Mais evidências associam doença periodontal a risco de acidente vascular cerebral

Sue Hughes, equipe Medscape

Notificação

2 de fevereiro de 2018

Um novo estudo fortaleceu a associação entre doença periodontal e aumento do risco de acidente vascular cerebral (AVC) futuro, mostrando uma relação graduada com a extensão da doença e do risco de ACV e, além disso, que o cuidado odontológico regular estava associado a menor risco de AVC.

"Este esforço é um dos maiores estudos comunitários nos Estados Unidos de doença periodontal, utilização de cuidados odontológico e AVC isquêmico", disse ao Medscape o autor principal, Dr. Souvik Sen, University of South Carolina School of Medicine.

"Nossos resultados mostram que os indivíduos que frequentam regularmente o dentista tiveram metade do risco de AVC em relação àqueles que não recebem cuidados odontológicos regulares", disse ele.

"E nosso estudo de doença periodontal mostrou que quanto mais grave a doença, maior o risco de AVC futuro".

Em particular, a doença periodontal caracterizada por aumento da inflamação apresentou a associação mais forte com o risco de AVC.

"O risco conferido pela doença periodontal é semelhante ao da hipertensão arterial – está na faixa de risco duas a três vezes maior", acrescentou.

A relação entre doença periodontal e infarto do miocárdio já está bem estabelecida, e estudos anteriores mostraram associação entre a doença periodontal e AVC, disse ele.

"Nossos resultados atuais reforçam essa associação. Se for causal, essas associações seriam de grande importância devido ao potencial de que o tratamento da doença periodontal poderia reduzir o risco de AVC.

"Parece que uma boa higiene dental pode fazer mais do que apenas manter os dentes e gengivas saudáveis – também pode diminuir o risco de doença cardíaca e AVC", disse o Dr. Sen.

"Nossos resultados enfatizam a necessidade de um bom cuidado odontológico regular, incluindo uma rotina de limpeza completa com escovação e uso de fio dental em casa e, em seguida, consultas regulares a higienista e dentista".

O estudo foi publicado on-line no periódico Stroke em 15 de janeiro.

Os pesquisadores observam que a doença periodontal é uma doença inflamatória crônica causada pela colonização bacteriana que afeta os tecidos moles e rígidos que suportam os dentes. A prevalência da doença periodontal é alta, com a gengivite ou periodontite afetando até 90% da população em todo o mundo. Cerca de metade dos americanos com 30 anos ou mais tem periodontite, a forma mais avançada de doença periodontal.

Estudos observacionais mostraram que o mau estado de saúde periodontal está associado a um aumento do risco de AVC, mas os autores destacam que estudos individuais têm limitações, incluindo o uso de muitas definições diferentes de doença periodontal, consideração de potenciais fatores de confusão (como status socioeconômico) e baixo poder estatístico.

Para o estudo atual, os pesquisadores usaram novas definições de sete classes de perfis periodontais distintas que variaram de saúde (A) a doença periodontal grave (G), validadas em três grandes coortes, para examinar a relação entre doença periodontal e AVC. Eles também avaliaram subtipos de AVC específicos, e ajustaram os resultados para fatores de confusão. Uma análise separada avaliou a relação entre atendimento odontológico e risco de AVC.

Os pesquisadores analisaram dados de 10.362 indivíduos de meia-idade sem AVC anterior participando do estudo ARIC (sigla em inglês para Atherosclerosis Risk in Communities) das causas de aterosclerose e sequelas clínicas, recrutados na década de 1980 e submetidos a seguimento regular.

Os participantes foram questionados sobre o uso de cuidados odontológicos, que foram classificados como regulares (aqueles que procuraram atendimento odontológico de rotina mais de uma vez ao ano) ou episódicos (aqueles que iam ao dentista somente quando estavam com desconforto, quando precisavam de tratamento, ou nunca).

Durante o período de seguimento de 15 anos, 584 participantes tiveram AVC isquêmico incidente.

Os resultados mostraram que, em comparação com os usuários de atendimento odontológico episódico, os usuários com atendimento regular apresentaram menor risco de AVC isquêmico (hazard ratio, HR, bruta = 0,52; intervalo de confiança, IC, de 95%, 0,44 - 0,61). Após o ajuste para raça, idade, sexo, índice de massa corporal, hipertensão, diabetes, nível de lipoproteínas de baixa densidade, tabagismo e educação, o atendimento odontológico regular continuou associado a taxas mais baixas de AVC isquêmico (HR ajustada = 0,77; IC de 95%, 0,63 - 0,94).

Para a parte do estudo de doença periodontal (o estudo ARIC dental), 6736 indivíduos foram submetidos a um exame odontológico completo, questionário e coleta de amostras na quarta consulta clínica. Destes, 299 tiveram um AVC isquêmico incidente no período de seguimento.

Em comparação com o grupo saudável de referência sem doença periodontal (CPP-A), aqueles com doença periodontal apresentaram maior risco de AVC isquêmico incidente, que aumentou com a gravidade da doença periodontal.

Tabela. Risco de AVC por status de doença periodontal

Classe de perfil periodontal (CPP) Hazard ratio ajustada para AVC Taxa de incidência de AVC isquêmico por 1000 pessoas-anos
A (referência) 1 1,29
B (doença periodontal leve) 1,86 2,82
C (pontuação elevada no índice gengival) 2,06 4,80
D (perda dentária) 2,03 3,81
E (doença posterior) 2,22 3,50
F (perda dentária grave) 2,08 4,78
G (doença periodontal grave) 2,20 5,03
Resultados ajustados por raça, idade, sexo, índice de massa corporal, hipertensão, diabetes, nível de lipoproteína de baixa densidade, tabagismo e educação.

Os pesquisadores destacam que as características inflamatórias diferem entre as classes de doença periodontal, que são definidas pelo grau de fixação. A maior taxa de AVC foi observada entre aqueles com CPP-C (inflamação gengival) e CPP-G (doença grave), que são as classes mais inflamadas.

"Assim, a inflamação desempenha um papel crítico na definição do risco de eventos incidentes", afirmam.

Eles elaboram: "O que emergiu dessa pesquisa é que a alta inflamação gengival na ausência de doença periodontal grave (CPP-C), e a classe de periodontite grave altamente inflamada (CPP-G), estão sob maior risco do que aquelas com problemas leves, moderados ou padrões de doença posterior (todos têm menos tecidos periodontais inflamados). Esses dados enfatizam a importância da inflamação, em vez de apenas o nível de fixação como o principal determinante de risco".

Análises posteriores mostraram um risco significativamente aumentado de AVC cardioembólico (HR = 2,6) e AVC trombótico (HR = 2,2), mas não de acidentes vasculares lacunares, entre os participantes do estudo com doença periodontal.

"Acreditamos que o mecanismo tem relação com aterosclerose e/ou fibrilação atrial", disse o Dr. Sen. "Outros haviam mostrado uma associação entre doença periodontal e aterosclerose. Bactérias da gengiva foram encontradas em placas ateroscleróticas nas artérias carotídeas e coronárias".

Ele observou que um estudo está agora avaliando se o aumento do cuidado periodontal pode reduzir o risco de AVC. O ensaio PREMIER inclui pacientes com doença periodontal que já tiveram um acidente vascular cerebral ou ataque isquêmico transitório e, portanto, correm alto risco de terem outro. Esses pacientes estão sendo aleatoriamente designados ao tratamento periodontal padrão ou intensivo.

O estudo ARIC é financiado por doações do National Heart, Lung, and Blood Institute. O estudo ARIC dental foi financiado por uma doação do National Institute of Dental and Craniofacial Research. Três coautores (K. Moss, Dr. Beck e S. Offenbacher) estão buscando proteção de propriedade intelectual para o conceito de classe de perfil periodontal. Dr. Gottesman é um editor associado da American Academy of Neurology. Os outros autores não declararam conflitos de interesses relevantes.

Stroke. Publicado on-line em 15 de janeiro de 2018. Resumo

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