COMENTÁRIO

Assédio no meio médico: vamos discutir?

Dr. Sivan Mauer

Notificação

13 de março de 2018

O assédio moral e suas vertentes estão presentes onde existe poder. O assédio existe quando pelo menos um destes seguintes elementos está presente: desestabilização, ameaças pessoais, ameaça ao status profissional, forçar a pessoa a ter uma jornada de trabalho excessiva, e isolamento.[1] Nos últimos meses tem se discutido muito o assédio moral e sexual na sociedade e agora, veio a público que um candidato a residência no Hospital do Servidor Público do Rio de Janeiro foi pressionado por WhatsApp por um superior a não aceitar a vaga, a fim de beneficiar o filho do médico mais velho. Não seria hora de discutir este problema também entre os médicos?

A Medicina deveria ser pautada por referências humanísticas que são reverberadas desde os tempos de Hipócrates, mas talvez não tão bem compreendidas por muitos médicos. Estas questões não se referem apenas à relação entre o médico e o paciente, mas também entre os médicos e a sociedade como um todo. A medicina é a profissão que trata do sofrimento, e muitas vezes os médicos têm nas mãos o grande poder de, no fim de tudo, salvar vidas. Como conseguir dar ao médico o equilíbrio mental necessário para lidar com tanta responsabilidade e poder? Médicos são humanos, pessoas inseridas na sociedade. Esta mesma sociedade que gera, para muitos, ambições de vários tipos, de financeira à ânsia por reconhecimento social e poder. É imprescindível que se entenda que a medicina é uma profissão diferente, onde parâmetros éticos rígidos estão ou deveriam estar impostos.

Aparentemente, nos dias de hoje muito disto foi deixado de lado. Não é mera coincidência que os cursos de medicina são sempre os mais concorridos, ainda mais em um país com tão pouca mobilidade social como o Brasil. Ainda assim, a grande maioria das vagas nestes cursos é ocupada por pessoas de classe alta, principalmente em universidades públicas. E o que dizer das universidades particulares, onde as mensalidades são inacessíveis para a grande maioria da população? A primeira experiência que muitos alunos de medicina têm com assédio acontece no "trote" quando estudantes e futuros colegas normalmente humilham os calouros, algumas vezes chegando às últimas consequências, como em 1999, quando um estudante morreu em um deste "trotes", na faculdade mais prestigiada do país.

Sabemos que este é um problema de diversos cursos nas universidades, porém há muitos relatos de extrema violência e abuso nos "rituais de iniciação" entre os estudantes de medicina, sendo que poucos são devidamente punidos. Seria neste momento em que nossa relação mais humana começa a se perder e passamos a fazer parte de um sistema, como diria Hannah Arendt, no clássico Eichmann em Jerusalém, quando criou a expressão banalidade do mal? Será que somos meras engrenagens de uma máquina, e perdemos o poder do questionamento, principalmente com relação à autoridade?

Uma recente revisão da literatura demonstrou, após analisar 62 artigos, que a forma mais comum de maus-tratos entre os residentes era o abuso verbal, vindo de médicos com posições hierárquicas superiores.[2] Artigos mostram que comportamentos rudes e abusivos podem realmente causar danos à segurança dos pacientes.[2,3]

Algumas possíveis soluções podem ser colocadas em prática, como educar residentes e supervisores sobre as questões do assédio, tanto com colegas quanto com pacientes. É de extrema importância incentivar residentes e outros médicos a denunciarem comportamentos abusivos e ampliar os canais de comunicação para os médicos nos conselhos Regionais e Federais, para que tenham condições de relatar queixas de abuso e maus-tratos.

Porém, estas são práticas paliativas. Não resolvem o problema na essência, a questão da humanização. Uma das soluções poderia ser a retomada das habilidades humanísticas e do conceito de empatia, que seria a capacidade de se colocar no lugar do outro[4]. Uma das formas de se desenvolver estas habilidades seria por meio das artes. Muitas escolas de Medicina dos EUA e da Europa já apresentam em seus currículos aulas de arte, como pintura e teatro, entre outras. Estas aulas ajudam futuros médicos a entender como se deve atuar como médico, a ampliar o entendimento sobre o outro, a se observar melhor e a se comunicar melhor.[5]

Muitas vezes ficamos diante de situações que nos fazem repensar se algumas atitudes individuais, e muitas vezes coletivas, do nosso dia a dia, são éticas. É por meio destes questionamentos que somos impulsionados a refletir e a discutir que tipo de sociedade médica queremos.

Compartilhe suas experiências de assédio e suas ideias para melhorar este problema entre os médicos nos comentários. 

 

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