Campanha quer estimular vacinação de grávidas em todo Brasil

Ruth Helena Bellinghini

23 de março de 2018

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) lançou este mês uma campanha para conscientizar a população, além de médicos e outros profissionais de saúde, sobre a necessidade de vacinação de grávidas. Se a imunização de crianças é um dos sucessos do sistema de saúde brasileiro, a vacinação de gestantes ainda deixa muito a desejar. De acordo com a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, Carla Domingues, a adesão à vacina tríplice bacteriana acelular (difteria, tétano e coqueluche) chegou a apenas 38,48% em 2017; a dupla bacteriana, contra difteria e tétano, alcançou 59,06% das mulheres em idade fértil, de 2013 a 2017; e a de hepatite B, 56,4%, no período de 1994 a 2017. A vacina contra a gripe (influenza) é a que alcançou a maior cobertura, com 79,31%, em 2017. A iniciativa da SBIm tem o apoio do Ministério da Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A campanha "Calendário de Vacinação da Gestante: um sucesso de proteção para mãe e filho" vai distribuir 2 milhões de folhetos e 180 mil cartazes em Unidades Básicas de Saúde (UBS) de todo o País, material de apoio para médicos e inserções em relógios instalados nas vias públicas. Além disso, foram criados um site e uma página no Facebook. A expectativa é que a iniciativa alcance 19 milhões de visualizações e acessos na internet.

"É importantíssimo levar informação, tanto para o profissional de saúde quanto para a grávida, e derrubar o mito de que gestantes não podem tomar vacinas. Na verdade, existem vacinas que são recomendadas para elas, porque os anticorpos produzidos não só as protegem, mas também passam para o bebê, primeiro através da placenta e depois por meio da amamentação." diz a Dra. Isabella Ballalai, pediatra e presidente da SBIm.

De acordo com a especialista, as vacinas não oferecem risco para o feto e, no caso das vacinas atenuadas, o que existe é um risco meramente teórico, sem registro de ocorrências na literatura médica.

"Quando existe risco de exposição de gestante e feto ao agente infeccioso, e o risco da vacinação é apenas teórico, os benefícios da vacinação geralmente superam o risco," ressalta.

Segundo a Dra. Isabella, as vacinas podem ser classificadas em atenuadas vivas, nas quais o antígeno é atenuado, mas muito imunogênico e com baixa virulência, como é o caso das vacinas tríplice (sarampo, caxumba e rubéola), e de herpes zoster, febre amarela, varicela e dengue. Essas vacinas não devem ser administradas a grávidas e imunossuprimidos. Ainda assim, um estudo de 2006, que acompanhou gestantes vacinadas contra a febre amarela inadvertidamente (ainda não sabiam da gestação) [1], mostrou que das 480 mulheres avaliadas, 98,2% apresentaram resposta imunológica, sendo que 19,6% queixaram-se de cefaleia, febre ou mialgia. Daquele total, foram registrados 2,3% de malformações, 2,5% de abortos espontâneos, 0,7% de natimortos e 7,8% de partos prematuros, que são taxas semelhantes às encontradas na população não vacinada.

O que se recomenda para as grávidas são as vacinas inativadas, que não têm capacidade de causar a doença. Este é o caso da tríplice bacteriana acelular tipo adulto ou (dTpa), contra difteria, tétano e coqueluche; da dupla do tipo adulto (ou dT), contra difteria e tétano; das hepatites A e B, das vacinas pneumocócicas e meningocócicas, das vacinas de HPV e da pólio inativada.

"Essas vacinas são menos imunogênicas, os efeitos adversos aparecem precocemente e não sofrem influência das imunoglobulinas", explica a Dra. Isabella.

O calendário de vacinação para as grávidas deve incluir a vacina contra hepatite B, para não vacinadas em qualquer momento da gestação.

"Deve-se iniciar ou completar o esquema de três doses, sendo a segunda um mês após a primeira, e a terceira seis meses após a primeira, mesmo que seja dada após o parto," recomenda a especialista.

Grávidas também devem tomar a vacina contra gripe a cada gestação, bem como a tríplice bacteriana (dTpa) na partir da 20ª semana de gravidez. Se a vacina não estiver disponível, indica-se a dupla do tipo adulto (dT) para aquelas com vacinação incompleta para tétano e difteria.

"Os médicos devem estar atentos a grávidas com comorbidades ou expostas a situações epidemiológicas de risco, e avaliar caso a caso a necessidade aplicar vacina contra febre amarela, hepatite A e doenças pneumocócica e meningocócica," adverte.

"A nossa cobertura vacinal para grávidas está bem abaixo do ideal, e é necessário que o obstetra e os demais profissionais de saúde que atuam no pré-natal orientem as pacientes. Médicos que atendem adultos não conhecem profundamente o tema e isso precisa mudar."

"As mulheres completam todo calendário de vacinação de seus filhos, mas não sabem como é importante na vacinação na gravidez," afirma Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunizações da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

"Nosso objetivo é ter o mesmo sucesso que temos com as crianças com a vacinação de adolescentes, adultos e gestantes," diz.

Ela ressaltou a importância da vacinação contra a coqueluche, lembrando que, dos 2.955 casos registrados no País em 2015, 1.850 ocorreram em crianças com menos de um ano, e que das 35 mortes, 30 foram em bebês com menos de três meses.

"A vacinação da gestante não imuniza o bebê, mas os anticorpos que ela produz e passa para o bebê são suficientes para protegê-lo justamente nesses primeiros meses de vida, enquanto ele não pode tomar a vacina", destaca.

Outra preocupação das autoridades de saúde diz respeito à hepatite B, já que 11,1% dos casos registrados entre 1999 e 2015 ocorreram em gestantes.

"Toda grávida deveria ser testada para o vírus da hepatite B e, se suscetível, vacinada, já que a transmissão vertical, de mãe para filho, responde por 6,2% dos casos. Além disso, 90% dos recém-nascidos que contraem hepatite B durante o parto desenvolvem a forma crônica da doença," explica.

De acordo com Carla Domingues, a eliminação do tétano neonatal enquanto problema de saúde pública e a redução dos casos de coqueluche em recém-nascidos demonstram a eficiência da vacinação das gestantes.

A Dra. Flavia Bravo, pediatra e presidente da regional RJ da Sbim, ressalta o perigo das infecções nas gestantes, já que elas interferem no curso da gravidez, exigem tratamento, e ambos, doença e tratamento, podem ter impacto no desenvolvimento do feto, podendo causar aborto e morte fetal, malformação congênita, atraso no crescimento intrauterino, rotura prematura de membranas, parto prematuro e infecção neonatal.

"É preciso lembrar que a gestação é um período com alterações do sistemas imune, respiratório e cardiovascular, com maior risco para complicações e óbitos", diz.

Os especialistas também são unânimes em recomendar a vacinação de adultos para também criar uma rede de proteção para a grávida e para o bebê. Segundo o Dr. Renato Kfouri, pediatra e vice-presidente da SBIm, pesquisas[2] mostram que em 75% dos casos de infecções em recém-nascidos, os contagiantes vivem na mesma casa.

"Nesses contágios, as mães representam 37% dos casos, os pais, 18%, os irmãos, 16% e os avós 6%. Isso mostra importância de termos adultos vacinados, especialmente em torno de um recém-nascido", afirma.

Kfouri também citoa o estudo Zaman[3], de 2006, que mostrou uma redução de 63% nos casos de gripe em bebês de até seis meses de idade, e pesquisa de 2011[4], mostrando redução de partos prematuros e de nascimentos de bebês com atraso de crescimento.

"A transferência de anticorpos da grávida para o bebê atinge seu pico perto do parto, daí a importância de se seguir um calendário de vacinação. Ao longo do tempo, depois do parto, e com a amamentação, essa transferência vai diminuindo, enquanto o bebê começa a produzir seus próprios anticorpos," explica o especialista.

Grávida da primeira filha, Liz, a atriz Juliana Didone aceitou ser madrinha da campanha pouco depois de ser informada pela obstetra da necessidade de vacinação.

"Grávidas sabem que não devem pintar o cabelo, beber álcool, que precisam cuidar da alimentação, mas a gente nunca ouve que precisar tomar vacinas durante a gestação. E essa informação precisa chegar às gestantes", diz.

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