NOVA YORK — A prevalência de opioides no sangue de vítimas de suicídio mais que dobrou na última década, mostra uma nova pesquisa.
Um estudo realizado por pesquisadores da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Maryland (EUA), mostrou que o número de pessoas que morreram por suicídio e que tinham opioides no organismo aumentou de 8,8% em 2006 para 17% em 2017.
Dr. Paul Nestadt
Tanto o suicídio quanto o uso de opioides aumentaram “tremendamente” nas últimas duas décadas e representam “crises de saúde pública” que se sobrepõem, disse ao Medscape o Dr. Paul Nestadt, fellow do programa de treinamento em epidemiologia psiquiátrica da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, que também é psiquiatra supervisor para o serviço de consultas de transtornos de ansiedade do Johns Hopkins Hospital.
Os resultados foram apresentados durante uma conferência de imprensa no encontro anual da American Psychiatric Association (APA) de 2018.
Ameaça tripla
O uso de opioides aumenta significativamente o risco de suicídio de três maneiras, disse o Dr. Nestadt.
Em primeiro lugar, os opioides são depressores – e pesquisas mostram que indivíduos que usam opioides têm de 50% a 100% mais chances de desenvolver depressão. Além disso, os opioides causam dependência e levam a transtornos por uso de substâncias, um dos fatores de risco mais importantes para o suicídio. Finalmente, disse ele, o uso de opioides leva a um estado de desinibição no qual atos impulsivos, como o suicídio, são mais prováveis.
“Em relação risco de suicídio, se você tem um frasco de opioides no armário de remédios, como cada vez mais americanos têm, é como ter uma arma carregada em casa”, disse o Dr. Nestadt.
Maryland é o primeiro estado a ter um sistema estadual centralizado, no qual autópsias que incluem exames toxicológicos objetivos são realizadas em todas as vítimas de suicídio.
Pesquisas para determinar se uma morte é um suicídio são extensas e incluem entrevistas com membros da família, revisões de prontuários médicos, avaliações de evidências reunidas no local e uma autópsia completa.
Pesquisadores examinaram 6264 suicídios de 2006 a 2017. Destes, 750 vítimas (12%) tinham teste positivo para opioides.
Em comparação com outras vítimas de suicídio, os indivíduos com opioides no organismo tinham maior probabilidade de serem do sexo feminino, brancos e terem cocaína no sangue. Por outro lado, tinham menor probabilidade de ter intoxicação por álcool.
Aumento maior em afro-americanos
Embora a porcentagem de vítimas de suicídio com opioides no organismo tenha dobrado de 2006 a 2017, houve pouca mudança na porcentagem de pessoas que tinham álcool no organismo.
Além disso, os pesquisadores descobriram uma leve redução no uso de cocaína. O Dr. Nestadt especulou que esta queda pode ser porque os indivíduos estão substituindo a cocaína por opioides.
Um modelo analítico que foi ajustado para flutuação por todos os 11 anos, e que controlou para idade, sexo e raça, mostrou que a taxa de uso de opioides quase dobrou nesse período (odds ratio, OR, de 1,92; intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,49 - 2,47; P < 0,0001).
Além disso, uma análise que não levou em consideração as mortes por overdose de opioides, e que apenas avaliou o suicídio por outros métodos, como enforcamento ou uso de arma de fogo, mostrou que a presença de opioides dobrou (OR de 2,19; IC de 95%, 1,60 - 3,00; P < 0,0001).
O aumento ocorreu principalmente nos últimos quarto a cinco anos e foi maior entre afro-americanos.
“A tendência dobrou em geral, mas entre os afro-americanos, a taxa de opioides entre os que morreram de suicídio aumentou quase seis vezes”, disse o Dr. Nestadt.
Não está claro se existe um nexo causal entre o aumento dos suicídios e o aumento do uso de opioides. As tendências tanto para suicídios quanto para o uso de opioides são “difíceis de negar”, mas, por enquanto, os resultados são apenas “exploratórios” e “geradores de hipóteses”, acrescentou o Dr. Nestadt.
Problema nacional
Os suicídios e os opioides “estão frequentes nos noticiários” atualmente, e estão “muito interligados”, disse a Dra. Ranna Parekh, diretora da Divisão de Diversidade e Equidade em Saúde da APA, que presidiu a coletiva de imprensa.
O suicídio é uma das principais causas de morte nos Estados Unidos. O número de mortes atingiu o valor mais alto em 30 anos em 2016, disse a Dra. Ranna.
“Aquele ano registrou um número recorde de mortes por overdose de opioides, com 42.000 mortes”.
Comentando os resultados para o Medscape a ex-presidente da APA Dra. Maria Oquendo, professora e chefe de psiquiatria da University of Pennsylvania Perelman School of Medicine, na Filadélfia (EUA), disse que o estudo revelou “uma observação realmente interessante, que vai ao encontro do material que vem sendo publicado na literatura em todo o país, não apenas em Maryland”.
A taxa real de suicídio nos Estados Unidos é provavelmente maior do que a relatada, porque muitas das mortes classificadas como overdoses ou indeterminadas são, na verdade, suicídios, disse a Dra. Maria, que recentemente foi coautora de um artigo sobre suicídio e opioides publicado no New England Journal of Medicine.
“Estamos, provavelmente, subestimando o número de suicídios relacionados aos opioides”, disse a Dra. Maria.
Dos mais de 40.000 indivíduos que morrem de overdose de opioides a cada ano, “estimamos, com base na literatura, que provavelmente entre 30%, e talvez até 45% deles, são suicídios”, acrescentou ela.
Há várias razões pelas quais os suicídios estão subestimados, disse a Dra. Maria.
Em alguns estados, médicos legistas podem estar preocupados em serem processados se determinarem que a morte é um suicídio. Pode haver repercussões relacionadas aos seguros de vida.
Alguns médicos legistas podem estar preocupados quanto à estigmatização do indivíduo que faleceu, disse a Dra. Maria. Ou pode haver pressão da família para não classificar a morte dessa maneira.
O Medscape também pediu ao Dr. Adam Bisaga, professor de psiquiatria no Presbyterian, e no Columbia University Irving Medical Center, ambos em Nova York, para comentar os resultados.
A principal implicação do estudo, disse o Dr. Bisaga, “é de que precisamos urgentemente desenvolver serviços para identificar e tratar pacientes com transtorno de uso de opioides antes que se torne um distúrbio crônico com complicações psiquiátricas, como depressão e tendências suicidas”.
Os clínicos que tratam pacientes com transtorno de uso de opioides também devem diagnosticar e tratar a depressão ao mesmo tempo”, acrescentou ele.
O Dr. Nestadt, a Dra. Maria e o Dr. Bisaga não declararam conflitos de interesses relevantes.
American Psychiatric Association (APA) 2018. Resumo 1-227, apresentado em 6 de maio de 2018.
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Citar este artigo: Prevalência de uso de opioide em vítimas de suicídio dispara - Medscape - 24 de mai de 2018.
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