Peptídeo-c como marcador de risco metabólico em mulheres com síndrome do ovário policístico

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

2 de abril de 2018

Uma pesquisa publicada em março deste ano no Journal of Clinical Medicine Research[1] revela que o peptídeo-c é um bom marcador de risco cardiometabólico em mulheres com síndrome do ovário policístico (SOP). Para o autor da pesquisa, o ginecologista e obstetra Dr. Sebastião Freitas de Medeiros, médico do Instituto Tropical de Medicina Reprodutiva e Menopausa (Intro) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a avaliação dessa molécula no atendimento de mulheres com SOP é indispensável, sendo especialmente importante para pacientes com SOP ao ultrassom, com obesidade central e com sinais de hiperandrogenismo como acne e hirsutismo – aumento da pilosidade na mulher em locais onde os homens costumam ter pelos.

Segundo o Dr. Medeiros, o pâncreas sintetiza quantidades iguais de peptídeo-c e insulina, ou seja, uma molécula de peptídeo-c para uma molécula de insulina.

"As duas moléculas, secretadas na circulação porta são carreadas para o fígado. Lá, apenas a insulina sofre degradação. Quando se quantifica peptídeo-c e insulina na circulação periférica, muitas moléculas de insulina já foram retiradas do sangue. Logo, o peptídeo-c reflete melhor a secreção pancreática. Isto vale para a população em geral. Apesar desta vantagem teórica, na prática, o mais utilizado ainda é a dosagem da insulina", diz.

Atualmente, o uso de peptídeo-c na prática clínica tem sido limitado para diferenciação de diabetes tipo 1 do diabetes tipo 2, identificação de diabetes familiar da maturidade manifestada nos jovens (MODY – Maturity Onset Diabetes of the Young), detecção da deficiência absoluta de insulina, e monitoramento da capacidade funcional da célula beta-pancreática[2]. Para o Dr. Medeiros, "o emprego desse marcador deveria ser ampliado para todos os estudos cujo alvo seja avaliar a função das células beta-pancreáticas e do metabolismo glicídico".

Especialmente em pacientes com SOP, o papel do peptídeo-c como preditor de doença cardiovascular era, até então, limitado a auxiliar na determinação do grau de resistência à insulina, e também no monitoramento da capacidade funcional da célula beta-pancreática. A pesquisa em questão propõe a utilidade desse marcador na avaliação de alterações dismetabólicas e hormonais em pacientes com a condição.

Tendência a elevação da pressão arterial

O estudo de caso-controle, desenvolvido em Cuiabá (MT)  envolveu 385 mulheres com SOP e 240 sem a doença, e avaliou parâmetros antropométricos e endócrinos. Os resultados revelaram que tanto o uso isolado dos níveis de peptídeo-c quanto o uso deste marcador associado a outras variáveis (razão peptídeo-c/glicose, glicose em jejum, peso corporal e quantidade de estradiol livre no sangue) fornece um modelo significativo para identificar pacientes com SOP com maior risco de doenças cardiometabólicas no futuro.

Os autores encontraram correlação positiva de fraca a moderada, mas altamente significativa do ponto de vista clínico, entre concentrações de peptídeo-c e pressão sanguínea em mulheres com SOP.

"As pessoas com níveis circulantes elevados de peptídeo-c tendem a apresentar elevação tanto da pressão arterial mínima quanto da pressão arterial máxima. Este estudo dá suporte ao mecanismo pelo qual o peptídeo induz aterogênese no vaso sanguíneo, promove proliferação da camada muscular do vaso, promove reações inflamatórias no endotélio do vaso, e o resultado é a diminuição da complacência vascular com elevação da pressão arterial", diz o especialista.

A correlação entre pressão sanguínea e peptídeo-c não foi observada no grupo sem SOP. Porém, a maioria das outras variáveis investigadas – antropométricas, metabólicas e alguns hormônios – também apresentou correlação com níveis de peptídeo-c no grupo controle, ainda que mais fracas do que o observado em pacientes com SOP.

Sobre a pressão sanguínea, diz o Dr. Medeiros, a ausência de correlação entre peptídeo-c e pressão arterial em mulheres normais está relacionada ao fato de as concentrações de peptídeo-c serem muito menores em indivíduos saudáveis.

Os resultados não surpreenderam muito o médico porque, segundo ele, a função pancreática está associada à demanda de carboidratos.

"Havendo maior peso corporal, maior circunferência abdominal e mais massa gorda, os níveis de peptídeo-c se elevam, ainda que em mulheres sem síndrome do ovário policístico. Ficamos surpresos, no entanto, com a correlação entre o peptídeo-c e a quantidade de massa magra, e esse achado merece mais estudos. Vale observar também, que em indivíduos normais o peptídeo-c tem correlação positiva com os níveis de glicose e triglicerídeos circulantes. Nós chamamos isso de 'cross-talk' entre o pâncreas e a quantidade de açúcares circulantes", diz.

Os achados da pesquisa apoiam a ampliação do uso do peptídeo-c em mulheres com SOP tanto isolado quanto em associação com outras variáveis. A escolha quanto ao emprego do marcador com ou sem associação dependerá do custo e da precisão exigida na prática clínica.

 "Realmente, medir peptídeo-c no sangue do paciente é o ideal para avaliar o metabolismo dos carboidratos, a competência pancreática, e inferir sobre as possíveis lesões acarretadas por esse dismetabolismo no sistema cardiocirculatório", diz o médico.

As outras variáveis (razão peptídeo-c/glicose, glicose em jejum, peso corporal e a quantidade de estradiol livre no sangue) apenas reforçam a correlação e, segundo ele, dão sentido ao clínico para dimensionar o risco potencial da doença cardiovascular.

"Em síntese, se uma paciente tem níveis séricos elevados de peptídeo-c, é obesa, tem glicose elevada e altos níveis de estrogênio circulante, certamente terá maior chance de apresentar doença aterosclerótica no sistema vascular", resume.

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