Rastreamento do câncer de ovário: prejuízos superam benefícios

Liam Davenport

Notificação

28 de fevereiro de 2018

As mulheres não devem fazer rastreamento do câncer de ovário se não tiverem sinais ou sintomas da doença, já que isto não só não melhora a sobrevida, mas pode expô-las desnecessariamente a complicações cirúrgicas. Esta é a orientação final da US Preventive Services Task Force (USPSTF), publicada on-line em 13 de fevereiro no periódico JAMA.

Em uma recomendação grau D contra o uso do rastreamento de tumores ovarianos, a USPSTF afirma que os testes atuais não identificam com precisão se uma mulher tem ou não câncer de ovário.

Um resultado falso-positivo pode levar a mulher a fazer ooforectomia unilateral ou bilateral, sem que tenha a doença.

A recomendação não se aplica a mulheres com alto risco de câncer de ovário, como as portadoras de mutações nos genes BRCA.

Esta declaração final sobre o rastreamento do câncer de ovário confirma a versão preliminar das diretrizes emitidas em julho de 2017, conforme publicado anteriormente pelo Medscape. A recomendação contra a triagem de rotina também reforça as recomendações das diretrizes anteriores publicadas em 2012 e 2004, que constataram que os potenciais prejuízos do rastreamento do câncer do ovário eram superiores aos potenciais benefícios.

As "evidências mostram que os métodos de rastreamento atuais não impedem as mulheres de morrer de câncer de ovário, e que o rastreamento pode levar a cirurgias desnecessárias em mulheres sem câncer", comentou em uma declaração o Dr. Michael J. Barry, membro da USPSTF e médico do Massachusetts General Hospital, em Boston.

A coautora, Dra. Chien-Wen Tseng, MPH, médica da Cátedra Hawaii Medical Service Association em Health Services and Quality Research, que também faz parte da força-tarefa, conclamou a realização de mais pesquisas para encontrar melhores métodos de rastreamento para "ajudar a reduzir o número de mulheres que morrem de câncer de ovário".

"O câncer de ovário é uma doença devastadora, e não temos uma boa maneira de identificar as mulheres com a doença cedo o bastante para tratá-la de forma eficaz", acrescentou.

A Dra. Stephanie V. Blank, professora de oncologia ginecológica na Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York, que não participou da redação das recomendações, concordou que não existem exames eficazes para identificar a doença.

"Na população geral, o câncer de ovário é uma doença relativamente rara, e a especificidade dos nossos exames atuais não é aceitável", disse a Dra. Stephanie em um comunicado. "Resultados falso-positivos no rastreamento do câncer do ovário podem incitar cirurgias sem indicação formal".

No entanto, em um editorial relacionado no periódico JAMA Internal Medicine, o Dr. Steven A. Narod, médico do Women's College Research Institute do Women's College Hospital, em Toronto (Canadá), argumenta que "não devemos abandonar inteiramente o rastreamento do câncer do ovário".

Ele indica uma pesquisa recente mostrando que a maioria dos tumores serosos de ovário de alto grau se originam na tuba uterina, e que a tentativa de identificar o câncer nos estágios I e II se baseia na falsa premissa de que o estágio do câncer é o principal indicador de sobrevida.

O Dr. Narod conclui: "O rastreamento do câncer de ovário não está pronto para o horário nobre, mas há razões pelas quais devemos continuar essa busca".

Em um editorial no periódico JAMA, a Dra. Karen H. Lu, médica do Departamento de Oncologia Ginecológica no MD Anderson Cancer Center, da University of Texas, em Houston, reitera o apelo a estratégias de triagem mais eficazes, mas também pede a criação de programas de prevenção complementares.

Dra. Karen escreve: "Ampliar a estratégia para a inclusão de modelos precisos de risco e exames genéticos, novas opções de prevenção e detecção precoce eficaz pode ajudar a reduzir a incidência e a alta mortalidade associada ao câncer de ovário".

Em um editorial no JAMA Oncology, o Dr. Charles W. Drescher, e Garnet L. Anderson, da Divisão de Ciências da Saúde Pública do Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle, Washington, escreveu que o aprimoramento incremental do desempenho do rastreamento pode resultar em benefícios significativos ainda não vistos nos dados dos ensaios clínicos.

"Melhores ferramentas de previsão de risco podem levar a um rastreamento mais direcionado e a maior probabilidade de obter benefício global, mesmo com as modalidades de rastreamento atuais", escrevem os editorialistas.

"Outros biomarcadores, particularmente aqueles que não dependem da carga tumoral, podem prover melhor desempenho ao rastreamento e, potencialmente, em uma fase precoce e mais tratável".

"Novas técnicas de exames de imagem, que possam detectar com fidedignidade tumores com apenas alguns milímetros de tamanho nas tubas uterinas, também provavelmente contribuiriam", acrescentam.

Recomendações baseadas na revisão sistemática

Para atualizar a versão de 2012 das recomendações da UPSTF sobre o rastreamento do câncer do ovário, a força-tarefa fez uma revisão sistemática das evidências disponíveis, pesquisando nos bancos de dados de MEDLINE, PubMed e Cochrane Collaborative Collaboration Registry of Controlled Trials os estudos feitos entre 2003 e 2017.

Eles incluíram quatro estudos na análise. Três dos ensaios clínicos, com um total de 293.038 mulheres, analisaram a mortalidade por câncer do ovário. O estudo remanescente, com 549 mulheres, examinou os resultados psicológicos.

Apesar da inclusão de várias modalidades de triagem, como o ultrassom transvaginal com ou sem a dosagem do antígeno CA-125, nenhum ensaio clínico determinou que o rastreamento foi associado a uma diferença significativa na mortalidade por câncer de ovário.

No entanto, em dois dos ensaios, de 1% a 3% das mulheres cujos resultados de rastreamento indicaram a cirurgia por suspeita de câncer do ovário não tinham a doença. Ocorreram complicações importantes em 3% a 15% dos procedimentos.

Houve pequena associação entre o rastreamento e os resultados psicológicos, embora em um dos ensaios, a repetição dos exames de acompanhamento aparentemente aumentou o risco de morbidade psicológica.

A US Preventive Services Task Force (USPSTF) é um órgão independente, voluntário. O Congresso dos Estados Unidos exige que a Agency for Healthcare Research and Quality dê suporte às operações da USPSTF. Os autores e editorialistas declararam não possuirconflitos de interesses relevantes.

JAMA. Publicado on-line em 13 de fevereiro de 2018. Artigo

JAMA Intern Med. Publicado on-line em 13 de fevereiro de 2018. Editorial

JAMA Oncol. Publicado on-line em 13 de fevereiro de 2018. Editorial

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