Surtos de sarampo na Europa evidenciam necessidade de manter brasileiros vacinadas contra a doença, alerta especialista

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

5 de fevereiro de 2018

No final de 2017 o Ministério da Saúde alertou que países europeus, entre eles, França, Itália, Alemanha, Bélgica, Bósnia, Geórgia, Cazaquistão, Romênia, Sérvia, Dinamarca e Ucrânia, estariam em risco de surtos de sarampo e/ou rubéola. Frente à ameaça, o governo brasileiro reforçou a importância da vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola).

Na verdade, afirma a Dra. Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), alguns países europeus estão em risco há décadas, pois não conseguiram eliminar essas doenças, tal como foi feito nas Américas. Esse cenário, no entanto, pode representar uma ameaça mesmo para nações que já conseguiram obter certificados de eliminação, pois surtos causados pela importação de vírus já ocorreram, inclusive no Brasil.

De acordo com o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2016, sarampo e rubéola são endêmicos em nove países: Bélgica, Bósnia e Herzegovina, França, Geórgia, Itália, Cazaquistão, Romênia, Sérvia e Ucrânia[1].

Baixa cobertura

A Dra. Isabella explicou, em entrevista ao Medscape, que a principal barreira à eliminação dessas doenças na Europa é a baixa cobertura vacinal. Dados da OMS apontam que em 2015 a taxa de cobertura da primeira dose da vacina contendo sarampo só foi maior que 90% em 61% dos Estados-membros que compõem essa organização. A cobertura global da vacina contendo rubéola foi de 48% em 2016[1].

Uma investigação conduzida em 67 países, totalizando 65.819 pessoas, revelou que o sentimento de insegurança frente à vacina é particularmente negativo na Europa: entre os 10 países com maior taxa de desconfiança, sete estão nesse continente, sendo que França e Bósnia Herzegovina lideram esse grupo com 41% e 36% dos respondentes relatando insegurança, respectivamente[2].

Existe um histórico cultural que sustenta o movimento antivacinismo na Europa. Segundo a presidente da SBIm, um dos pontos centrais desse fenômeno foi a publicação de um artigo no Lancet em 1998, assinado pelo cirurgião britânico Andrew Wakefield e 12 colaboradores, que relacionou a aplicação da vacina tríplice viral ao desenvolvimento de uma síndrome com sintomas intestinais, danos cerebrais, e autismo[3].

A publicação do Lancet que incluiu a descrição de 12 casos de crianças entre três e nove anos de idade foi retirada dos arquivos da revista em 2010 após investigação demonstrar que o vínculo entre a vacina e o autismo em crianças havia sido forjado[4,5,6].

"Sem dúvida, a publicação foi muito importante para essa descrença na vacina. Hoje, esse estudo foi retirado dos arquivos do Lancet porque foi demonstrado que era um artigo médico fraudulento. É muito fácil causar pânico na mídia, e é muito difícil décadas depois reverter a situação de desconfiança da população. O motivo que provocou a revisão desse artigo foi o problema de saúde pública mundial que vivemos em relação ao sarampo por conta da baixa adesão dos europeus à vacinação", diz a médica.

Vírus importados

O Brasil recebeu o certificado de eliminação da rubéola e da síndrome da rubéola congênita (SRC) da Organização Panamericana de Saúde (Opas) em 2015, e de sarampo em 2016. Mas um histórico de surtos causados por vírus importado exige atenção. Entre 2013 e 2015, ocorreram surtos de sarampo relacionados à importação do vírus, sendo que os estados de Pernambuco e Ceará reportaram o maior número de casos. No total, foram registrados 1.310 casos da doença no país, dos quais 1.278 foram confirmados nesses dois estados[7].

Vírus importados também causaram surtos de sarampo entre 2011 e 2015 em outros países, entre eles, Canadá, Equador e Estados Unidos (EUA)[1]. Em todas as regiões, inclusive no Brasil, a resposta foi a promoção de campanhas de vacinação em massa. Atualmente, segundo a Dra. Isabella, os EUA também vivem uma situação de descontrole, ou seja, ainda não eliminaram o sarampo. A situação, porém, não é tão grave como na Europa.

Os surtos associados a vírus importados são consequência do movimento de viajantes, seja um brasileiro que vai para Europa ou um europeu que venha ao país com o vírus, que entram em contato com pessoas não vacinadas. A principal medida para evitar possíveis surtos no país é manter a população imunizada.

"A vacina é muito segura, barata e efetiva na eliminação dos casos. Todo indivíduo deve ter duas doses da vacina, independente da idade. Se vacinou na infância, não precisa mais vacinar quando adulto, mas, se não vacinou, é importantíssimo que receba a vacina na vida adulta porque normalmente quem traz esse vírus para o país são os adultos", diz a Dra. Isabella.

Segundo a médica, não há outra maneira de prevenir surtos, além da vacinação.

"Não há como saber se os indivíduos estão entrando no país com ou sem o vírus. A incubação do sarampo é de 14 a 20 dias. Então, a única maneira de não deixar isso acontecer é a vacinação de todos", defende.

De acordo com a especialista, a vacinação em adultos representa um desafio no mundo inteiro.

"O adulto não entende a vacinação como rotina. Ele só procura imunização quando está com medo da doença ou quando acontece um surto, como estamos vendo agora com a febre amarela, e quando o médico prescreve. No entanto, os próprios médicos que atendem adultos não têm essa rotina de prescrição de vacinas", diz. Ela alerta que é preciso lembrar ao médico a importância dessa prescrição: "a literatura mostra que mais de 80% das pessoas que tomam vacina, o fazem porque o médico prescreveu. Sem prescrição e sem orientação muita gente não se vacina. Até porque, na maioria das vezes, nem sabe dessa necessidade. Então cabe a nós informar esse paciente e prescrever".

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