Dois antipsicóticos associados com aumento do risco de diabetes gestacional

Caroline Cassels

Notificação

29 de mai de 2018

Nova York — Dois antipsicóticos, quetiapiana e olanzapina, foram associadas ao aumento do risco do diabetes gestacional em mulheres que continuam a tomar estar drogas durante a gravidez, mostra uma nova pesquisa.

Os resultados de um grande estudo de mulheres não diabéticas participantes do Medicaid – seguro de saúde pago pelo governo dos Estados Unidos a pacientes de baixa renda – e que estavam tomando uma medicação antipsicótica mostrou que a quetiapina esteve associada a um aumento de 28% no risco para a diabetes gestacional e que a olanzapina esteve associada a um aumento do risco de 61%.

Dr Yoonyoung Park (esquerda) and Dr Krista Huybrechts

“O melhor conselho aos clínicos é, neste momento, usar esta informação como ponto de partida para uma conversa com as pacientes. Informá-las sobre um risco de pequeno a moderado de diabetes gestacional com estes dois antipsicóticos atípicos. Avaliar se vale a pena mudar para uma medicação de menor risco, ou apenas continuar com um tratamento estabilizado”, disse ao Medscape a pesquisadora principal Krista F. Huybrechts.

Os achados foram divulgados em uma coletiva de imprensa realizada na reunião anual da American Pshychiatric Association (APA) 2018 e publicados on-line no American Journal of Psychiatry.

Desfechos clínicos adversos na gravidez

Nos Estados Unidos, estima-se que de 5% a 9% das mulheres desenvolvam diabetes gestacional. Esta doença pode levar a desfechos clínico adversos na gravidez, incluindo pré-eclâmpsia, parto cesariano, hipoglicemia neonatal e macrossomia.

Além disso, até 50% das mulheres com diabetes gestacional desenvolvem diabetes tipo 2 nas décadas após a gravidez. Este risco é sete vezes maior para mulheres com diabetes gestacional do que naquelas sem a doença.

Na população geral, o uso de antipsicóticos atípicos está associado com alterações metabólicas adversas, incluindo alteração nos níveis de triglicerídeos, ganho de peso e diabetes.

Em 2013, a US Food and Drug Administration (FDA) obrigou os fabricantes de antipsicóticos atípicos a incluirem um aviso nos medicamentos sobre o risco de hiperglicemia e diabetes.

Krista disse que há pouca informação sobre o tratamento com drogas antipsicóticas durante a gravidez, e que a segurança metabólica destes medicamentos não é bem compreendida. Apesar disso, a pesquisadora diz que nos Estados Unidos o número de mulheres em idade reprodutiva em tratamento com antipsicóticos tem aumentado.

Para entender o risco para diabetes gestacional relacionado a drogas específicas, os pesquisadores conduziram um grande estudo observacional, numa amostra nacional, utilizando dados do Medicaid de 1,5 milhão de mulheres. Todas as pacientes estavam em tratamento antes de iniciar a gravidez com um dos cinco medicamentos antipsicóticos mais comumente prescritos.

Os pesquisadores compararam o risco de desenvolver diabetes gestacional entre aquelas que continuaram o tratamento com antipsicóticos durante a gravidez, com o outro grupo que descontinuou o tratamento antes de iniciar a gravidez.

A coorte do estudo incluiu mulheres grávidas não diabéticas que tiveram uma gravidez bem-sucedida (nascido vivo), que estavam inscritas no Medicaid entre 2000 e 2010, e que tinham recebido uma ou mais prescrições de drogas antipsicóticas nos três meses anteriores à gravidez. Os antipsicóticos incluídos foram aripiprazol (n=1924), ziprasidona (n=673), quetiapina (n=4533), risperidona (n=1824) e olanzapina (n=1425).

Para cada droga antipsicótica, mulheres que receberam a medicação duas ou mais vezes (“uso-contínuo”) foram comparadas com as que não tiveram medicação dispensada nas primeiras 20 semanas de gestação (“uso-descontinuado”).

Os resultados mostraram que, dependendo do antipsicótico, o risco absoluto de diabetes gestacional no grupo “uso-contínuo” variou entre 4,25% e 12%. No grupo “uso-descontinuado”, variou de 3,8% a 4,7%.

Contudo, apenas dois dos cinco antipsicóticos, a olanzapina e a quetiapina, mostraram associação com um aumento do risco para diabetes gestacional.

O risco relativo ajustado for de 0,82 (intervalo de confiança, IC, de 95%, 0,50 - 1,33) para aripiprazol, 0,76 (IC de 95%, 0,29 - 2,00) para ziprasidona, 1,28 (IC de 95%, 1,01 - 1,62) para quetiapina, 1,09 (IC de 95%, 0,70 - 1,70) para risperidona e 1,61 (IC de 95%, 1,13 - 2,29) para olanzapina.

Pequeno risco absoluto

Krista destacou que apesar do “risco relativo poder parecer grande com 28% e 61%, o risco absoluto ainda é relativamente pequeno”.

Os pesquisadores disseram que este estudo tem muitos pontos fortes, incluindo o fato da população escolhida ter vindo de um programa nacional como o Medicaid, que paga por mais de 50% de todas as gestações nos Estados Unidos, 80% de todas as prescrições de antipsicóticos, e 36% de todos os custos associados ao tratamento da diabetes gestacional.

Contudo, os autores também reconhecem as limitações do estudo.

“É importante levar com conta outras possíveis explicações para os achados deste estudo”, divulgou Krista num comunicado. “A maior preocupação é com fatores que potencialmente não foram totalmente capturados nestes dados, em especial a obesidade. Apesar disso, demonstramos que a diferença de prevalência de obesidade entre as pacientes que continuaram o tratamento e as que o descontinuaram teria de ser muito grande para explicar totalmente o aumento do risco. O que nos parece pouco provável, dado que todas as mulheres receberam tratamento antes de iniciar a gestação, e levamos em conta um grande número de variáveis proxy”.

Krista disse que quando mais dados forem acumulados, ela e equipe conduzirão um estudo similar para determinar “quantos destes achados continuam valendo”. Por enquanto, os pesquisadores estão focados no uso de antipsicóticos durante a gestação e no impacto em longo prazo no neurodesenvolvimento destas crianças.

Michael Roy

Comentando o estudo ao Medscape, Michael Roy, editor-executivo do American Journal of Psychiatry disse que o estudo identifica um fator de risco importante para uma doença que pode ter consequências potencialmente graves. Isto dá ao clínico uma orientação importante sobre como gerenciar este risco.

“Se uma de suas pacientes está iniciando uma gestação e faz uso de antipsicóticos, esta é uma discussão a ser feita. Este estudo produziu uma importante informação adicional para médicos e pacientes”, disse ele.

Yoonyoung Park foi consultora para Optum. Krista Huybrechts declarou não possuir nenhum conflito de interesses relevante. As declarações dos outros pesquisadores estão publicadas no estudo. Michael Roy declarou não possuir nenhum conflito de interesses relevante.

American Psychiatric Association (APA) 2018. Apresentado em 7 de maio de 2018.

Am J Psychiatry. Publicado on-line em 7 de maio de 2018. Resumo  

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