Médicos têm a mais alta taxa de suicídio dentre todas as profissões

Pauline Anderson

Notificação

21 de mai de 2018

Nova York — Com um suicídio completo todo dia, os médicos dos Estados Unidos têm a mais alta taxa de suicídio dentre todas as profissões. De acordo com uma nova pesquisa, isso é mais do que o dobro observado na população geral.

Uma revisão sistemática da literatura sobre suicídios entre médicos revelou que a taxa de suicídio nesta população é de 28 a 40 por 100.000, mais do que o dobro da encontrada para a população geral.

Médicos que morrem por suicídio frequentemente sofrem de depressão não tratada ou com tratamento sub-ótimo, ou têm outros transtornos mentais. Fato que comprova a necessidade de uma intervenção precoce, disse ao Medscape a pesquisadora Dra. Deepika Tanwar, do Programa de Psiquiatria do Harlem Hospital Center, na cidade de Nova York.

“É muito surpreendente” que a taxa de suicídio entre médicos seja maior do que entre os militares, que é considerada uma profissão muito estressante, disse a Dra. Deepika ao Medscape.

Os achados foram apresentados aqui na reunião anual da American Psychiatric Association (APA) 2018.

Estigma e acesso à meios letais

Utilizando o MEDLINE e o PubMed, os pesquisadores conduziram uma revisão sistemática da literatura sobre suicídio entre médicos que incluiu artigos publicados durante os últimos 10 anos em revistas indexadas.

Esta revisão mostrou que a taxa de suicídio era de 28 a 40 por 100.000. Na população geral a taxa foi de 12.3 por 100.000.

Os resultados também mostraram que, apesar das tentativas de suicídio entre médicas serem menos frequentes que entre mulheres na população geral, a taxa de suicídio completo das médicas excede em 2,5 a quatro vezes a da população geral de mulheres, e se iguala à dos médicos.

Especialistas tentam entender as razões das altas taxas de suicídio entre médicos, disse a Dra. Dipeeka. Ela relatou que o estudo de revisão mostrou que os diagnósticos associados mais comuns são transtornos do humor, alcoolismo e uso de drogas.

Um estudo mostrou que a depressão afeta 12% dos médicos e até 19,5% das médicas aproximadamente, uma prevalência comparável a da população geral.

A depressão é mais comum entre estudantes de medicina e residentes, com 15% a 30% de positividade para a presença de sintomas de depressão.

Os pesquisadores relatam que os transtornos de humor na profissão médica não são restritos à América do Norte. Trabalhos de Finlândia, Noruega, Austrália, Cingapura e China, dentre outros, mostram um aumento na prevalência de ansiedade, depressão e suicídios entre médicos e estudantes de medicina.

Estigma é um grande obstáculo na busca por tratamento médico, disse a Dra. Dipeeka. Ela cita um estudo no qual 50% das 2.106 mulheres que completaram um questionário no Facebook preenchiam os critérios para transtorno mental, mas relutavam em buscar ajuda profissional por medo do estigma.

A nova revisão mostrou que envenenamento e enforcamento são os meios mais comuns de morte por suicídio entre médicos. Os achados também sugerem que o maior conhecimento e o acesso facilitado a meios letais contribuem para uma taxa mais elevada de suicídio entre médicos.

A revisão também mostrou que dentre todas as especialidades médicas, a psiquiatria está próxima ao topo em termos de taxas de suicídio.

Há uma crescente conscientização sobre o suicídio médico e iniciativas de prevenção estão aumentando.

A Dra. Dipeeka lembrou que várias sessões da reunião da APA deste ano abordam o bem-estar e o burnout do médico, o que pode ajudar a reduzir as taxas de suicídio.

Taxas alarmantes

As altas taxas de suicídio entre médicos são “alarmantes”, comentou a Dra. Beth Brodsky, professora-assistente de psicologia médica em psiquiatria na Columbia University e no Irving Medical Center , em Nova York.

Contudo, não é uma surpresa, dados os estressores que os médicos enfrentam.

O estresse inicia na faculdade de medicina e continua na residência, com muitas demandas, competição, muitas horas de trabalho, e privação de sono. Isto pode contribuir para o uso de drogas, outro fator de risco para o suicídio, disse a Dra. Beth.

O alto estresse é exacerbado pela diminuição dos recursos em saúde e das vagas de residência médica. Há muitas histórias de indivíduos morrendo por suicídio após não conseguirem uma das cobiçadas vagas na residência médica.

Quando um estudante de medicina se forma e começa a atuar profissionalmente, ele encontra estressores diferentes mas igualmente desafiadores, disse a Dra. Beth.

Com o número crescente de mulheres ingressando na medicina, elas estão mais vulneráveis aos fatores estressores do trabalho. O resultado é que a taxa de suicídio está aumentando entre elas também.

A Dra. Beth está entre os especialistas defendendo melhores formas de lidar com estes problemas, o que pode começar com uma simples questão semântica. As pessoas não “cometem” suicídio, elas “morrem por suicídio”. Ela lembra que o suicídio é uma “doença, e não um crime”.

A Dra. Beth saúda o foco dado pela APA ao suicídio entre médicos, pois isso aumenta a conscientização sobre o assunto e deverá levar a melhores iniciativas de prevenção e intervenção.

Discutir abertamente o suicídio como uma doença ajuda a “trazer este assunto da escuridão” e a acabar com o estigma que acompanha o problema.

Os pesquisadores e a Dra. Brodsky declararam não possuir nenhum conflito de interesse s relevante.

American Psychiatric Association (APA) 2018. Resumo 1-227, apresentado em 5 de maio de 2018.

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