Realização de nova biópsia antes da prostatectomia radical não traz prejuízo funcional

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

11 de junho de 2018

Um estudo publicado em junho deste ano na revista Prostate[1] mostra que a realização de mais uma biópsia antes da prostatectomia radical em pacientes com câncer de próstata não tem impacto na recuperação da função erétil e da continência em médio e longo prazos. Para os autores da Universidade de Berna (Suíça), e colaboradores da Espanha e do Brasil, esses resultados dão suporte à manutenção da tendência atual de estabelecer vigilância ativa e postergar o tratamento local em pacientes de risco baixo a intermediário. Um dos autores da pesquisa, o Dr. Renato Corradi, urologista da Rede Mater Dei de Saúde e do Instituto Mario Penna/Luxemburgo, ambos de Belo Horizonte (MG), falou ao Medscape sobre o trabalho.

Foram avaliados dados de 1015 pacientes consecutivos com câncer de próstata atendidos em um centro de referência da Suíça entre 1996 e 2015. Todos os participantes foram submetidos à prostatectomia radical e tiveram a continência urinária e a função erétil avaliadas em um seguimento de mais de dois anos.

Dos 1015 participantes, 27% (N = 275) foram submetidos a mais de uma biópsia antes da prostatectomia radical. A idade média dos pacientes foi similar no grupo que fez apenas uma biópsia e entre os que foram submetidos a mais de uma biópsia pré-operatória: 64 anos versus 65 anos, respectivamente. Também não houve diferença entre os grupos com relação a nível de Antígeno Prostático Específico (PSA), estágio patológico e escore de Gleason.

As taxas gerais de continência urinária foram 84%, 92%, 96% e 98% aos três, seis, 12 e 24 meses após a prostatectomia, respectivamente. Houve diferença entre os grupos apenas na continência em curto prazo, com sujeitos submetidos a mais de uma biópsia apresentando uma taxa menor. No entanto, os autores não encontraram diferenças nas avaliações seguintes.

Com relação à recuperação da função erétil, as taxas gerais foram de 16%, 33%, 51% e 55% aos três, seis, 12 e 24 meses, respectivamente, sem diferenças entre os dois grupos. Entretanto, ao considerar o uso de medicação, a proporção de sujeitos que recuperou a função erétil de forma espontânea foi maior no grupo submetido a apenas uma biópsia, particularmente aos três e seis meses após a cirurgia.

O Dr. Corradi diz que, de certa forma, os resultados surpreenderam a equipe, pois “não se esperava que a biópsia alteraria a continência, nem mesmo em curto prazo”. Mas ele afirma que, de qualquer maneira, o resultado da continência em médio e longo prazo não traz um resultado desfavorável à realização de mais de uma biópsia.

Protocolos recomendam biópsia após um ano de vigilância ativa

A vigilância ativa, segundo o Dr. Corradi, é indicada para pacientes com câncer de próstata de baixo risco, com PSA abaixo de 10 ng/ml. No entanto, sujeitos que apresentam níveis de PSA acima desse valor também podem ser submetidos à vigilância ativa se apresentarem outras características tumorais favoráveis. O médico destaca que cada caso deve sempre ser avaliado individualmente.

O PSA é, portanto, apenas um dos fatores que ajudam na definição do tratamento. Protocolos de vigilância ativa consideram ainda o estágio clínico da doença, bem como as características dela, estabelecidas a partir de biópsia[2,3].

“A maioria dos protocolos de vigilância ativa recomenda uma biópsia prostática após um ano em vigilância ativa, ou até mesmo a repetição da biópsia a ser realizada no momento em que o paciente entra em vigilância ativa”, afirma o pesquisador. A realização de mais de uma biópsia é, portanto, uma prática comum, inclusive no Brasil, entre pacientes em vigilância ativa que são submetidos à prostatectomia radical, uma vez que os achados da biópsia prostática são importantes para se optar pelo encerramento dessa vigilância e consequente submissão do paciente à cirurgia. Quando se considera, no entanto, a população geral que é submetida a prostatectomia radical (e não apenas os que estavam em vigilância ativa), o Dr. Corradi acredita que a prática da repetição de biópsias antes da cirurgia não seja tão comum.

Embora a biópsia prostática seja um recurso de importância clínica e boa tolerabilidade, ela não está isenta de riscos[4]. Os autores explicam no artigo que o grau de inflamação histológica crônica aumenta com um número repetido de biópsias[5]. Além disso, a literatura mostra que pode ocorrer hemorragia[6] após o procedimento, e também pode haver dano direto aos feixes neurovasculares. Mas, apesar dos riscos, a pesquisa conduzida na Suíça mostrou que a realização de mais de uma biópsia não esteve associada com maior perda de sangue na prostatectomia radical, tampouco com maior necessidade de transfusão sanguínea ou maior tempo operatório.

Com base nos achados que mostram que não há prejuízos funcionais em longo prazo relacionados a mais de uma biópsia, o Dr. Corradi entende que “não há uma base que corrobore, no momento, a necessidade de mudança nos protocolos de vigilância ativa”.

O avanço tecnológico, no entanto, pode mudar esse cenário. Atualmente, novas ferramentas, tais como a ressonância magnética multiparamétrica (RMmp) e a RMmp combinada com biópsia guiada por ultrassonografia transretal (TRUS), começam a ganhar mais espaço.

“Os métodos de imagem serão cada vez mais incorporados ao estadiamento do paciente com câncer de próstata. Em um futuro próximo, os exames de imagem irão substituir a biópsia nos protocolos de vigilância ativa, mas essa ainda não é a realidade no momento”, diz o urologista.

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