Aleitamento materno pode reduzir pela metade risco de diabetes entre mulheres em idade fértil

Troy Brown

Notificação

25 de janeiro de 2018

As mulheres que amamentaram durante pelo menos seis meses todos os filhos reduziram quase pela metade o risco de diabetes tipo 2 na idade fértil em comparação com mulheres que não amamentaram, descobriu um estudo feito ao longo de 30 anos.

"Encontramos uma forte associação entre a duração do aleitamento materno e o menor risco de diabetes, mesmo depois de considerar todos os possíveis fatores de risco de confusão", disse em um comunicado à imprensa a primeira autora do estudo, a epidemiologista Erica P. Gunderson, PhD, cientista-sênior de pesquisa da Kaiser Permanente Division of Research , emOakland, na Califórnia.

"A incidência do diabetes diminuiu proporcionalmente ao aumento da duração do aleitamento materno, independentemente de raça, diabetes gestacional, estilo de vida, tamanho do corpo, e de outros fatores de risco metabólico avaliados antes da gestação, o que implica a possibilidade de o mecanismo subjacente poder ser biológico", explicou a autora.

Erica e colaboradores publicaram suas descobertas on-line em 16 de janeiro no periódico JAMA Internal Medicine.

Os pesquisadores analisaram dados de 30 anos do estudo Coronary Artery Disease Risk Development in Young Adults (CARDIA), um estudo com mulheres negras e brancas tratadas em um de quatro centros geograficamente distintos nos Estados Unidos. A análise foi feita com 1.238 mulheres (N = 615 negras e 623 brancas) sem diabetes antes da gestação, que tiveram pelo menos um bebê nascido vivo (N = 2.302), depois do início do estudo.

Durante um acompanhamento médio de 24,7 anos, as participantes fizeram exames regulares incluindo "várias avaliações da tolerância à glicose e de outros fatores de risco" até sete vezes durante o estudo, dizem os autores. No total, 155 (12,5%) tiveram diabetes gestacional; este grupo foi analisado separadamente para a ocorrência subsequente de diabetes tipo 2.

Entre as mulheres que não tiveram diabetes gestacional, o risco relativo ajustado de incidência de diabetes foi de 0,75 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,51 a 1,09) entre as mulheres que amamentaram de zero a seis meses; 0,52 (IC de 95%, de 0,31 a 0,87) entre aquelas que amamentaram por mais de seis meses a menos de um ano; e 0,53 (IC de 95%, de 0,29 a 0,98) para as que amamentam durante 12 meses ou mais, em comparação às mulheres que não amamentaram (P da tendência = 0,01).

"Para o total da amostra de 1.238 mulheres, os modelos com meses contínuos de lactação geraram riscos relativos sistematicamente mais baixos da incidência do diabetes em modelos não ajustados, ajustados estratificados por raça, e nos modelos combinados", escreveram os pesquisadores.

Durante 27.598 pessoa-anos, a incidência global da diabetes foi de 6,6 casos por 1.000 pessoa-ano, com 132 casos em 13.369 pessoa-anos entre as mulheres negras, e 50 casos em 14.229 pessoa-anos entre as brancas. A incidência da diabetes por 1.000 pessoa-anos foi significativamente maior entre as mulheres negras em comparação às mulheres brancas (9,9% vs. 3,5; P < 0,001).

As mulheres com diabetes gestacional também tiveram maior incidência de diabetes por 1.000 pessoa-anos em comparação às mulheres que não tiveram diabetes gestacional (18,0 vs. 5,1; P < 0,001).

A maior parte (93%) dos nascimentos após o início do estudo ocorreu em 15 anos, e 86% dos novos casos de diabetes foram diagnosticados entre 15 e 30 anos após o início do estudo.

"Há muito tempo já sabíamos que o aleitamento materno tem muitos benefícios, tanto para as mães quanto para os bebês, no entanto, evidências anteriores mostraram efeitos apenas fracos sobre a doença crônica nas mulheres", disse a Dra. Tracy Flanagan, diretora da Saúde da Mulher na Kaiser Permanente Northern California, em nota para a imprensa.

"Agora vemos uma proteção muito mais forte a partir deste novo estudo mostrando que as mães que amamentam por seis meses após o parto podem reduzir o risco de diabetes tipo 2 até pela metade à medida que envelhecem. Esta é mais uma razão pela qual os médicos, enfermeiros e hospitais, bem como os gestores que elaboram as políticas de saúde, devem apoiar as mulheres e suas famílias a amamentar durante o máximo de tempo possível".

Os pesquisadores dizem que vários mecanismos poderiam explicar as descobertas, como os efeitos dos hormônios relacionados com a lactação sobre as células pancreáticas, que poderia resultar na redução da glicose circulante e na diminuição da secreção de insulina, mesmo a produção de glicose aumentando durante a lactação.

"Estes processos de produção do leite foram associados a menor atividade basal e secretora das células β estimuladas pela glicose para dada carga de glicose, e os efeitos benéficos que deixam de sobrecarregar as células β pancreáticas. Maiores níveis iniciais e aumentos esporádicos da prolactina nas nutrizes podem preservar a massa e a função das células β pancreáticas", explicam os pesquisadores.

As limitações do estudo são a variação do momento das avaliações de saúde relacionadas com a gestação, e o fato de as mulheres terem elas mesmas informado as complicações gestacionais. Os pesquisadores observam que as informações precisas sobre o diabetes gestacional e outros desfechos perinatais constituem um ponto forte do estudo.

"Contrariamente aos estudos anteriores sobre aleitamento materno, que dependiam de das informações das próprias pacientes sobre o início do diabetes e começaram a acompanhar as mulheres mais velhas mais tarde na vida, pudemos acompanhar as mulheres especificamente durante o período fértil, e fazer um rastreamento regular do diabetes antes e depois da gestação", disse Erica no comunicado à imprensa.

"A lactação é um processo biológico natural, com o enorme potencial de proporcionar benefícios em longo prazo para a saúde materna, mas tem sido subestimada como potencial estratégia importante de prevenção primária precoce de doenças metabólicas para as mulheres em idade fértil e além desse período", concluem os pesquisadores.

Erica P. Gunderson informa ter recebido financiamento da Janssen Pharmaceuticals e Dr. Quesenberry informa ter recebido financiamento para pesquisa das empresas Takeda, Merck & Company Inc, Sanofi-Aventis, Eli Lilly, Genentech, Valeant e Pfizer. Os demais autores do estudo informaram não ter relações financeiras relevantes.

JAMA Int Med. Publicado on-line 16 de janeiro de 2018. Artigo

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....