Governo decide fracionar vacina de febre amarela em 76 municípios de três Estados

Ruth Helena Bellinghini 

Notificação

12 de janeiro de 2018

Depois de meses de discussão, o Ministério da Saúde brasileiro decidiu fracionar a vacina de febre amarela para atender a população de 76 cidades de três Estados – São Paulo, Rio e Bahia --, numa estratégia recomendada pela Organização Mundial de Saúde apenas em casos de emergência e no curto prazo.

Até agora, o fracionamento tinha sido usado apenas duas vezes, em 2013 no Congo e em 2016 em Angola, com a advertência de que a cobertura é segura por pouco mais de um ano, após o qual essas populações deveriam receber a dose completa[1]. O governo brasileiro, porém, baseado num estudo ainda não publicado[2] do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos da Fundação Oswaldo Cruz, espera que a vacinação fracionada garanta cobertura imunológica por pelo menos oito anos. O governo, no entanto, manterá a vacinação em dose completa para viajantes.

A estratégia emergencial do fracionamento, em que a dose de 0,5 ml é dividida em cinco e aplicada em quatro pessoas, restando 0,1 ml por segurança, foi endossada pela OMS em 2016 após a publicação do estudo 17DD yellow fever vaccine: A double blind, randomized clinical trial of immunogenicity and safety on a dose-response study[1], produzido pela mesma equipe de Bio-Manguinhos, em 2013.

Nesse estudo, 900 voluntários jovens e saudáveis, militares, foram divididos em seis grupos que receberam doses progressivamente menores da vacina em 2008. Dez meses após a vacinação, eles foram reavaliados, apresentando resposta imune equivalente à da dosagem integral.

"O que fizemos agora, passados oito anos da vacinação, foi buscar esses 900 voluntários e verificar se a resposta imune se mantinha," explica Akira Homma, assessor científico sênior de Bio-Manguinhos e um dos autores dos dois estudos. "Encontramos 374 indivíduos do estudo inicial, descartamos aqueles que viajaram para áreas endêmicas da doença, que tomaram a dose inicial porque viajaram para o exterior, e verificamos que a resposta se manteve após oito anos." O especialista afirma que ainda não pode dar mais detalhes sobre o novo estudo porque ele aguarda publicação nas próximas semanas e é preciso preservar o ineditismo da pesquisa.

A tática encontra respaldo entre especialistas. "É importante destacar que o país não vai adotar a vacinação fracionada como rotina", ressalta a pediatra Dra. Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), que vem acompanhando os debates sobre fracionamento da vacina de febre amarela.

"Para nós, estava claro que os casos iam diminuir, mas não iam acabar, embora o Ministério da Saúde tenha anunciado o fim do surto meses atrás," explica a especialista. "Mas precisamos vacinar uma população urbana de quase 20 milhões de pessoas no curtíssimo prazo, porque são regiões de grande presença do Aedes aegypti, e essas regiões são áreas de risco para a volta da febre amarela urbana, da qual estamos livres desde 1942. Este é surto mais importante que tivemos desde os anos 40 e as medidas emergenciais se fazem necessárias", afirma, lembrando que o verão é época de chuvas intensas com proliferação do Aedes. O Carnaval também está próximo, uma época em que muita gente viaja, especialmente para o interior do Brasil.

Nos casos de uso da vacina fracionada, a OMS preconiza um acompanhamento mais rigoroso dessas populações, tanto em termos de avaliação de efeitos colaterais como de resposta imunológica[3]. Por isso, as pessoas que receberem a dose fracionada serão registradas em um banco de dados.

Além disso, os indívíduos vacinados com a dose fracionada terão etiquetas especiais coladas nas caderneta de vacinas. Com isso, será possível acompanhar e monitorar essa população e obter dados sobre o uso da nova estratégia.

Imagem: cortesia Ministério da Saúde

"Na prática, isso corresponde a um teste clínico fase 4, para o qual não há necessidade de assinatura de termo de consentimento, já que a vacina está em uso, com segurança, há 80 anos," explica a Dra. Ballalai.

De acordo com ela, os dados coletados com essa estratégia são importantíssimos, já que há anos o planeta convive com a falta crônica de vacinas contra a febre amarela. Segundo a OMS, essas vacinas são produzidas em pequena escala nos EUA, com vistas à vacinação de viajantes e militares, deixaram de ser produzidas na Rússia e são fabricadas apenas pela Sanofi-Pasteur e por Bio-Manguinhos, que é o maior produtor do mundo. "A amostragem desse novo estudo não é fantástica, mas não é desprezível," diz a especialista, destacando que como maior produtor mundial da vacina, o Brasil tem grande responsabilidade nessa discussão.

De acordo com a Dra. Ballalai, só recentemente a questão da resposta imune produzida pela dose integral passou a ser debatida pelos grupos técnicos e, na base dessa discussão, está a forte suspeita de que a quantidade de antígenos produzida com a dose integral é muito maior que a necessária para assegurar a resposta imunológica adequada. Outra consequência dessas novas evidências e discussões é a determinação de que uma única dose integral imuniza a pessoa pela vida toda e não é mais necessário tomar reforço da vacina a cada dez anos. "Nem se a pessoa tomou a vacina 80 anos atrás", acrescenta a médica.

Entre fevereiro e março deste ano, 76 municípios dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia irão realizar campanha de vacinação com doses fracionadas e padrão contra a febre amarela. Ao todo, 19,7 milhões de pessoas destes municípios devem ser vacinadas na campanha, sendo 15 milhões com a dose fracionada e outras 4,7 milhões com a dose padrão. As vacinas fracionadas serão aplicadas por um período de 15 dias e a dose integral continuará a ser usada nas demais regiões do País.

No Estado de São Paulo, 4,9 milhões de pessoas vão receber a dose fracionada e 1,4 milhão a dose padrão em 53 municípios, inclusive na capital, onde foram definidas como áreas prioritárias Capão Redondo, Cidade Dutra, Cidade Líder, Cidade Tiradentes, Grajaú, Guaianases, Iguatemi, Jardim São Luís, José Bonifácio, Parque do Carmo, Pedreira, São Mateus, São Rafael, Socorro e Vila Andrade. Estão incluídas ainda as cidades da Grande São Paulo, os municípios da Baixada Santista e litoral norte. O período da campanha em São Paulo será de 3 a 24 de fevereiro, sendo os dias 3 e 24 (sábados) os dias D de mobilização da campanha.

No Rio, 2,4 milhões de pessoas deverão receber a dose fracionada e 7,7 milhões a padrão em 15 municípios. Na Bahia, 2,5 milhões de pessoas serão vacinadas com a dose fracionada e 813 mil com a dose padrão em oito municípios. No Rio de Janeiro e Bahia, devido ao período do carnaval, as campanhas ocorrerão do dia 19 de fevereiro a 9 de março, sendo o dia 24 de fevereiro o dia D de mobilização.

Durante o mês de janeiro, os estados e municípios vão treinar os profissionais de saúde e adequar a logística para realização do fracionamento. O Ministério da Saúde deve repassar aos estados R$ 54 milhões do Piso Variável de Vigilância em Saúde, para auxiliar os estados na realização da campanha. Desse total, já foram repassados R$ 15,8 milhões para São Paulo e, até o fim deste mês, serão destinados R$ 30 milhões para o Rio e R$ 8,2 milhões para a Bahia.

Parques reabrem em São Paulo

Com 40 casos e 21 mortes confirmadas de janeiro do ano passado até esta sexta-feira, a Secretaria de Estado da Saúde decidiu reabrir esta semana o Horto Florestal, o Parque da Cantareira e o Parque Ecológico do Tietê, fechados desde outubro e novembro por causa das mortes de macacos por febre amarela.

Os parques receberão faixas de alerta, avisando que só pessoas vacinadas devem frequentá-los e funcionários dos parques vão reforçar a recomendação. O anúncio foi feito na entrada do Horto Florestal pelo secretário de Estado da Saúde, Dr. David Uip. Moradores do local relataram que houve intensa aplicação de inseticidas na área, com o chamado "fumacê" e que passarinhos morreram e animais como cães e gatos sofreram intoxicação.

De acordo com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente, antes do atual surto, 17 grupos de bugios (Alouatta guariba clamitans), num total estimado de 86 animais viviam no Horto Florestal. Desse total, 67 morreram, mas não é possível dizer se todos foram vitimados pela febre amarela, já que não se pode coletar amostras dos bugios em estado de decomposição avançado. Não tem sido observada a presença de bugios recentemente por visualização ou vocalização.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....