Terapia eletroconvulsiva pode beneficiar pacientes jovens com autismo grave

Pauline Anderson

Notificação

30 de mai de 2018

NOVA YORK — A terapia eletroconvulsiva (TEC) pode ser uma intervenção útil para crianças com autismo que apresentam comorbidades psiquiátricas, aponta uma nova pesquisa.

Os resultados de uma revisão sistemática da literatura sugerem que a TEC tem algum benefício em pacientes com transtorno do espectro autista (TEA), cuja condição é refratária a múltiplos medicamentos psicotrópicos.

Esses resultados contribuem para a crescente evidência dos benefícios da TEC em pacientes jovens com TEA grave, disse ao Medscape o Dr. Raul J. Poulsen, pesquisador e médico da Divisão de Psiquiatria Infantil e do Adolescente do Departamento de Psiquiatria da University of Miami, Flórida (EUA).

“É muito importante poder equilibrar os benefícios e riscos de qualquer tratamento que oferecemos, e isso é um passo na direção de reunir essas informações, para poder oferecer o melhor tratamento ao paciente”, disse ele.

Os resultados são especialmente notáveis, uma vez que o TEA foi significativamente resistente ao tratamento nesses pacientes, disse o Dr. Poulsen.

Os resultados foram apresentados no Encontro Anual da American Psychiatric Association (APA) de 2018.

Estigma da TEC

Pacientes com TEA grave geralmente se envolvem em comportamentos mal adaptativos ou autolesivos. Muitos desses pacientes sofrem comorbidades significativas, incluindo catatonia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e deficiências intelectuais, disse o Dr. Poulsen.

Alguns desses pacientes também apresentam distúrbios de humor. Dr. Poulsen observou que a TEC teve algum sucesso como tratamento para transtornos de humor, especialmente a depressão resistente ao tratamento.

Os pesquisadores estudaram a literatura publicada nesta área para “identificar quaisquer lacunas ou qualquer necessidade de mais estudos”, disse o pesquisador.

Outro motivo para conduzir a revisão, disse ele, foi a “hesitação significativa dos médicos” em sugerir TEC para pacientes “no lado grave do espectro”, cujas condições são resistentes a múltiplos medicamentos psicotrópicos.

“Infelizmente”, acrescentou ele, há um estigma geral sobre o uso da TEC, em grande parte devido à imagem negativa da terapia na mídia.

Depois de pesquisar três bases de dados (Cochrane, Embase e PubMed), os pesquisadores selecionaram 17 artigos envolvendo 21 pacientes. Os pacientes tinham idades entre oito e 17 anos (média de idade de 14 anos). A maioria estava tomando mais de três medicamentos psicotrópicos, informou o Dr. Poulsen.

Os tratamentos para TEA incluem antipsicóticos, antidepressivos, estimulantes, estabilizadores do humor, anticonvulsivantes e, frequentemente, alguma forma de terapia comportamental, incluindo a análise do comportamento aplicado.

Em cerca de 76% dos casos, o tratamento envolveu estimulação bitemporal; em 10%, o tratamento foi unilateral; e em 14%, o tipo de estimulação não estava claro.

O Dr. Poulsen observou que a estimulação unilateral é frequentemente usada para reduzir eventos adversos. Em alguns estudos, a terapia começou com estimulação bilateral, e uma mudança para estimulação unilateral foi feita caso houvesse efeitos colaterais.

Os pacientes receberam de 10 a 156 tratamentos com TEC. Crises induzidas por TEC, medidas por EEG, duraram de 26 a 206 segundos.

A maioria dos estudos avaliou melhora dos comportamentos autolesivos, reversão da catatonia, capacidade de retornar à escola e capacidade de se envolver mais nas atividades do dia-a-dia, disse o Dr. Poulsen.

Todos os pacientes se beneficiaram do tratamento com TEC. Os pesquisadores observam que houve relatórios sobre a frequência escolar de 11 pacientes, todos frequentando a escola após a TEC.

É difícil “extrair” exatamente quais sintomas a TEC melhorou, porque os pacientes tinham muitas comorbidades, disse o Dr. Poulsen. No entanto, acrescentou ele, a TEC libera neurotransmissores, por isso ajuda a aumentar os níveis de serotonina e dopamina no cérebro.

“Algumas dessas liberações químicas ajudam a melhorar o humor”, disse.

Ele relatou que os tratamentos foram bem tolerados pelos pacientes nos estudos. Efeitos colaterais raros incluíram fadiga, fome e agitação.

Como com qualquer tratamento, os benefícios devem ser ponderados contra os riscos. Os riscos da TEC incluem cefaleia e amnésia retrógrada e anterógrada, disse o Dr. Poulsen.

Não é "uma mágica"

Comentando o estudo para o Medscape a Dra. Neera Ghaziuddin, professora-associada de psiquiatria de crianças e adolescentes da University of Michigan, em Ann Arbor (EUA), disse que as descobertas estão de acordo com a experiência dela.

A TEC, disse ela, é útil para crianças com autismo ou outros transtornos do desenvolvimento que também têm uma condição psiquiátrica como a depressão.

“Não é para o autismo em si, mas para esta condição associada”, disse ela.

Mas as crianças com autismo, assim como aquelas com síndrome de Down ou outras deficiências intelectuais de causa desconhecida, correm alto risco de distúrbios psiquiátricos, disse a Dra. Neera.

A Dra. Neera e colaboradores “utilizam um pouco a TEC em jovens” e a consideram “muito útil”.

“Não é uma mágica. Não trata o autismo, e isso é uma distinção importante e uma coisa para se lembrar”, disse ela.

Mas é um “tratamento extremamente valioso para se ter disponível” para pacientes jovens com autismo que apresentam um transtorno de humor grave ou catatonia, ou para aqueles que se envolvem em comportamentos extremamente graves, com risco de vida, autolesivos, ou com transtornos psicóticos.

O paciente mais jovem da Dra. Neera a receber a TEC tinha cerca de oito anos de idade, mas ela realizou consultas em pacientes mais jovens.

“Na verdade, o fator decisivo é a gravidade da doença e não a idade”, disse ela.

O Dr. Poulsen não revelou conflitos de interesses relevantes. A Dra. Neera é a autora principal do livro, Terapia Eletroconvulsiva em Crianças e Adolescentes (Oxford University Press, 2013).

American Psychiatric Association (APA) 2018. Resumo 1-047, apresentado em 5 de maio de  2018.

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