Doença gengival grave aumenta risco de câncer e de mortalidade

Liam Davenport

Notificação

12 de fevereiro de 2018

Doença gengival grave pode aumentar não apenas o risco de câncer, incluindo de pulmão e colorretal, mas também aumenta a probabilidade de morrer da doença, principalmente câncer de pâncreas, sugerem resultados de dois estudos de larga escala dos Estados Unidos e da Finlândia.

O estudo americano, liderado por Dominique Michaud, professora de saúde pública e medicina comunitária na Tufts University School of Medicine, em Boston, Massachussetts, incluiu quase 7.500 indivíduos que haviam sido submetidos a exame dentário. Destes, 1.600 desenvolveram câncer.

Os achados, que foram publicados on-line no periódico Journal of the National Cancer Institute em 12 de janeiro, mostram que periodontite grave foi associada a 24% de aumento no risco de câncer, com os maiores riscos sendo para câncer de pulmão e câncer colorretal.

"Este é o maior estudo analisando a associação de doença gengival e o risco de câncer usando exame dentário para medir a doença gengival antes de um diagnóstico de câncer," disse Dominique em entrevista.

"Ainda são necessárias pesquisas adicionais para avaliar se a prevenção e o tratamento da doença periodontal pode ajudar a aliviar a incidência de câncer e diminuir o número de mortes devidas a certos tipos de câncer," ela acrescenta.

Ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade de examinar melhor, por exemplo, as disparidades raciais identificadas no estudo, a equipe acredita que os achados salientam o quanto é essencial expandir o acesso a seguros de saúde com cobertura para serviços dentários.

Coautora do estudo, Elizabeth Platz, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health e do Johns Hopkins Kimmel Cancer Center, em Baltimore, nos Estados Unidos, disse que "o maior conhecimento sobre os riscos que acompanham a doença periodontal pode estimular a aquisição do seguro de saúde dentário da mesma forma que devemos oferecer seguro de saúde para todos."

No segundo estudo, Timo Sorsa (Universidade de Helsinki e Helsinki University Central Hospital, na Finlândia) e colegas examinaram dados de registro médico de mais de 68.000 adultos que haviam comparecido à primeira consulta dentária.

O trabalho revelou que periodontite estava associada a um aumento de 33% no risco de mortalidade por câncer. O risco de mortalidade associado a doença gengival entre indivíduos com câncer de pâncreas foi bem maior, com mais do dobro de aumento no risco.

O estudo foi publicado no periódico Internacional Journal of Cancer em 11 de janeiro.

Sorsa e colegas ainda se referem a outro estudo conduzido por eles, recentemente publicado no British Journal of Cancer, que mostrou que um fator de virulência associado a uma bactéria vista em periodontite também leva a tumores gastrointestinais.

"Estes estudos mostraram pela primeira vez que fatores de virulência das principais bactérias patogênicas encontradas na doença gengival são capazes de se disseminar da boca para outras partes do corpo, provavelmente em conjunto com as bactérias, e tomar parte em mecanismos de destruição tecidual relacionados ao câncer", disse Sorsa em entrevista.

Consequentemente, a prevenção e o diagnóstico precoce da periodontite pode ser importante não só para a saúde bucal, mas para o bem-estar geral.

"No longo prazo este achado pode ser extremamente rentável para a sociedade", disse Sorsa.

Maior estudo baseado em exames dentários

Até hoje, a maioria dos estudos analisando a associação entre periodontite e risco de câncer dependeu exclusivamente de relatos de pacientes. Em contrapartida, o estudo conduzido por Dominique e colegas incluiu exame dentário.

A equipe utilizou dados do estudo de coorte Atherosclerosis Risk in Communities (risco de aterosclerose na comunidade), uma análise prospectiva de 15.792 indivíduos entre 44 e 66 anos de idade, recrutados em quatro regiões dos Estados Unidos entre 1987 e 1989.

Todos os participantes foram submetidos a um exame inicial, seguido de três consultas de acompanhamento em um período de 10 anos. Na quarta consulta, os participantes restantes foram convidados a submeterem-se a um exame clínico que avaliou profundidade e retração gengival em seis locais.

Conectando-se a registros de câncer estaduais, suplementados por prontuários médicos e códigos de alta hospitalar, a equipe analisou a incidência de câncer entre 1987 e 2012, enquanto as mortes por câncer foram obtidas por meio de certidões de óbito.

Excluindo participantes com história prévia de câncer, a equipe incluiu na análise 6.056 indivíduos que haviam sido submetidos a exame dentário e 1.410 que não tinham dentes (ou seja, que eram edêntulos).

Dependendo da definição usada, de 2.420 a 2.543 indivíduos não apresentavam periodontite, ou tinham uma forma leve da doença, enquanto de 2.104 a 2.514 apresentavam periodontite moderada, e de 1.122 a 1.409 apresentavam a forma grave da doença.

Periodontite grave, independente da definição de gravidade utilizada, foi associada a maior idade, sexo masculino, raça negra, menor nível de educação, obesidade e tabagismo.

Em um período de acompanhamento médio de 14,7 anos, foram observados 1.648 tumores incidentais e 547 mortes por câncer na população do estudo.

Comparados a indivíduos sem a doença ou com a forma leve dela, aqueles que apresentavam periodontite grave (definida como >30% de locais com perda de inserção >3mm) tiveram um aumento significativo no risco de câncer total, com uma hazard ratio (HR) de 1,24 (P=0,004).

Uma associação semelhante foi observada entre edentulismo e risco total de câncer; a hazard ratio comparada com ausência de periodontite ou periodontite leve foi de 1,28.

A associação entre periodontite grave e risco de câncer foi particularmente forte para câncer de pulmão, com uma hazard ratio de 2,33 (P<0,001) vs. ausência de periodontite ou periodontite leve, mesmo levando em consideração tabagismo, inclusive a quantidade cumulativa de cigarros.

Entretanto, a associação estava presente apenas em indivíduos caucasianos e foi mais forte em homens do que em mulheres.

Quando a equipe analisou câncer colorretal, observou que edentulismo estava associado a um aumento de risco significativo de 80%, enquanto periodontite grave estava associada a um aumento de risco de 50%. Entre aqueles que nunca fumaram, o risco de câncer colorretal foi mais que o dobro, e estava presente tanto em caucasianos quanto em indivíduos da raça negra.

Foi observado também um risco significativamente aumentado de câncer de pâncreas entre participantes com periodontite grave. Não foi notada associação com tumores de mama, próstata ou tumores hematopoiéticos ou do sistema linfático.

Associação com câncer de pâncreas

No estudo finlandês, Sorsa e colegas utilizaram o registro de pacientes do Helsinki Public Dental Services para identificar indivíduos de 29 anos de idade ou mais que tenham tido ao menos uma consulta de saúde dentária primária em 2001 ou 2002.

Estes foram então relacionados ao registro de mortes da Statistics Finland, que forneceu informações tanto da data quanto da causa da morte. Além disso, foram obtidos dados socioeconômicos e de nível de educação, compiladas prescrições de medicamentos, assim como dados do diagnóstico de câncer do Finnish Cancer Registry.

Os pesquisadores incluíram 68.273 pacientes, levando a 664.020 pessoas-anos com um acompanhamento médio de 10,1 anos. A idade média inicial foi de 43 anos, e 58% dos pacientes eram do sexo feminino.

O procedimento dentário mais comum foi tratamento endodôntico, em 70,3% dos pacientes, seguido de tratamento para gengivite em 40,6% dos pacientes, e tratamento de periodontite em 20,5%.

Durante o acompanhamento, houveram 797 mortes por câncer, das quais 199 (25%) foram em pacientes com periodontite, levando a um taxa bruta de mortalidade por câncer de 14,45 por 10.000 pessoas-anos.

Em comparação, a taxa bruta de mortalidade por câncer em indivíduos sem periodontite foi de 11,36 por 10.000 pessoas-anos.

O diagnóstico mais comum  nos pacientes que morreram de câncer foi câncer de pulmão, com uma taxa bruta de mortalidade de 2,42 por 10.000 pessoas-anos, seguido de câncer de mama (1,89 por 10.000 pessoas-anos), câncer de pâncreas (1,13 por 10.000 pessoas-anos) e câncer de próstata (0,95 por 10.000 pessoas-anos).

Uma análise mais detalhada mostrou que, após ajuste para fatores de confusão, periodontite estava associada com aumento significativo de risco, tanto para mortalidade geral por câncer quanto para mortalidade por câncer de pâncreas, com taxas de mortalidade de 1,33 e 2,32, respectivamente.

O estudo de Dominique e colegas foi patrocinado pelo National Cancer Institute dos National Institutes of Health. O estudo Atherosclerosis Risk in Communities foi patrocinado pelo National Heart, Lung and Blood Institute dos National Institutes of Health. O estudo de Sorsa e colegas foi patrocinado pela Finnish Women Dental Society e pela Helsinki University Tulevaisuusrasto, pela Helsinki University Hospital Research Foundation, em Helsinki, Finlândia , e pelo Karolinska Institutet, em Estocolmo, Suécia. Os autores não relatam conflitos de interesses relevantes.

J Natl Cancer Inst. Publicado on-line em 12 de janeiro, 2018. Resumo

Int J Cancer. Publicado on-line em 11 de janeiro, 2018. Resumo

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