COMENTÁRIO

É hora de renovarmos nossos votos com a medicina baseada em evidências

Dr. H. Jack West

Notificação

13 de março de 2018

Há um século o termo "vendedor de elixir" foi cunhado para descrever os charlatões que promoviam panaceias normalmente contendo partes iguais de álcool, opioides e pseudociência. Muitos de nós refletem sobre a evolução da medicina desde aquele tempo como nada menos do que fabulosa; o progresso neste campo trouxe avanços em antibióticos, cirurgia e genética, a tal ponto que esperamos da medicina moderna uma eficácia notável. No entanto, é o Dr. Oz, mais conhecido por envergonhar a si mesmo e ao mundo médico por promover espalhafatosamente um desfile interminável de curas milagrosas e alimentos "para  tirar a barriga", que foi apelidado de "Dr. América". [1] Enquanto isso, o site da atriz Gwyneth Paltrow, Goop, promove os benefícios para a saúde do vapor vaginal [2] e vende um kit para fazer enemas de café em casa por 135 dólares.[3]

Como é que conseguimos retroceder dos salutares princípios da medicina baseada em evidências para um mundo no qual o público leigo não só tolera, mas recebe de braços abertos essas respostas simples a questões árduas, a ponto dessas ofertas terem sido chamadas de "o triunfo da ignorância"? [4] Onde estava a curva errada no caminho que nos trouxe de volta para a medicina-espetáculo que deveríamos ter abandonado em um passado remoto?

As grandes promessas da ignorância científica

Infelizmente, a comunidade médica convencional tem contribuído para a erosão dos tratamentos orientados por dados, por ser passivamente complacente ou ativamente cúmplice deste declínio de seu status de preeminência. Aqueles que seguem os preceitos da medicina baseada em dados estão visceralmente cônscios das limitações do que realmente sabemos, mas nossas discussões circunspectas não são páreo para as proclamações confiantes e as grandes promessas daqueles que são ou muito ignorantes cientificamente, ou muito antiéticos, para exigir mais de suas recomendações terapêuticas do que uma premissa remotamente plausível e uma margem de lucro alta.

A comunidade médica tem ficado para trás no engajamento em mídias sociais ou nas principais discussões nos meios de comunicação para aumentar a capacidade do público em geral de avaliar a qualidade das evidências científicas, e participar de modo inteligente na tomada de decisão compartilhada. Temos a oportunidade – e sem dúvida a obrigação – de transmitir em termos acessíveis que as evidências pré-clínicas ficam muito aquém dos resultados nos pacientes humanos reais, e que os casos informais na medicina não são representativos da realidade esperada, mas devem ser vistos da mesma forma que as fotos de vencedores da loteria segurando seus cheques.

Falha da medicina de enfrentamento da desinformação

Em nossas interações com os pacientes nas salas de exame, muitas vezes nos sentimos divididos entre a tentação de denunciar abordagens pseudocientíficas fantasiosas e nosso desejo de evitar parecermos condescendentes, confrontando explicitamente até mesmo as opiniões mais equivocadas dos nossos pacientes. Em contextos mais públicos, também raramente temos desafiado a desinformação e chamado de "despautério" os provedores de bobagens. Por quê? Isto se deve em grande parte ao nosso excesso de confiança implícita de que a exatidão da medicina baseada em evidências deve ser autoevidente, ou à preocupação de que as críticas claras aos tratamentos especulativos pareçam difamatórias. E alguns de nós podem estar justificadamente preocupados em não suscitar a ira de fanáticos que estão prontos a achincalhar aqueles com coragem suficiente para falar – um cenário que ressalta nossa incapacidade de falar a uma só voz e galvanizar em conjunto uma defesa convicta da medicina baseada em evidências.

 
Nossa profissão e as nossas instituições contribuíram ativamente para a imprecisão da diferença entre o tratamento orientado por dados e o tratamento visando o lucro ou a popularidade.
 

Mas, além das questões por trás da nossa incapacidade de enfrentar este ataque, a nossa profissão e as nossas instituições também contribuíram ativamente para a imprecisão da diferença entre o tratamento orientado por dados e o tratamento visando o lucro ou a popularidade. Baseado no que eu diria ser um esforço para perseguir dólares e pacientes, muitos centros médicos importantes criaram estratégias de marketing de promoção da "oncologia integrada", e de programas holísticos de tratamento do câncer. Esta estratégia oferece a sanção de instituições respeitadas para abordagens terapêuticas que muitas vezes são tão desprovidas de evidências clínicas quanto qualquer cura milagrosa vendida pelo Dr. Oz. Ao mesmo tempo, nossas instituições respeitadas também rotineiramente comercializam sedutoras promessas científicas exageradas de medicina de precisão e imunoterapia, providas na hipérbole esbaforida de muitos altos sacerdotes da oncologia acadêmica. Entretanto, sem dados reais para embasar esta ambiciosa visão, isso ainda é baseado na fé.

A mistura tóxica de tratamentos baseados em evidências e as "terapias da moda"

Eis o principal problema: com tantas instituições respeitadas incorporando a ideia de "dar às pessoas o que elas querem", os tratamentos desprovidos de provas, juntamente com as práticas terapêuticas de câncer baseadas em dados são fastidiosamente definidos como padrão terapêutico, estão desvalorizando os esforços de seus praticantes que realmente buscam alta qualidade, tratamentos baseados em evidências, enquanto legitimam simultaneamente práticas que só são corroboradas por premissas pré-clínicas plausíveis ou por misticismo na forma de afirmações vagas, porém grandiosas e, ocasionalmente, sucessos informais. Ao misturar a medicina baseada em evidências aos "tratamentos da moda", é como se estivéssemos juntando dois doutorandos em uma equipe, apesar do fato de um ter trazido uma tese meticulosamente pesquisada e ponderada, e o outro candidato ter apresentado uma cópia impressa de seu feed do Facebook coberto por uma capa lisa.

Independentemente de quem está promovendo uma ideia, não podemos baixar os nossos padrões para aceitar pressupostos tendenciosos como evidências empiricamente testadas – e não importa se o modismo é uma exibição destaque no programa do Dr. Oz ou exageros sobre os milagres da medicina personalizada divulgados de um pódio na ASCO.

Renovando nossos votos com o tratamento baseado em evidências

Claro, não podemos confiar somente em respostas perfeitas de provas concretas. Há lacunas no mapa do nosso panorama médico, e às vezes devemos descer para melhores estimativas em vez evidências de nível 1 a cada decisão médica. Nesses casos, o melhor que podemos fazer é articular claramente o que sabemos versus o que meramente pensamos ou acreditamos. O erro é nos iludirmos ou enganarmos os nossos pacientes sobre essa diferença.

Estamos chegando ao ponto em que precisamos recuperar a medicina e renovar os nossos votos com o cuidado baseado em evidências, sempre que possível. Ao invés de complacentemente aceitar intervenções determinadas por marketing sobrepostas a tratamentos embasados em dados, devemos defender nossas práticas clínicas dos ataques de parcialidade e exagero de todas as fontes, ou o atendimento médico será reduzido a um concurso de popularidade entre o que é mais fácil vender para os pacientes crédulos.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....