Perguntas frequentes sobre a vacina contra febre amarela

Ruth Helena Bellinghini

Notificação

1 de fevereiro de 2018

A aplicação de doses fracionadas da vacina contra febre amarela em 76 cidades do país já começou, mas a população ainda tem muitas dúvidas sobre a doença e sobre a vacina. O Medscape reuniu as principais dúvidas do público nas redes sociais para ajudar os profissionais de saúde a respondê-las.

1. Afinal, estamos vivendo um surto ou epidemia de febre amarela?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um surto é a ocorrência de casos de determinada doença acima da expectativa normal. O número de casos varia de acordo com o agente causador da doença, além do grau e do tipo de exposição prévia ao agente causador. Segundo os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, uma epidemia refere-se ao aumento, geralmente súbito, no número de casos de uma doença acima daquilo que se espera para a população de uma determinada área. A definição é muito parecida com a de surto, mas esta última diz respeito a uma área bem mais limitada. Tanto a OMS quanto os CDC usam surto para se referir ao atual quadro brasileiro de febre amarela.

2. Eu já tive febre amarela. Preciso me vacinar ou já estou imunizado?

Não. Quem teve febre amarela está imunizado pelo resto da vida.

3. Quem precisa tomar a vacina?

Em princípio, residentes de áreas de risco onde foram registrados casos de epizootias (morte de macacos) ou casos da doença, pessoas que vão viajar para essas áreas – especialmente agora que se aproxima o Carnaval – ou que vão fazer viagens internacionais. Neste último caso, é necessário tomar a dose integral em posto de saúde dos viajantes para obter o certificado internacional que, agora, vale para a vida toda. Mas são necessárias precauções, tanto quanto à idade da pessoa quanto para determinadas condições clínicas.

4. Quem não pode tomar a vacina?

Portadores de doença do timo (miastenia gravis, timoma), transplantados de órgãos sólidos, portadores de doença de Addison, indivíduos com história de reação anafilática relacionada a ovo de galinha e derivados, e indivíduos com imunossupressão por doença ou em tratamento atual com radioterapia, quimioterapia, uso de imunomoduladores ou de corticoides em doses de 2mg/dia para crianças e 20mg/dia para adultos, por mais de 14 dias. Além destes, pessoas que usem qualquer um dos seguintes medicamentos: infliximabe, etanerccepte, golimumabe, certolizumabe, abatacept, belimumabe, ustequinumabe, canaquinumabe, tolcilizumabe, ritoximabe, azatioprina, ciclofosfamida, ciclosporinas, sirolimus, tacrolimus, fludarabina e medicamento anti-célula B.

5. A vacina pode ter efeitos adversos?

Pode, sendo o mais comum dor no local da aplicação. A pessoa também pode ter febre, dor de cabeça e dor muscular por alguns dias. Eventos mais graves ocorrem em 0,42 casos a cada 100 mil doses aplicadas.[1] Podem ocorrer também reações alérgicas, com urticária generalizada, dispneia, broncoespasmo, edema de glote e anafilaxia. Além disso, doença neurológica aguda, com quadros de encefalite, meningite e síndrome de Guillan-Barré. Pode ocorrer também doença viscerotrópica aguda, uma manifestação rara, em que o paciente desenvolve quadro semelhante ao da febre amarela por disseminação do vírus atenuado da vacina. Segundo o site da Prefeitura do Município de São Paulo, isso ocorre a cada 0,05 de 100 mil vacinas aplicadas e, segundo estudos internacionais, pessoas com contraindicações têm maior probabilidade de apresentar reações adversas.

6. Como ficam as pessoas que fazem tratamento de câncer?

Todas as pessoas que fazem tratamento e usam medicação que deprime o sistema imunológico precisam fazer uma avaliação médica antes de tomar a vacina. Isso inclui portadores de HIV, pacientes que se submeteram a transplantes, pacientes que estão fazendo radio ou quimioterapia, e pacientes com reumatismo ou artrite reumatoide que tomam corticoides em doses imunossupressoras, entre outros. De acordo com a Dra. Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o médico deverá avaliar as condições do paciente e o risco que ele corre de contrair a doença, se vive ou frequenta área de risco. "Em alguns casos, o médico pode recomendar a interrupção da medicação para que a pessoa seja vacinada, e retome o tratamento posteriormente. Isso, claro, se o paciente viver em área de risco."

7. É verdade que idosos não podem tomar a vacina?

"Novamente, tudo vai depender de uma análise de risco/benefício. Acima dos 60 anos, a literatura médica mostra um maior risco de efeitos adversos da vacina, e esses efeitos são mais graves quanto maior a idade da pessoa. Então, acima dos 60 anos é necessária uma avaliação de saúde e de risco, que deve ser feita por médico," adverte a Dra. Isabella.

8. Crianças precisam ser vacinadas contra febre amarela? A partir de que idade?

De acordo com a Dra. Isabella, crianças a partir dos nove meses e até os dois anos de idade podem ser vacinadas, mas com a dose integral da vacina. "Isso porque simplesmente ainda não dispomos de estudos sobre os resultados da dose fracionada nessa faixa etária", explica. Acima dessa idade, elas podem tomar a vacina fracionada, mas muito provavelmente precisarão de uma dose de reforço mais tarde, por causa do desenvolvimento do sistema imune. Vale lembrar que crianças com menos de dois anos, que nunca foram vacinadas contra febre amarela, não devem tomar esta vacina simultaneamente com a tríplice ou tetra viral. Deve haver um intervalo de pelo menos 30 dias entre as duas.

9. E as mulheres grávidas?

A vacina é feita com vírus vivo atenuado, o que representa um risco teórico. "Teórico porque não há registro na literatura médica de danos causados a grávidas pela vacina. Mas por precaução, recomenda-se não tomar a vacina, a não ser nos casos de risco, em que a gestante viva em áreas com casos de febre amarela em seres humanos ou de epizootias (morte de macacos)", recomenda a Dra. Isabella.

10. Mulheres que estão amamentando podem tomar a vacina?

A recomendação do Ministério da Saúde é para que nutrizes e lactantes adiem a vacinação até que o bebê tenha seis meses.

11. Eu tomei a vacina em 2005, e na época me disseram que ela valia 10 anos. Eu preciso tomar de novo?

Não. O paciente tomou a dose integral que, segundo recentes resoluções da OMS, vale para a vida toda.

12. Eu tomei a vacina, mas perdi meu certificado. E agora?

Quem viajar para o exterior e não tem mais o certificado da vacinação deve ir pessoalmente ao posto em que se vacinou para pedir uma segunda via ou procurar o posto da Anvisa nos aeroportos, em um processo parecido com o de quem vai trocar o certificado internacional com validade de dez anos pelo definitivo. Caso isso não seja possível, a solução infelizmente é tomar a vacina novamente.

13. Como faz para trocar o certificado internacional com validade de 10 anos pelo definitivo?

É necessário agendar uma visita a um posto de vacinação dos viajantes no site da Anvisa.

14. O que fazer se eu não posso ou não consegui tomar a vacina?

O uso de repelente é recomendado para esses casos.

15. Como saber se a vacina antiga era dose integral ou fracionada?

Esta é a primeira vez que se usa a dose fracionada no Brasil. Portanto, quem tomou a vacina anteriormente, tomou a dose integral e está imunizado pelo resto da vida.

16. Por que estão dando vacina fracionada?

Segundo a Dra. Isabella, a questão no momento é o curto prazo e não uma produção insuficiente de vacinas. "Estamos perto do Carnaval e muita gente viaja nos feriados para sítios, fazendas, e cidades do interior que se tornaram áreas de risco nos últimos meses. Daí a necessidade de impedir tanto que essas pessoas adoeçam quanto que levem o vírus para as cidades de origem na volta. O caso da cidade de São Paulo ilustra bem esse quadro. O objetivo da vacinação é bloquear a entrada do vírus. Vale lembrar que não há registro de caso autóctone da doença na cidade."

17. Como a vacina é fracionada?

A dose integral, de 0,5ml, é porcionada por seringas especiais em 0,1 ml.

18. A dose fracionada é eficaz? Temos estudos para fundamentar o uso? Como fica o risco de complicações nesse caso?

Estudos em andamento acompanham as populações do Congo e de Angola, que receberam a dose fracionada nas recentes epidemias daqueles países, quase dois anos atrás. Essas pessoas estão sendo acompanhadas pela OMS e pelos CDC e, passados quase dois anos, mantêm resposta imune equivalente à das que receberam dose integral. No Brasil existe um estudo ainda inédito da BioManguinhos que acompanha há oito anos militares brasileiros que receberam a dose fracionada. O que não se sabe ao certo é quanto tempo dura essa resposta, se por oito, 10, 20 anos ou talvez pela vida toda. O risco de complicações, ao que se sabe, é o mesmo da dose integral.[2]

19. Quem tomar a dose fracionada vai precisar se vacinar de novo?

Ainda não é possível saber. É preciso prolongar os estudos com as populações que começaram a receber doses fracionadas no Congo e Angola, quase dois anos atrás, e agora com a população brasileira que receber a dose fracionada.

20. Há diferença entre a vacina fornecida pelo SUS e a das clínicas particulares?

As duas vacinas são do tipo 17D.[3] A BioMaguinhos é atualmente a maior fabricante de vacina contra febre amarela do mundo, produzindo para a rede pública e para alguns países da América Latina e da África. A Sanofi-Pasteur produz as doses ofertadas aqui pelas clínicas particulares, onde os estoques estão praticamente esgotados. De acordo com um comunicado da empresa à imprensa, um novo lote deve estar disponível para comercialização dentro de um mês.

21. Quais os sintomas da febre amarela?

De acordo com a OMS[4], o período de incubação do vírus vai de três a seis dias, quando tem início a infecção, que pode ter uma ou duas fases. A primeira fase geralmente se caracteriza por febre, dor muscular (especialmente nas costas), dor de cabeça, calafrios, perda de apetite, náusea ou vômito. A maioria dos pacientes melhora e os sintomas desaparecem em três ou quatro dias. No entanto, cerca de 15% dos pacientes apresentam uma segunda fase mais grave 24 horas depois da remissão da primeira. Volta a febre alta, o paciente apresenta icterícia e dor abdominal com vômitos. Podem ocorrer também sangramentos pela boca, pelo nariz, ou no estômago, com sangue nas fezes e no vômito, e degeneração da função renal. Metade dos pacientes graves morre num período de 10 a 14 dias.  

22. Como é o diagnóstico diferencial entre a febre amarela e outras arboviroses?

A febre amarela é difícil de diagnosticar, especialmente nos estágios iniciais, segundo a OMS. Ela pode ser confundida com casos gravse de malária, dengue hemorrágica, leptospirose, hepatites virais (notadamente as formas fulminantes de hepatite B e D), com outras febres hemorrágicas, assim como com infecções causadas por outros flavivírus, como o da febre do Oeste do Nilo e da zika. O diagnóstico é feito por sorologia igM e IgG, PCR, isolamento viral, estudo de genotipagem, imunofluorescência e imunohistoquímica.[5]

23. Qual o tratamento para febre amarela?

Não existe um tratamento específico, apenas suporte para combater a desidratação, a falência respiratória e renal, e a febre. O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo vem realizando transplantes de fígado em pacientes com quadro de falência hepática.

24. Qual o risco de a febre amarela silvestre se tornar urbana?

Segundo especialistas, o risco é pequeno, mas não inexistente.[6]

 

Atualização 06/02/2018: A matéria foi atualizada para refletir o volume correto da vacina e da fração, que é de 0,5ml e 0,1ml respectivamente, e não 5ml e 1ml.

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