Pelo segundo ano consecutivo, o Innovation Lab, uma nova iniciativa cuja abordagem imita a série de TV Shark Tank – na qual empreendedores apresentam ideias de negócio a potenciais investidores, para obter financiamento – para encontrar soluções criativas para os problemas de saúde mental, vai ser uma das principais apresentações no encontro anual de 2018 da American Psychiatric Association (APA).
“Vamos mergulhar mais fundo e aumentar o sucesso do ano passado”, disse ao Medscape o Dr. Tristan Gorrindo, psiquiatra infantil e hebiátrico, diretor médico adjunto e diretor de educação na APA.
O Innovation Lab, que faz parte da Innovation Zone, que já existe há mais tempo, é destinado a promover soluções criativas para melhorar a qualidade do atendimento na saúde mental, disponibilizando um local para os inovadores se relacionarem com seus pares, colaboradores e investidores.
O Innovation Lab convida os participantes a lançar seus conceitos e trabalhar em colaboração com especialistas em computação, design, negócios e outras áreas para refinar as suas ideias.
Os ideias revistas são então julgadas por um grupo de especialistas. Ao término deste processo, são concedidos prêmios em várias categorias.
Vencedores e finalistas de 2017
O Grand Prize Award do ano passado para a melhor proposta geral foi para o Dr. Jeff Clark, residente na University of Washington School of Medicine. Dr. Clark ganhou pelo programa de tratamento cognitivo-comportamental on-line da insônia chamado Slumber Camp.
O Dr. Calvin Yang, professor-assistente de psiquiatria da University of California, Los Angeles (UCLA), ganhou o Technology Award do ano passado, patrocinado pelo Google.
A ideia, Psych Vitals, usa o Microsoft Kinect com recursos de reconhecimento facial e da fala para coletar dados e criar um exame do estado mental automatizado. Isso, disse o Dr. Yang aos organizadores, deve reduzir o tempo de mapeamento e melhorar as métricas do exame.
Um grupo eclético contando com a participação de Patrick Yoo, que tem mestrado em tecnologia musical da New York University e é estudante de medicina, estudante de psicologia e doutorando em economia, ganhou o Audience Choice Award for SafeHear, um sistema de alerta para a violência doméstica.
O Dr. Muhammad Irfan, chefe da psiquiatria do Peshawar Medical College, no Paquistão, ganhou o Human Rights Award for Hope Assist: Telemedicine in Pakistan. O prêmio foi para o projeto que teve o maior impacto humanitário.
Outra ideia inovadora no ano passado foi o da Dra. Eraka Bath, médica na University of California, Los Angeles (UCLA), que ficou entre os finalistas. Ela apresentou um aplicativo de justiça juvenil para ajudar os jovens infratores navegar no sistema judiciário juvenil. A reincidência, disse a Dra. Eraka aos juízes do prêmio, é comum entre os jovens, em parte porque eles acham difícil cumprir as exigências necessárias para manter a liberdade condicional.
O Innovation Lab oferece um espaço para transformar uma boa ideia de negócio em um empreendimento de sucesso com repercussões positivas para o atendimento ao paciente.
Outra finalista de 2017, April Koh, fundadora e CEO da Spring, uma plataforma para o bem-estar mental dos funcionários, conseguiu um financiamento importante para o empreendimento.
“A missão da Spring é eliminar as tentativas e erros na área da saúde comportamental e capacitar os profissionais de saúde a tomarem decisões personalizadas baseadas nos dados dos seus pacientes”, disse o Dr. Gorrindo.
O sucesso dos investimentos do ano passado criou um enorme entusiasmo pelo Innovation Lab deste ano. Os organizadores receberam 46 submissões. Muitas das submissões incorporam tecnologias como realidade virtual, o aprendizado por máquinas e a “uberização” do atendimento na saúde, disse ao Medscape Nina Taylor, vice-diretora de educação da American Psychiatric Association.
Nina explicou que, neste contexto, “uberização” significa promover um avanço na saúde “enxergando pela perspectiva dos pacientes” e utilizar tecnologias de “maneiras novas e originais para melhorar a assistência ao paciente”.
A escolha dos finalistas deste ano se deu por meio de um processo rigoroso, disse Nina. Os participantes tiveram de apresentar um vídeo com informações básicas sobre si, com explicações sobre a ideia e o plano de negócio.
As submissões deste ano acabaram reduzidas às seguintes:
● Sensie, um aplicativo de smartphone que oferece instrumentos para ajudar os pacientes a identificar problemas e auxilia os médicos no acompanhamento da evolução do paciente, a fim de ajustar o tratamento.
● Uma plataforma móvel custo-eficaz e que poupa tempo oferecendo apoio por texto de outros pacientes e terapia com pequenos grupos moderada por um terapeuta, com ferramentas de inteligência artificial para garantir a segurança do conteúdo.
● Victoria, a primeira plataforma de dependência química para gestantes. O aplicativo oferece o gerenciamento personalizado e acessível dos gatilhos e promete ajudar a reduzir os custos da saúde e a melhorar a segurança dos fetos.
● Um aplicativo chamado Cognova, destina-se a pacientes com comprometimento cognitivo. Ele os ajuda a relembrar e explorar o próprio passado por meio de imagens, filmes ou música. A experiência torna-se progressivamente mais personalizada e deve reforçar o engajamento e melhorar a qualidade de vida.
● Um programa de imersão com vários aplicativos que utilizam a realidade aumentada/realidade virtual na clínica ou em casa para tratar a dor crônica, os transtornos alimentares, os déficits cognitivos e os problemas motores, entre outros.
● Um aplicativo de saúde mental móvel chamado AllyIQ, que tem como alvo os pacientes com transtorno bipolar. O aplicativo ajuda a rastrear os sintomas e capacita uma rede de apoio de amigos, familiares e médicos a oferecer coaching e recomendações pontuais.
● Um assistente digital pessoal personalizado chamado PeggyJo que provê aconselhamento personalizado para ajudar a melhorar o humor e aumentar o bem-estar pelo uso de um aplicativo, site ou conteúdo de mídia.
Participação da audiência
Mais uma vez, estas ideias serão avaliadas por um grupo de especialistas da área que vai ajudar a aprimorá-las.
Os membros da audiência também terão voz. Depois de ouvir as ideias, eles podem avaliá-las, assim como os proponentes, e votar no seu favorito pelo smartphone.
O vencedor do Grand Prize receberá 10.000 dólares; o vencedor do Audience Choice Award receberá 2.000 dólares e o vencedor do Human Rights Award vai receber 1.000 dólares. Os outros quatro finalistas receberão 250 dólares cada.
A Innovation Zone terá apresentações de ponta e sobre o tema da inovação. A mesa-redonda sobre telepsiquiatria, apresentada pelo Dr. James (Jay) H. Shore, professor-associado de psiquiatria da University of Colorado , em Aurora (EUA), será realizada em relação aos simpósios do encontro.
“Estamos convidando várias empresas de telepsiquiatria para se juntarem a nós, de modo que nossos participantes tenham a oportunidade de testar algumas plataformas”, disse Nina.
“Isso realmente vai ao encontro do nosso tema de construir por meio da inovação, e esta plataforma pode ser utilizada para aumentar o acesso e redesenhar o atendimento”, disse.
Além do Fitbit e dos relógios da Apple
Outro grupo de discussão sobre tecnologias “vestíveis” criativas será apresentado pelo Dr. John Torous, psiquiatra e codiretor do Programa de Psiquiatria Digital no Beth Israel Deaconess Medical Center em Boston, Massachusetts (EUA).
Dr. Torous tem formação em engenharia elétrica e ciência da computação e lidera o grupo de trabalho da American Psychiatric Association na avaliação dos aplicativos para smartphones.
Ele está investigando ativamente o potencial das tecnologias móveis em saúde mental para a psiquiatria. O Dr. Torous está criando ferramentas de smartphones para a pesquisa clínica, e realiza ensaios clínicos com aplicativos de smartphones para várias doenças mentais.
Esse evento promete ir além do Fitbit e dos relógios da Apple, disse o Dr. Gorrindo.
“Os ‘vestíveis’ estão ficando cada vez mais sofisticados, avaliando coisas como a variabilidade da frequência cardíaca, e alguns deles usam acelerômetros para detectar se o nível de atividade da pessoa está baixo, o que é sinal de depressão”, disse o médico.
As possibilidades parecem infinitas. Por exemplo, um dispositivo tipo relógio pode informá-lo se você bebeu demais através da detecção dos níveis de álcool no sangue, e um dispositivo na cabeça pode monitorar os perfis básicos do eletroencefalograma, disse o Dr. Gorrindo.
A ideia é medir, de uma forma mais sofisticada e pelo próprio consumidor, funções que informam as pessoas mais sobre si, disse o psiquiatra.
O Dr. Gorrindo deu como exemplo o uso do biofeedback no tratamento de transtornos da ansiedade ou do humor. No passado, os pacientes vinham para consultório para colocar sensores de suor e monitores cardíacos e, em seguida, serem treinados para exercer controle sobre suas funções autônomas.
A nova tecnologia portátil transformou tudo isso em objeto de consumo, disse Dr. Gorrindo.
A Innovation Zone oferece aos participantes a oportunidade de falar sobre aparelhos portáteis e “sobre o que podemos esperar nos próximos um a dois anos” que pode ajudar no atendimento, disse ele.
É justo que a Innovation Zone seja realizada no salão de exposições, já que esta área representa a interface entre os negócios e a saúde mental.
É um lugar onde os participantes podem chegar, se relacionar, conhecer as futuras estrelas empresariais, debater ideias e contribuir para os empreendimentos inovadores do futuro.
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Citar este artigo: "Shark Tank" da American Psychiatric Association mergulha fundo em soluções para a saúde mental - Medscape - 22 de mai de 2018.
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