Anakinra aumenta nível de testosterona em obesos com hipogonadismo

Miriam Tucker

Notificação

2 de abril de 2018

CHICAGO, Illinois — Terapia anti-inflamatória pode ser a nova abordagem para o tratamento do hipogonadismo, com possível redução do risco cardiovascular para homens com síndrome metabólica, sugere um novo estudo.

Os achados do estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo TestIL foram apresentados no ENDO 2018: The Endocrine Society Annual Meeting pelo Dr. Fahim Ebrahimi, do University Hospital Basel, na Suíça.

O TestIL é o primeiro estudo a investigar o uso de um anti-inflamatório para o tratamento do hipogonadismo. A droga utilizada no estudo, anakinra, é um antagonista do receptor da interleucina-1 humana recombinante usado no tratamento de artrite reumatoide e outras condições inflamatórias menos comuns.

"Homens com síndrome metabólica frequentemente têm testosterona baixa. A síndrome metabólica é um estado de inflamação crônica de baixo grau. Nós mostramos neste estudo, pela primeira vez, que tratamento com um anti-inflamatório aumenta os níveis de testosterona," disse o Dr. Ebrahimi ao Medscape.

Ele acrescenta: "ainda não sabemos se a terapia de reposição de testosterona é benéfica ou potencialmente prejudicial aos parâmetros cardiovasculares. Sabemos que indicadores inflamatórios têm influência nos níveis de testosterona, e que, quanto maior a inflamação, mais baixos os níveis de testosterona."

Além de uma melhora significativa nos níveis de testosterona, os homens no estudo randomizados para receber anakinra apresentaram ainda redução do nível sérico de proteína C-reativa (PCR) e da pressão arterial, em conjunto com melhora da função sexual e da força de preensão quando comparados com aqueles que receberam placebo.

"Nós acreditamos que é clinicamente relevante levando em consideração o estudo CANTOS, publicado recentemente, mostrando que o antagonismo da inflamação causado pela interleucina-1 diminui a mortalidade cardiovascular", observa ele.

Porém, o pesquisador recomenda cautela, já que o estudo presente é apenas uma prova de conceito. "A duração do tratamento foi bastante curta, somente quatro semanas. Precisamos conduzir estudos maiores para mostrar efeitos clínicos."

Procurada para comentar a pesquisa, a moderadora da sessão Monica M Laronda, diretora de pesquisa básica e translacional do Fertility & Hormone Preservation & Restoration Program na Northwestern University, em Chicago (EUA), disse ao Medscape que "continuamos a observar que os hormônios reprodutivos – tanto ovarianos quanto testiculares – têm um grande efeito sistêmico na saúde global."

Por enquanto, a reposição da testosterona perdida se manterá como tratamento de primeira-linha para o hipogonadismo, disse ela, mas "tem havido um aumento na literatura sobre o uso de anti-inflamatórios para outras doenças. Estou muito curiosa para ver outros marcadores metabólicos ou outros marcadores que não pressão arterial e força de preensão. Estou ansiosa para ver o que mais resultará desta pesquisa."

Melhora de parâmetros metabólicos

O estudo incluiu 70 homens obesos com idades entre 18 e 75 anos, com níveis de testosterona matinal total menores que 12 nmol/L, e pelo menos uma manifestação de síndrome metabólica, incluindo pré-diabetes, diabetes, hipertensão e/ou dislipidemia. Eles foram randomizados 1:1 para autoaplicação de anakinra ou de placebo diariamente por quatro semanas.

Os pacientes tinham idade média de 54 anos e índice de massa corporal (IMC) médio de 36 kg/m2. Cerca de metade tinha diabetes ou pré-diabetes, três quartos eram hipertensos, e 83% apresentavam dislipidemia. A testosterona total basal foi 9,3 nmol/L e a PCR foi de 4,5 mg/L.

Ao final das quatro semanas, a testosterona havia aumentado em 11% no grupo do anakinra comparado a nenhuma modificação no grupo placebo (P = 0,44). A PCR caiu 51% com o uso de anakinra (P = 0,002) vs. nenhuma modificação com placebo.

A resposta da testosterona total com anakinra foi limitada aos pacientes com PCR basal maior que 2,0 mg/L, nos quais houve um aumento de 24% (P = 0,039) vs. uma queda não significativa na testosterona total com anakinra entre aqueles com PCR basal de 2,0 mg/L ou menos.

Da mesma forma, o anakinra teve um efeito muito maior na testosterona total entre os homens com IMC maior que 40 kg/m2, aumentando em 29% comparado ao placebo em quatro semanas (P = 0,035).

E, enquanto não houve nenhum efeito significativo global na testosterona livre, estes níveis aumentaram significativamente com anakinra comparado ao placebo em ambos subgrupos com PCR basal maior que 2,0 mg/L e IMC maior que 40 kg/m2 (P = 0,013 e 0,020, respectivamente).

Os objetivos secundários com resultados significativos incluíram uma queda de 2,94 mmHg na pressão arterial diastólica desde o início do estudo até quatro semanas com anakinra vs. uma queda de 0,80 mmHg com placebo (P = 0,058 para diferença de tratamento), e uma melhora significativa na força de preensão palmar com a mão não-dominante com anakinra comparado com o grupo placebo, que teve diminuição na mesma função (P = 0,036).

O grupo que recebeu anakinra também apresentou melhores escores no questionário International Index of Erectile Function (P = 0,057).

Efeitos adversos leves e toleráveis

Não foram observados efeitos adversos graves. O efeito adverso mais frequente foram reações transitórias em 21 pacientes com anakinra vs. nenhuma no grupo placebo. As reações foram consideradas leves em 11 pacientes e moderadas em 10 pacientes. Náusea leve foi relatada em 2 pacientes do grupo anakinra vs. nenhuma no grupo placebo, diarreia em cinco vs. dois, e infecção do trato respiratório superior em três vs. quatro.

Em resposta à preocupação de um membro da audiência se pacientes imunossuprimidos ou que haviam apresentado infecção recente tinham sido excluídos do estudo, Dr. Ebrahimi respondeu que o anakinra já foi prescrito para mais de 150.000 pacientes ao redor do mundo para artrite reumatoide e sem mostrar maior frequência de infeções ou imunossupressão.

E ele chama atenção para o fato de que isto contrasta com a terapia de reposição de testosterona, que "não sabemos se é prejudicial."

O Dr. Ebrahimi não relata conflitos de interesses relevantes.

ENDO 2018. 18 de março de 2018; Chicago, Illinois. Resumo OR15-6

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....