Pouca massa muscular associada a risco de morte em câncer de mama inicial

Pam Harrison

Notificação

10 de abril de 2018

Sarcopenia, ou baixo nível de massa muscular esquelética, é um fator de risco altamente prevalente, apesar de bastante desconhecido, para mortalidade global em mulheres com câncer de mama não-metastático, estágios 2 e 3, sugere um novo estudo observacional.

Além disso, o nível de massa muscular e de tecido adiposo da mulher identificados em tomografia computadorizada (CT) é um preditor de sobrevida mais forte do que o IMC, afirma o mesmo estudo.

"Nesta população de mulheres com câncer de mama inicial não-metastático, nós demonstramos que, com perda de peso, elas apresentam pior sobrevida. E nossa hipótese foi que isto seria devido à perda de massa muscular", disse ao Medscape a pesquisadora sênior Bette Caan, da divisão de pesquisa do Kaiser Permanente Northern California, em Oakland (Estados Unidos).

"Porém nós observamos que a sarcopenia não é restrita a pacientes com câncer metastático – é também um problema pouco valorizado mas significativo entre mulheres com câncer de mama não-metastático. Então os médicos não podem se preocupar apenas com adiposidade. Eles devem se importar também com nível de massa muscular, pois isso é um fator prognóstico tão importante como alta adiposidade para sobrevida", enfatiza Bette.

Os médicos não podem se preocupar apenas com adiposidade. Eles devem se importar também com nível de massa muscular da mulher. Bette Caan

O estudo foi publicado on-line em 5 de abril no JAMA Oncology.

O estudo incluiu 3.241 mulheres com idades variando entre 18 e 80 anos, que haviam sido diagnosticadas com câncer de mama não-metastático estágios 2 e 3 no Kaiser Permanente Northern California ou no Dana Farber Cancer Institute, em Boston, Massachussetts (EUA).

A idade mediana das pacientes no momento do diagnóstico foi de 54 anos, e o tempo mediano de acompanhamento foi de seis anos.

"Com a tomografia medimos área muscular, radiodensidade muscular e adiposidade em, no máximo, seis meses após o diagnóstico, e também antes da quimio ou radioterapia", observam os pesquisadores. Como Bette explicou, o tecido muscular tem maior densidade à CT do que a gordura.

A baixa radiodensidade do tecido muscular reflete a quantidade de infiltração gordurosa no músculo, que normalmente não deve existir, e este fato é visto por alguns como um substituto para baixa qualidade muscular.

Desta forma, baixa radiodensidade de músculo esquelético representa baixa qualidade de músculo esquelético, assinala Bette.

A adiposidade total, que também foi medida por tomografia, representa a soma do tecido adiposo visceral, subcutâneo e intramuscular de cada paciente.

No momento do diagnóstico, 34% da coorte apresentava sarcopenia enquanto 37% evidenciava baixa radiodensidade ou qualidade muscular.

Em análise multivariada, a sarcopenia foi associada a um risco de morte 41% maior (hazard ratio, HR, de 1,41; intervalo de confidência, IC, de 95%, 1,18 - 1,69) comparada a pacientes sem sarcopenia, relatam os pesquisadores.

Da mesma forma, pacientes no maior tercil de adiposidade apresentavam um risco 35% maior de morte comparadas a pacientes no tercil mais baixo, e esta associação não variou significativamente por idade, IMC, estágio do câncer ou presença de receptores de estrogênio, acrescentam eles.

O risco de mortalidade foi maior entre pacientes com sarcopenia e alto nível de adiposidade total, entre as quais o risco relativo de mortalidade foi 89% maior do que aquela de pacientes sem sarcopenia e com baixos níveis de tecido adiposo total.

Em contraste, baixa radiodensidade não foi significativamente associada a risco de sobrevida.

Além disso, o aumento de um desvio padrão no índice de músculo esquelético (IME) foi associado a uma modesta redução no risco de mortalidade. Como Bette explicou, o IME é uma ferramenta para padronizar a massa muscular para pessoas de mesma altura: quanto mais alta a pessoa, maior a massa muscular necessária para suportar a maior estrutura.

O IMC, significativamente, também não teve associação com mortalidade global, assinalam os pesquisadores. Por exemplo, o risco de morte foi semelhante entre as pacientes com IMC normal (18,5 até <25 kg/m2) e aquelas com sobrepeso (IMC de 25 a <30 kg/m2).

O risco de morte foi aumentado em pacientes obesas com IMC de 30 kg/m2 ou mais, mas não de forma significativa, acentuam os pesquisadores.

De fato, somente pacientes no maior tercil de adiposidade total, mas sem sarcopenia, apresentaram um risco significativamente maior de morte, de cerca de 40% comparadas com aquelas com adiposidade total baixa sem sarcopenia.

Por outro lado, o risco de morte foi aumentado independente do nível de adiposidade total entre pacientes com sarcopenia comparadas com pacientes sem sarcopenia com baixos nível de adiposidade total.

IMC não é uma boa medida?

Como Bette explicou, o IMC não revela nada sobre a composição do corpo da paciente.

"Você pode ver um atleta com IMC de 30 kg/m2, mas todo composto de músculo", disse ela. "Por outro lado, você pode ter uma pessoa com IMC de 26 kg/m2 que é sedentário e tem muita gordura."

"Então, somente porque duas pessoas têm o mesmo IMC isso não significa que a composição corporal delas é a mesma", reafirmou.

Por exemplo, Bette mostrou imagens de duas pacientes com IMC idêntico (de 30 kg/m2), mas em uma, o IME foi de 69 cm2/m2 e o índice de adiposidade visceral foi de 33 cm2/m2.

Em contraste, o IME na segunda paciente foi de apenas 36 cm2/m2, enquanto o índice de adiposidade visceral foi de 127 cm2/m2.

"Uma vez que o IMC ultrapassa o valor de 35 kg/m2, ele passa a ser bastante preciso na identificação de mulheres com alta adiposidade e, normalmente, mulheres com IMC maior que 35 kg/m2 têm menores níveis de sarcopenia. Mas a condição pode estar presente, então os médicos devem sempre verificar, mesmo nestas pacientes, a presença de sarcopenia antes de indicar uma dieta de perda de peso, pois se a pessoa com pouco músculo começa dieta para emagrecer, ela vai perder ainda mais músculo", enfatiza Bette.

Perguntada sobre se seria fácil incorporar imagens de CT na prática, Bette ressaltou que muitas pacientes com câncer já estão sendo diagnosticadas com o uso destas imagens.

"Hoje existem softwares que automatizam imediatamente, então com o apertar de um botão, você pode obter esta informação", disse ela.

O verdadeiro desafio é levar esta informação aos oncologistas, para que eles então indiquem a intervenção apropriada, sugere Bette.

Enquanto isso, pacientes com câncer de mama inicial não-metastático nas quais haja suspeita ou seja detectado o quadro de sarcopenia, devem ser aconselhadas a iniciar exercícios de resistência.

Exercícios de resistência não apenas aumentam a força muscular, mas também mantêm a massa muscular magra e diminuem a gordura corporal em pacientes com câncer, ressalta Bette, além de servirem como contramedida eficaz para massa muscular baixa ou de baixa qualidade.

Os pesquisadores sugerem ainda que pacientes com câncer consumam um suplemento de proteína para melhorar a massa muscular.

Ganho de massa gorda

Comentando o estudo em um editorial a Dra. Elisa Bandera, da Rutgers University em New Brunswick, Nova Jersey, e Esther John, da Stanford University, em Freemont, na Califórnia, ressaltam que mudanças na composição corporal frequentemente ocorrem após uma mulher ser diagnosticada com câncer de mama, principalmente ganho de massa gorda em relação a massa muscular magra, muitas vezes devido ao tratamento.

"O resultado inovador no estudo de Caan et al salienta os benefícios de manter e construir massa muscular em pacientes após câncer de mama", afirmam elas.

Apesar disso, a Dra. Elisa disse ainda acreditar que o IMC, mesmo não sendo uma medida perfeita de adiposidade (particularmente para mulheres de peso normal), permanece sendo uma "ferramenta útil e prática" na identificação de mulheres obesas, e para fazer recomendações sobre controle de peso, principalmente àquelas com IMC maior que 35 kg/m2, observa ela em email ao Medscape.

"Este novo estudo levanta a questão de que, quando as imagens de CT estão disponíveis, elas podem acrescentar informações valiosas para a identificação de mulheres com risco particularmente aumentado de mortalidade que podem não ter sido consideradas ao se julgar apenas o IMC – por exemplo, aquelas com obesidade sarcopênica – apesar destas pacientes representarem apenas 6% das participantes", ressalta a Dra. Elisa.

Dra. Elisa e Esther também advertem contra a recomendação de intervenções como suplementos de proteína para pacientes com câncer, pois os benefícios desta suplementação ainda não foram demonstrados em pacientes com câncer de mama ou em uma população mais idosa.

"A ingesta de proteínas por meio de alimentação nutritiva é muito importante para todas as idades, mas principalmente para a população que está envelhecendo", diz a Dra. Elisa.

"A suplementação de proteínas é diferente", acrescenta ela, "e os poucos estudos realizados em pacientes com câncer de mama não observaram nenhum efeito na força muscular ou na composição corporal, ao contrário dos exercícios de resistência, que melhoraram ambas", disse ela, acrescentando que "esta é uma área que precisa de mais pesquisas antes de que possamos fazer recomendações."

A autora e e as editorialistas não relatam conflitos de interesses relevantes.

JAMA Oncol. Publicado on-line em 5 de abril de 2018. Resumo, Editorial

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....