Uso de Cannabis pelos pais associado a maior risco de psicose na criança

Liam Davenport

Notificação

25 de abril de 2018

FLORENÇA, Itália — Tanto mães quanto pais que usam Cannabis durante a gravidez têm maior probabilidade de ter filhos que apresentam sintomas psicóticos, sugere uma nova pesquisa.

Uma análise de mais de 3.500 famílias mostrou que o uso de Cannabis pela mãe está associado a 38% mais risco de sintomas psicóticos na prole aos 10 anos de idade; o uso de maconha pelos pais foi associado ao um aumento de 44% no risco.

Liderados pelo Dr. Koen Bolhuis, do Departamento de Psiquiatria da Criança e do Adolescente, Erasmus Medical Center, em Rotterdam (Holanda), os pesquisadores também observaram uma associação semelhante de sintomas psicóticos na prole e uso de Cannabis pela mãe tanto antes quanto depois da gravidez.

Eles concluíram que estes achados demonstram "que o uso tanto materno quanto paterno foi associado a sintomas psicóticos na prole aos 10 anos de idade, bem antes do período de risco de início de uso de Cannabis pelo adolescente."

Os achados foram apresentados no Schizophrenia International Research Society (SIRS) 2018 Biennial Meeting.

Observando que o impacto do uso materno e paterno era comparável, os pesquisadores dizem que isto sugere que "etiologias em comum, mais do que somente mecanismos intra-uterinos, formam a base da associação entre uso de maconha pelos pais e sintomas psicóticos na prole, iluminando o debate da trajetória causal de uso de Cannabis e psicose."

Eles acreditam que "rastreamento diagnóstico e medidas preventivas devem ser adaptadas para pessoas jovens em risco de doença mental grave", e oferecem uma abordagem focada na família.

Vulnerabilidade familiar

Para determinar se o uso de Cannabis pelos pais durante a gravidez aumenta o risco de psicose na prole, o grupo estudou participantes do Generation R Study, uma coorte de nascimento baseada em população, de Rotterdam.

Eles incluíram 3.692 indivíduos para os quais estavam disponíveis dados de uso de Cannabis pela mãe durante a gestação, tanto autorrelatados quanto pela presença de metabólitos na urina.

O uso de maconha pelo pai foi estabelecido por relatos dos mesmos ou das mães. A presença de experiências psicóticas na prole foi analisada via relatos da família quando a criança alcançou os 10 anos de idade.

O grupo encontrou 183 mulheres que usaram Cannabis; 98 o fizeram antes da gravidez e 85 durante a mesma. Além disso, 386 mulheres continuaram a fumar tabaco durante a gestação. O uso de Cannabis foi relatado por 297 pais.

Em análise multivariada que levou em consideração vários fatores de confusão sociodemográficos e psiquiátricos, o uso de maconha pela mãe foi associado a aumento significativo de risco de experiências psicóticas na prole (odds ratio, OR= 1,38; P = 0,031).

Analisando o uso de Cannabis antes da gravidez e depois da gravidez separadamente, as ORs foram 1,39 (P = 0,097) e 1,37 (P = 0,145), respectivamente, indicando um grau semelhante de associação nos dois pontos temporais.

Curiosamente, o uso de Cannabis pelo pai também foi significativamente associado a experiências psicóticas aos 10 anos de idade (OR= 1,44; P = 0,002).

Dr. Bolhuis disse ao Medscape que é "muito difícil dizer qualquer coisa sobre causa e efeito com estes tipos de análises observacionais."

Apesar disso, segundo ele, o achado de que tanto o uso materno quanto o paterno de Cannabis são associados a experiências psicóticas na prole "de uma certa forma descarta o efeito intrauterino do uso de Cannabis no desenvolvimento neural do feto."

Em vez disso, ele aponta para vulnerabilidades ocorrendo na família.

"Pais e mães grávidas que usam Cannabis não formam uma parcela aleatória da população. Eles são caracterizados por maiores índices de escores de psicopatologia e menor nível socioeconômico, e nós achamos que estas vulnerabilidades, sendo elas genéticas ou ambientais, são passadas para a próxima geração", disse o Dr. Bolhuis.

"Sabemos por estudos prévios que experiências psicóticas são indicativas não apenas de transtorno psicótico se desenvolvendo mais à frente na vida do indivíduo, mas também de ideação suicida e de vários outros transtornos mentais graves mais tarde. Então, de alguma forma, acho que este estudo ressalta como coisas ruins em saúde mental se agrupam em famílias, e que elas podem ser transmitidas para a próxima geração", acrescenta o pesquisador.

Estudos futuros, ele disse, devem focar em estágios mais precoces do desenvolvimento da criança, em vez de focar no adolescente mais velho ou em adultos jovens.

"Acho que devemos começar a focar nos precursores de saúde mental, nos pródromos não apenas de psicose, mas também de doenças mentais graves, tais como depressão maior ou transtorno bipolar e ideação suicida, muito mais cedo na vida, pois estes indicadores de risco podem ser vistos bastante precocemente."

Biologicamente plausível

Comentando os achados para o Medscape o Dr. Richard Saitz, chefe e professor do Departamento de Ciências da Saúde Comunitária da Boston University School of Public Health, em Massachusetts (EUA), disse que hesitaria em "tirar quaisquer conclusões firmes", pois muito poucos detalhes do estudo foram fornecidos na apresentação, e o estudo não foi completamente revisado.

"Por exemplo, não sabemos quantas crianças tiveram sintomas psicóticos, nem sabemos quais potenciais fatores de confusão foram ajustados, as diferenças entre modelos com e sem ajustes parecem mínimas, o que pode sugerir que existem poucos fatores de confusão, ou que os fatores de confusão corretos não foram incluídos", disse ele.

Dr. Saitz também ressaltou que a única associação significativa foi com exposição a Cannabis geral, e não especificamente antes ou depois da gravidez, "então ele deixa um grande caminho a ser percorrido para decifrar o timing."

Ele nota que, apesar desta associação ser "biologicamente plausível, ao menos para exposição durante a gravidez…a questão é se a associação é causal."

Ressaltando que algumas pessoas irão concluir pelo estudo que a associação é causal, Dr. Saitz continua: "se não há nenhuma justificativa forte para ser exposto à maconha, o caminho mais seguro seria não fazê-lo."

"Entretanto, é possível que os achados não sejam causais; pode ser que pessoas que tenham usado Cannabis e tenham tido filhos com sintomas psicóticos têm maior probabilidade de se lembrar ou de reportar o uso da Cannabis."

"É também possível que as famílias que usam maconha regularmente  também exponham os filhos a outros fatores de risco para psicose que não foram suficientemente abordados nesta análise", disse ele.

Apesar disso, em suma, Dr. Saitz disse que o estudo é "importante", pois é prospectivo e parece ter métodos concretos.

"Este é o melhor tipo de estudo para informar a questão, já que nunca iremos randomizar grávidas para exposição à Cannabis a não ser que a maconha venha a ser estudada como medicação durante a gestação. Outros estudos terão de confirmar estes resultados para que tenhamos maior confiança neles", acrescenta ele.

Este estudo foi patrocinado por Netherlands Organization for Scientific Research, Erasmus University Rotterdam, Erasmus Medical Center, e Netherlands Organization for Health Research and Development. Os pesquisadores e o Dr. Saitz não relatam conflitos de interesses relevantes.

Schizophrenia International Research Society (SIRS) 2018 Biennial Meeting. Poster F33, apresentado em 6 de abril de 2018.

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