Atividade física aumenta significativamente a sobrevida de pacientes com câncer

Roxanne Nelson

Notificação

9 de maio de 2018

Chicago —  Pacientes com câncer que fazem atividades físicas antes e depois do tratamento têm 40% mais probabilidade de sobreviver em comparação aos sedentários, de acordo com novas descobertas.

Dra. Rikki Cannioto

A associação entre atividade física e mortalidade foi observada em oito tipos de câncer. Mais importante, os resultados se mantiveram após o ajuste por sexo, estágio do tumor, status de tabagismo e índice de massa corporal (IMC).

Os resultados do estudo foram apresentados no recente encontro anual de 2018 da American Association for Cancer Research (AACR).

"Mesmo que a associação significativa só tenha sido observada em oito sítios tumorais, a hazard ratio (HR) foi inferior a 1 em quase todas as localizações do tumor que estudamos", disse a primeira autora Rikki Cannioto, PhD, professora-assistente de oncologia no Departamento de Prevenção e Controle do Câncer no Roswell Park Comprehensive Cancer Center, em Buffalo, Nova York (EUA).

"Do ponto de vista prático, parece que há uma vantagem de sobrevida para todos os tipos de tumores", disse a pesquisadora ao Medscape.

"Podemos não ter tido poder estatístico suficiente para ver significado em todos, mas a mensagem mais importante é que existe benefício para todos os pacientes com câncer".

Mais importante, observou Rikki, foi a melhora da sobrevida entre os pacientes que eram previamente sedentários.

"Os pacientes que informaram não fazer nenhum tipo de atividade física na década anterior ao diagnóstico, e depois informaram fazer alguma atividade física em torno do momento do diagnóstico e após o mesmo, tiveram uma melhora impressionante de 25% a 28% da sobrevida em comparação com os que continuaram inativos" disse a autora.

"Constatamos que a atividade física iniciada após o diagnóstico é benéfica".

A mensagem é que nunca é tarde demais para começar a se exercitar. Dra. Rikki Cannioto

"Portanto, a mensagem é que nunca é tarde demais para começar a se exercitar", acrescentou.

Mesmo um pouco já ajuda

Um corpo crescente de evidências tem ligado a atividade física a inúmeros benefícios para os pacientes com câncer, como melhora da força muscular, do funcionamento cardiovascular, e da qualidade de vida. Alguns dados sugerem que sua prática pode conferir um benefício em termos de sobrevida para os sobreviventes.

Um recente estudo, por exemplo, verificou que entre pacientes com de câncer de cólon de estágio III cujo estilo de vida foi considerado como correspondendo às diretrizes da American Cancer Society em termos de alimentação e exercícios, houve um risco relativo de morte 42% mais baixo.

Neste estudo, Rikki e colaboradores examinaram as associações conjuntas da atividade física antes e depois do diagnóstico e da mortalidade de 5.807 pacientes com diagnóstico de câncer no Roswell Park Comprehensive Cancer Center, de 2003 a 2016.

O estudo teve um pouco mais de mulheres (54,8%) do que de homens (45,2%). A maioria dos pacientes era branca (93%), e a média de idade no momento do diagnóstico foi de 60,6 anos. Os diagnósticos foram câncer de bexiga, mama, cabeça e pescoço, rim, fígado, pulmão, ovário, pâncreas, próstata, pele e estômago, bem como colorretal, esofágico, e neoplasias do endométrio e hematológicas.

Nesta população, 25% referiram não realizar atividade física regular antes do diagnóstico; 42% informaram não realizar atividade física de lazer regular após o diagnóstico. Em relação ao status de atividade física habitual, 52% disseram serem habitualmente ativos, 19% declararam serem habitualmente inativos, 23% contaram ter tido redução da atividade física após o diagnóstico, e 6% descreveram aumento da atividade física após o diagnóstico.

Pela análise multivariada, a maior vantagem de sobrevida foi observada entre os pacientes que se exercitaram três a quatro dias por semana antes do diagnóstico (HR = 0,66; P < 0,001) e três a quatro dias por semana após o diagnóstico (HR = 0,59; P < 0,001). A sobrevida foi praticamente a mesma para os pacientes que se exercitaram de um a dois dias por semana, tanto antes do diagnóstico (HR =  0,77; P < 0,001) quanto depois do diagnóstico (HR =  0,72; P < 0,001), e para aqueles que se exercitaram de cinco a sete dias por semana, tanto antes (HR =  0,76; P < 0,001) quanto depois do diagnóstico (HR =  0,73, P < 0,001).

Esta foi outra descoberta muito importante, comentou Rikki.

"Os pacientes que se exercitaram um a dois dias por semana tiveram sobrevida quase idêntica à dos que se exercitaram com mais frequência – cinco a sete vezes por semana", disse a pesquisadora.

"Os pacientes que se exercitaram de três a quatro dias por semana tiveram o melhor desempenho, mas a principal mensagem é que a prática de exercícios pouco frequentes também foi associada a um benefício significativo de sobrevida. Os pacientes que se exercitaram todos os dias não se saíram melhor".

Estas conclusões foram corroboradas por outras pesquisas. A pesquisadora mencionou um estudo recente sobre "atletas de fim de semana", que descobriu que entre as pessoas que se exercitam apenas uma ou duas vezes por semana, o risco de mortalidade por qualquer causa e de morte por doença cardiovascular ou câncer foi menor do que para os pacientes que nunca se exercitavam.

"Isto é particularmente encorajador, já que os pacientes com câncer e os sobreviventes de câncer podem se sentir sobrecarregados pelas atuais recomendações de atividade física", disse a autora.

Também na análise multivariada o risco de mortalidade foi 40% menor para os pacientes que se mantinham habitualmente ativos em comparação aos pacientes inativos (HR = 0,60; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,54 a 0,68). Quando os pacientes que eram habitualmente ativos foram considerados como grupo de referência, o risco de mortalidade foi 66% mais alto entre os pacientes inativos (HR = 1,66; IC de 95%, de 1,48 a 1,87).

Os pacientes que aumentaram o seu nível de atividade após o diagnóstico apresentaram redução do risco de mortalidade de 25% (razão de risco = 0,75, IC de 95% de 0,61 a 0,92) em comparação aos que permaneceram inativos.

Opinião dos especialistas

Dois especialistas opinaram sobre os resultados.

Brian C. Focht, PhD, professor de cinesiologia e diretor da Exercise Behavioral Medicine Laboratory do Department of Human Sciences no College of Education and Human Ecology da Ohio State University em Columbus (EUA), observou que este estudo apresenta fortes evidências epidemiológicas dos benefícios da atividade física para os pacientes com câncer.

"O estudo traz uma contribuição significativa para o progresso da literatura científica que respalda o valor da implementação do exercício e/ou da atividade física no tratamento de suporte dos pacientes com câncer", disse o especialista.

"À medida que esses tipos de provas se acumulam, tenho esperança de que os oncologistas continuem a abraçar cada vez mais a importância de recomendar e promover ativamente as mudanças de estilo de vida em termos de atividade física, exercícios e hábitos alimentares saudáveis para os pacientes e os sobreviventes", observou Focht.

O comentarista ressaltou que "um desafio imenso" é o fato de as melhores práticas de conduta para integrar as intervenções de estilo de vida ao tratamento de suporte do câncer ainda não terem sido estabelecidas.

"No entanto, como as provas continuam a aparecer, torna-se cada vez mais claro que a promoção de mudanças saudáveis de estilo de vida em termos de exercícios, atividades físicas e alimentação, são considerações importantes na promoção de melhores resultados clínicos e de qualidade de vida, fundamentais para o continuum do controle do câncer", acrescentou ele.

Erin L. Van Blarigan, professora-assistente do Department of Epidemiology and Biostatistics da University of California em San Francisco (EUA), também concordou que esses dados acrescentam ainda mais evidências para corroborar a "associação muito forte e sistemática observada entre atividade física e sobrevida nas pessoas com câncer".

"A pesquisa mostrou que receber aconselhamento do oncologista sobre o estilo de vida, para muitos pacientes é um poderoso motivador para aplicar essas mudanças mas, infelizmente, esta não é uma prática comum em muitos consultórios", disse a comentarista, acrescentando que tanto a American Cancer Society quanto o American College of Sports Medicine publicaram diretrizes específicas para sobreviventes de câncer, que contêm os tipos e a quantidade de atividade física que os pacientes devem ter como meta.

"Há pesquisas em andamento para determinar quais ferramentas ou recursos, como rastreadores de atividade física, sites e aplicativos, podem ajudar a estimular os pacientes com câncer a iniciar e manter um novo programa de exercícios", disse Erin.

O estudo foi financiado por uma concessão do Cancer Center Support Grant Shared Resource e por um subsídio do National Cancer Institute. Rikki Cannioto, Brian C. Focht e Erin L. Van Blarigan informaram não possuir conflitos de interesses relevantes.

American Association for Cancer Research (AACR) Annual Meeting 2018. Resumo 5254/9, apresentado em 18 de abril de 2018.

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