Mesmo consumo moderado de álcool pode aumentar risco de mortalidade

Norra MacReady

Notificação

20 de abril de 2018

Uma nova análise de dados de quase 600.000 pessoas sugere que a associação entre uso de álcool e risco de mortalidade por qualquer causa começa em um nível de consumo muito menor do que o previamente imaginado.

O risco de mortalidade foi menor para pessoas que ingeriram 100 g ou menos de álcool por semana, e mostrou uma relação positiva e curvilinear com o aumento da dose, escreveram a pesquisadora Angela M. Wood e colegas em um artigo publicado na edição de 14 de abril do periódico The Lancet. No Reino Unido, 100 g de álcool são equivalentes a entre cinco e seis taças de vinho ou canecas de cerveja.

Da mesma forma, os autores observaram uma relação praticamente curvilinear entre consumo de álcool e doença cardiovascular exceto infarto do miocárdio, que mostrou uma relação inversa com a quantidade consumida.

Em suma, todos os achados "apoiam a adoção de limites de consumo menores do que os recomendados na maioria das diretrizes atuais", escrevem Angela, do Departamento de Saúde Pública e Saúde Básica da University of Cambridge, no Reino Unido, e colegas. Por exemplo, nos Estados Unidos, o consumo semanal máximo por semana recomendado para homens é de 196 g, enquanto "em Itália, Portugal e Espanha, os limites de baixo risco são 50% maiores".

A mensagem principal desta pesquisa para o público é que "se você já bebe álcool, beber menos pode te ajudar a viver mais, além de diminuir o seu risco de várias doenças cardiovasculares," disse Angela em um comunicado.

Os achados surgem no mesmo momento em que os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) sugerem que cerca de 37 milhões de pessoas nos Estados Unidos, ou aproximadamente um em cada seis adultos, podem estar consumindo álcool em excesso regularmente. O consumo excessivo de álcool é responsável por 88.000 mortes anuais nos Estados Unidos.

Os autores deste estudo foram motivados a conduzir esta análise pela disparidade entre as diretrizes de consumo de álcool internacionais, argumentando que tal variação "pode refletir a ambiguidade dos limites de consumo de álcool associados com menor risco de mortalidade, assim como incerteza em relação às consequências específicas do consumo de álcool, incluindo aquelas relacionadas a subtipos de doenças cardiovasculares," escrevem eles.

A análise incluiu dados individuais de participantes em 83 estudos prospectivos de longo prazo conduzidos em 19 países desenvolvidos, com o objetivo de identificar limites de risco de mortalidade por qualquer causa e doença cardiovascular associados com o consumo de álcool. Participantes elegíveis precisavam ser consumidores de álcool no momento do estudo e não ter história de doença cardiovascular no início do mesmo.

Um total de 599.912 preenchiam estes critérios. A idade média deles era de 57 anos e eles foram recrutados para seus respectivos estudos entre 1964 e 2010. Cerca de 50% dos participantes no estudo consumiam mais de 100 g de álcool por semana, com 8,4% relatando consumo de mais de 350 g por semana.

Os participantes foram acompanhados por uma mediana de 7,5 anos, ou um total de 5,4 milhões de pessoas-ano. Durante este período, ocorreram 40.310 mortes por qualquer causa, incluindo 11.762 mortes por doença cardiovascular e 15.150 mortes relacionadas a câncer. Outros 39.018 participantes apresentaram um evento cardiovascular pela primeira vez, incluindo 12.090 acidentes vasculares cerebrais (AVCs), 14.539 infartos do miocárdio, 7.990 eventos de doença arterial coronária (excluindo infarto do miocárdio), 2.711 eventos de falência cardíaca, e 1.121 mortes por outras doenças cardiovasculares.

Para mortalidade por qualquer causa, "houve uma relação positiva e curvilinear com o consumo de álcool, com o menor risco para aqueles consumindo menos de 100 g por semana", escrevem os autores.

A relação com doença cardiovascular foi de certa maneira menos direta. Após ajustes pra idade, sexo, tabagismo e história de diabetes, a quantidade de álcool consumida mostrou relações praticamente lineares com AVC (hazard ratio, HR, por consumo maior que 100 g/semana: 1,14; intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,10 - 1,17), doença coronariana excluindo infarto do miocárdio (HR: 1,06; IC de 95%, 1,00 - 1,11), falência cardíaca (HR: 1,09; IC de 95%, 1,03 - 1,15), doença hipertensiva fatal (HR: 1,24; IC de 95%, 1,15 - 1,33) e aneurisma de aorta fatal (HR: 1,15; IC de 95%, 1,03 - 1,28).

Para infarto do miocárdio, porém, houve uma relação inversa e aproximadamente logarítmica com o uso de álcool (HR: 0,94; IC de 95%, 0,91 - 0,97). O ajuste para pressão arterial sistólica reforçou esta relação inversa ainda mais, enquanto o ajuste para nível de colesterol HDL a enfraqueceu.

O análise também confirmou a associação entre consumo de álcool e vários tipos de câncer do trato digestivo. Em novembro de 2017, a American Society of Clinical Oncology (ASCO) publicou um comunicado formal conclamando os médicos a alertarem os pacientes de que o álcool é um fator de risco para vários tipos de neoplasia maligna, encorajando-os a reduzir o próprio risco de câncer diminuindo o consumo de álcool.

Quanto ao efeito do álcool na sobrevida, os autores observaram que, comparados com "os que relataram consumo entre 0 e 100 g (média usual 56 g) de álcool por semana, aqueles que relataram consumo entre 100 g e 200 g (média usual 123 g) por semana, entre 200 g e 350 g (média usual 208 g) por semana, ou >350 g (média usual 367 g) por semana tiveram expectativa de vida menor aos 40 anos de idade de aproximadamente seis meses, um a dois anos, ou quatro a cinco anos, respectivamente."

De forma geral, homens que mantiveram o consumo semanal de álcool menor que 100 g tiveram expectativa de vida aos 40 anos de idade cerca de um a dois anos mais longa do que a de homens que consumiram 196 g por semana. Para mulheres que consumiram mais do que o limite no Reino Unido de 112 g, ou o limite para mulheres nos Estados Unidos de 98 g, a expectativa de vida aos 40 anos foi 1,3 anos mais curta do que para aquelas que consumiram menos.

Esta análise "melhora substancialmente a informação de meta-análises anteriores que definem os limites mínimos de consumo de álcool", diz Jason Connor, em editorial de acompanhamento.

Entretanto, nem todos irão acolher estes achados de braços abertos, alerta Connor, do Centre for Youth Substance Abuse Research, da University of Queensland, em St. Lucia (Austrália).

"Os limites de consumo de álcool recomendados neste estudo irão sem dúvida ser descritos como improváveis e impraticáveis pela indústria do álcool e por outros que se opõem às advertências de saúde pública em relação ao álcool".

Ainda assim, conclui ele, "os achados devem ser disseminados globalmente e devem provocar um debate público e profissional informado."

Os autores do estudo relatam ter recebido patrocínio de Merck, Biogen, Novartis, Bioverativ, Pfizer, Zoll LifeCor, Johnson & Johnson, Janssen, United Health, IBM Watson, Element Science, Aetna, Hugo, Medtronic, Merck Sharp & Dohme UK, the Wellcome Trust, AstraZeneca, Nestle, Metagenics, The Medicines Company, GSK, DalCor, Sanofi, Berlin-Chemie, Kowa, Amgen, Roche Diagnostics, Beckmann, Singulex, e Abbott. Connor não relata conflitos de interesses relevantes.

Lancet. 2018;391:1460-1461, 1513-1523. Artigo

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