NOVA YORK — Ter parentes de primeiro grau com transtornos psiquiátricos é um fator de risco significativo para transtornos psiquiátricos pós-parto, sugere uma nova pesquisa.
Anna Bauer
Um estudo nacional de coorte, que incluiu dados sobre mais de 362.000 pacientes que foram mães pela primeira vez na Dinamarca, mostrou que ter história de transtorno psiquiátrico em um parente de primeiro grau aumentou significativamente o risco de a própria mãe ter episódios psiquiátricos durante o período pós-parto.
Ter um parente, masculino ou feminino, com transtorno bipolar (TB) foi um fator de risco ainda maior, aumentando em quase três vezes a probabilidade de um transtorno psiquiátrico em comparação com aqueles que não tinham história familiar de TB.
A autora principal Anna E. Bauer, do Departamento de Psiquiatria e Genética da University of North Carolina, em Chapel Hill, disse ao Medscape que a mensagem para os clínicos é: para esta população de pacientes é importante obter dados de história da família tanto para parentes masculinos quanto femininos.
"Para pessoas que nunca tiveram uma doença mental ou um trauma antes, é difícil prever quem vai apresentar esses transtornos psiquiátricos. Mas é relativamente fácil perguntar sobre a história familiar, e isso pode ser feito precocemente durante a gravidez – mesmo antes da mulher se tornar sintomática", disse Anna.
"É um pouco mais desafiador porque é mais uma coisa para adicionar à consulta médica, mas não é invasivo, pode ser feito sem muito custo extra, e pode fornecer informações importantes – especialmente se houver história familiar de transtorno bipolar, que pode quase triplicar o risco de sofrer uma dessas doenças psiquiátricas no pós-parto", acrescentou ela.
Os resultados, que foram apresentados em uma conferência de imprensa na reunião anual de 2018 da American Psychiatric Association (APA), também foram simultaneamente publicados on-line no American Journal of Psychiatry.
Uma em sete afetadas
"Os transtornos psiquiátricos pós-parto são uma das complicações mais comuns da gravidez, com complicações para a mãe, assim como para o bebê e para toda a família", disse Anna. Ela acrescentou que cerca de uma em cada sete mulheres terá algum tipo de transtorno psiquiátrico pós-parto, variando de transtorno unipolar e ansiedade a condições mais graves.
Os pesquisadores observam que, embora pesquisas anteriores tenham mostrado que a história psiquiátrica pessoal de uma futura mãe é um forte preditor da ocorrência de episódios psiquiátricos no pós-parto, "prever quem apresentará um novo transtorno psiquiátrico no período pós-parto permanece um desafio significativo".
Eles avaliaram dados de registro dinamarquês para 362.462 mães (média de idade, 27 anos) que deram à luz entre 1985 e o final de 2012. Destas, 0,7% tiveram um transtorno psiquiátrico no período de seis meses após o parto e 1,1% tiveram um em 12 meses após o parto.
Um total de 23.350 mulheres na população de estudo tinham história pregressa de transtorno psiquiátrico.
Para este estudo, os parentes em primeiro grau incluíam mães, pais e irmãos legítimos. Os transtornos psiquiátricos familiares foram agrupados em cinco categorias: transtorno bipolar, transtorno unipolar, esquizofrenia e transtornos relacionados, transtornos do humor que não o transtorno bipolar ou transtorno unipolar ("outros transtornos do humor"), e "outros transtornos psiquiátricos".
Transtornos psiquiátricos pós-parto foram definidos como transtornos em que o início ocorreu dentro do primeiro ano após a primeira vez que a mãe deu à luz.
"Algumas das pacientes se recuperaram, algumas continuaram a ter doenças mentais, e algumas tiveram uma doença pós-parto e depois uma recorrência de uma doença mental. Não distinguimos entre esses grupos em nosso estudo", disse Anna.
Associação causal?
Entre todas as participantes, para aquelas com parente de primeiro grau com qualquer transtorno psiquiátrico, a hazard ratio (HR) para ter um episódio psiquiátrico durante o período pós-parto foi 1,45 (intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,28 - 1,65).
Ao avaliar transtornos familiares específicos, o maior fator de risco para transtornos psiquiátricos pós-parto foi ter um parente com TB (HR de 2,86 em relação a ausência de história familiar de TB; IC de 95%, 1,88 - 4,35).
"Esperávamos ver um risco aumentado de ter parentes com transtorno bipolar, porque uma associação entre mulheres que têm história pessoal de transtorno bipolar e doença mental pós-parto já foi demonstrada anteriormente", observou Anna.
"Além disso, as mulheres que tiveram uma doença psiquiátrica incidente durante o período pós-parto são mais propensas a desenvolver transtorno bipolar. Então pensamos que poderia haver uma associação causal", disse ela.
O risco também foi aumentado para os participantes com parentes de primeiro grau que tinham outros transtornos de humor (HR de 1,78), esquizofrenia (HR de 1,58) ou transtorno unipolar (HR de 1,52).
"Como esperado", ter um histórico pessoal de doença psiquiátrica foi um fator de risco muito forte para ter um episódio psiquiátrico no pós-parto (HR de 8,66; IC de 95%, 7,97 - 9,40), relatam os pesquisadores.
"No entanto, observamos que a associação com história familiar de transtornos psiquiátricos era mais forte entre mulheres sem história pessoal de transtorno psiquiátrico, indicando que a história familiar pode ser particularmente útil em uma ferramenta de avaliação de risco para episódios psiquiátricos incidentes entre mulheres sem antecedentes de doença psiquiátrica", escrevem.
O risco para episódios psiquiátricos durante o período de seis meses pós-parto foi semelhante para as participantes que tinham mães com algum transtorno psiquiátrico (HR de 1,50) e aquelas que tinham pais com qualquer transtorno psiquiátrico (HR de 1,54).
"Esse padrão persistiu para todos os cinco grupos de diagnóstico", observam os pesquisadores.
Dra. Samantha Meltzer-Brody
Dra. Samantha Meltzer-Brody
"Não se trata apenas de 'como foi a gravidez da sua mãe?' ou perguntar sobre a gravidez de uma irmã", disse ao Medscape a pesquisadora principal, Dra. Samantha Meltzer-Brody, do Departamento de Psiquiatria da University of North Carolina em Chapel Hill.
"Uma mensagem importante do estudo é que a mãe e o pai, assim como irmãos, podem aumentar o risco", acrescentou.
O risco era "ligeiramente elevado" quando as novas mães tinham parentes de segundo ou terceiro grau com transtorno psiquiátrico (HRs de 1,16 e 1,27, respectivamente). Os parentes de segundo grau incluíam avós, tias, tios e meios-irmãos. Os parentes de terceiro grau incluíam primos.
Recomendações para o "quarto trimestre"
No geral, "descobrimos que, embora os transtornos psiquiátricos pós-parto sejam eventos exclusivamente femininos, uma história de transtornos psiquiátricos em parentes do sexo masculino foi tão influente quanto uma história em parentes do sexo feminino", escrevem os pesquisadores.
Portanto, questões sobre parentes masculinos e femininos, especialmente quanto ao TB, "são da mais alta importância, e devem ser acrescentadas às diretrizes de rastreio clínico de rotina", acrescentam.
A US Preventive Services Task Force e a American Academy of Family Physicians atualmente recomendam que a população adulta em geral, incluindo mulheres grávidas e no pós-parto, seja examinada para depressão, disse Anna na coletiva de imprensa. A American Academy of Pediatrics recomenda que esse tipo de rastreamento seja realizado para as novas mães nas consultas de rotina dos filhos nos meses 1, 2, 4 e 6 do parto.
Como relatado pelo Medscape, o American College of Obstetricians and Gynecologists divulgou uma recomendação no mês passado de que a atenção completa à gravidez inclui o chamado "quarto trimestre", com os prestadores de cuidados e as novas mães continuando a se comunicar nos primeiros três meses após o nascimento. Isso inclui rastreio para depressão pós-parto, ansiedade e uso de substâncias, bem como acompanhamento de condições psiquiátricas pré-existentes.
"Este é um assunto importante para as pessoas que trabalham com saúde mental e perinatal das mulheres. E acho que, felizmente, há uma mudança radical neste país que está indo na direção certa", disse a Dra. Samantha aos participantes na coletiva de imprensa.
No entanto, "não temos feito um bom trabalho em obter uma história familiar completa" antes de uma mulher se tornar sintomática, acrescentou.
"Acho que a mensagem principal é de que precisamos trabalhar melhor para nossas mães, e precisamos usar as informações do nosso estudo para ajudar nossos profissionais a conhecerem as melhores condutas".
Perguntada por que a coleta de uma história familiar completa não era feita com maior frequência anteriormente, a Dra. Samantha disse que esta área tem sido ignorada há muito tempo.
"As questões de saúde mental têm sido deixadas de lado no campo da medicina em geral, e as questões de saúde mental das mulheres sofrem ainda mais com isso. Tem sido muito difícil ter avaliações desse tipo de coisa, e acho que ainda não entendemos a hereditariedade. Este é um dos primeiros estudos que analisam a familiaridade dessa maneira", observou ela.
Benefício para a área
Michael Roy, editor-executivo do American Journal of Psychiatry, disse ao Medscape que o periódico quis incluir este estudo durante a coletiva de imprensa porque ele contém informações atuais que podem ajudar os médicos em suas práticas do dia-a-dia.
"Muito do que publicamos é de cinco, 10 anos, mas às vezes temos algo que tem significado atual. Pode ter um impacto agora, especialmente em uma área que é criticamente mal servida, e qualquer orientação que possamos dar é um benefício", disse Roy.
"Com a conscientização e a detecção antecipada, os resultados são melhores. Responder à pergunta: 'Existe algo que podemos fazer para levar a discussão adiante?' trará um grande benefício para a área".
O estudo foi financiado por uma doação do National Institute of Mental Health. Anna não declarou relações financeiras relevantes. Declarações dos outros autores do estudo estão listadas no artigo original. Michael Roy não declarou relações financeiras relevantes.
American Psychiatric Association (APA) 2018. Apresentado em 7 de maio de 2018.
Am J Psychiatry. Publicado on-line em 7 de maio de 2018. Resumo
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Citar este artigo: História familiar aumenta risco de episódios psiquiátricos pós-parto - Medscape - 25 de mai de 2018.
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