papel na alteração do risco de melanoma maligno. “Talvez seja algo relacionado a hormônios, fatores metabólicos ou inflamação”, disse ela, observando que “a inflamação sistêmica diminui após a cirurgia bariátrica, e sabemos que a liberação de hormônio leptina do tecido adiposo também diminui após a cirurgia”.

Estudos anteriores sugeriram que o risco de melanoma está positivamente associado com os níveis séricos de leptina, e o hormônio atua como um fator de crescimento para a doença.

Magdalena disse que mais pesquisas são necessárias para identificar os mecanismos subjacentes, mas com base nos dados atuais, “podemos dizer que isso está acontecendo, e que é um grande efeito”.

O coautor Martin Bergo trabalhou como porta voz para Baxter Medical e LEO Pharma, e a Dra. Lena Carlsson, outra coautora, recebeu taxas por palestras de AstraZeneca, Johnson & Johnson e Merck Sharpe & Dohme.

European Congress on Obesity 2018. 24 de maio de 2018; Viena, Áustria. Resumo O7.6.

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