O que é novidade (e o que foi superestimado) no ASCO 2018

Zosia Chustecka

Notificação

4 de junho de 2018

39.000 profissionais desembarcaram em Chicago (EUA) em 1 de junho para o encontro anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o maior congresso de oncologia do mundo.

“Nós usamos o evento como um fórum para as melhores e mais brilhantes mentes em oncologia aprenderem e discutirem as questões importantes e as controvérsias atuais do tratamento do câncer”, disse o Dr. Bruce Johnson, do Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, Massachusetts (EUA).

A maioria dos resumos já foi publicada on-line, e está sendo destacada por vários interesses velados, que incluem empresas promovendo resultados positivos com produtos em desenvolvimento – fazendo com que o preço das próprias ações suba –, assim como centros acadêmicos de câncer chamando a atenção para apresentações feitas pelos seus docentes.

A ASCO deu início precoce ao processo, destacando seis resumos em uma coletiva de imprensa, realizada em 16 de maio, que já conquistaram ampla cobertura da mídia. A organização também realiza coletivas de imprensa para cada dia do encontro, e prepara comunicados à imprensa detalhados para cada resumo, que definem o contexto para novas pesquisas, e também fornecem comentário externo. Trata-se de um serviço muito útil para os jornalistas que cobrem o encontro, especialmente porque os estudos frequentemente envolvem ciência complexa.

Mas essa prática tem sido criticada pelo HealthNewsReview.org, um site de monitoramento da mídia que avalia criticamente a cobertura de saúde.

“Pré-relatar resultados preliminares e pré-publicados é preocupante”, argumenta o site em uma publicação divulgada antes da coletiva de imprensa.

“Muitos encontros médicos fazem isso e eu preciso dizer que acho que a ASCO faz um bom trabalho nessa tarefa hercúlea”, disse o Dr. Len Lichtenfeld, vice-diretor médico da American Cancer Society, segundo a publicação.

“Mas há problemas com jornalistas menos experientes escrevendo artigos baseados em resumos que ainda não foram apresentados.

“São informações incompletas, que não foram verificadas ou revisadas por pares”, continuou ele. “Não é infrequente que as notícias baseadas nesses resumos embargados sejam desequilibradas”.

O HealthNewsReview.org também destaca que muitos meios de comunicação produzem notícias que se baseiam muito nos materiais de imprensa preparados, mantendo o mesmo viés nas notícias.

“Tal é o poder da ASCO – a maior organização mundial de médicos do câncer – em influenciar a cobertura, promovendo resumos específicos e definindo a importância deles nos comunicados à imprensa”, comenta o site.

Um exemplo é um resumo sobre o rastreio do câncer de pulmão destacado na conferência de imprensa antes do congresso e num comunicado de imprensa da ASCO, sobre uma pesquisa nacional que constatou que apenas 1,9% de mais de 7 milhões de fumantes e ex-fumantes pesados foram rastreados para câncer de pulmão em 2016.

Mas não há menção a “razões legítimas pelas quais os fumantes podem ter para recusar o rastreio, incluindo malefícios substanciais e um benefício modesto”, diz o HealthNewsReview.org, acrescentando que “a ASCO divulga uma visão unilateral do rastreio do câncer de pulmão”.

Notícias e opiniões

Muitas das notícias já podem ter sido divulgadas, mas uma visão cuidadosa das informações vem do próprio congresso, no qual as apresentações mais importantes são discutidas por especialistas na área.

Na sessão plenária, que apresenta aquelas que são consideradas as novas descobertas mais importantes, o mesmo peso foi dado para as apresentações de novos resultados. São os relatórios dessas sessões do encontro – como os que aparecem aqui no Medscape – que contêm o contexto e as explicações de especialistas sobre as implicações clínicas das novas pesquisas.

Eis os temas da sessão plenária deste ano:

  • TAILORx, um estudo de fase 3 em mulheres com câncer de mama inicial positivo para receptores hormonais que têm um escore intermediário no OncoType DX: elas precisam de quimioterapia, assim como terapia endócrina?

  • Baixa dose de manutenção de quimioterapia em pacientes com rabdomiossarcoma de alto risco

  • CARMENA: Pacientes com carcinoma de células renais metastático precisam de cirurgia (nefrectomia citorredutora) ou podem ser tratados apenas com medicação isolada (sunitinibe)?

  • KEYNOTE-042, um estudo de pembrolizumabe em relação a quimioterapia baseada em platina como terapia de primeira-linha para câncer de pulmão não pequenas células avançado/metastático em pacientes que não apresentam alta expressão tumoral do ligante de morte celular programado 1.

A sessão plenária também contou com a Science of Oncology Lecture do premiado Dr. Douglas R. Lowy, dos National Institutes of Health, que discutiu a prevenção de tumores associados ao vírus do papiloma vírus humano pela vacinação.

Além disso, nas sessões Highlights of the Day, especialistas em cada tipo de câncer revisam as notícias apresentadas no dia anterior e colocam os novos resultados no contexto do que já é conhecido, comentando se os novos dados fizeram o campo avançar.

Além disso, as sessões terão discussões de questões complicadas, como os altos custos de muitas novas terapias contra o câncer. Por exemplo, haverá um debate sobre "valor e custo da terapia do mieloma", com o Dr. Vincent Rajkumar, da Mayo Clinic, em Rochester, Minnesota, argumentando que "não podemos arcar com isso", contra seu colega da Mayo Clinic, Dr. Rafael Fonseca, que contesta afirmando que "nós podemos".

Como fazemos todos os anos, o Medscape tem uma equipe de repórteres no encontro trazendo a você as notícias e opiniões sobre elas à medida que surgirem em Chicago.

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