Uso de análogo do GnRH preserva a fertilidade durante a quimioterapia

Pam Harrison

Notificação

11 de janeiro de 2018

SAN ANTONIO ― O uso de um análogo do hormônio de liberação de gonadotropina (aGnRH) em mulheres jovens submetidas a quimioterapia novamente se mostrou útil para ajudar a preservar a função e a fertilidade do ovário, confirma uma meta-análise de cinco grandes ensaios randomizados.

"Ter uma família é uma das conquistas mais importantes na vida de uma pessoa, mas para pacientes jovens com câncer de mama, isso pode ser particularmente desafiador devido ao possível desenvolvimento de infertilidade como consequência do uso do tratamento anticancerígeno, particularmente da quimioterapia", disse o Dr. Matteo Lambertini, oncologista do Institut Jules Bordet, Bruxelas (Bélgica), em uma entrevista coletiva.

Dr. Matteo Lambertini

"Observamos que as taxas de insuficiência ovariana prematura (IOP) foram mais do dobro no grupo que não recebeu análogos do GnRH durante a quimioterapia, enquanto o número de gestações no grupo aGnRH também foi o dobro do número nos controles, de forma que o uso de aGnRH durante a quimioterapia aumenta significativamente a chance de uma paciente ter uma gravidez futura após o término do tratamento", acrescentou ele.

O estudo foi relatado no San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS) 2017.

Os cinco ensaios randomizados envolveram 436 mulheres que foram designadas para tratamento com aGnRH, e outras 437 mulheres que serviram como controle. Cerca de dois terços das mulheres em ambos grupos tinha 40 anos ou menos.

Mais mulheres tinham câncer de mama com receptor de estrogênio negativo do que positivo, mas dois ensaios inscreveram apenas mulheres negativas ao receptor de estrogênio, destacou o Dr. Lambertini.

A goserelina foi usada em três ensaios, e a triptorelina foi usada nos dois restantes. Quase todas as pacientes foram tratadas com quimioterapia à base de antraciclina.

A presença de amenorreia foi utilizada como marcador de IOP em alguns ensaios; nos outros, a presença de amenorreia e o perfil hormonal após a menopausa foram utilizados para definir IOP. As taxas de IOP foram analisadas em 363 pacientes no grupo aGnRH e em 359 pacientes no grupo de quimioterapia isolada.

"As mulheres tratadas com um aGnRH durante a quimioterapia tiveram probabilidade 62% menor de desenvolver IOP como resultado da quimioterapia em comparação com os controles", informou o Dr. Lambertini.

A taxa de IOP foi de 14,1% no grupo aGnRH, em comparação com 30,9% no grupo controle (P < 0,001).

"Importante destacar", acrescentou ele, "o efeito do tratamento foi homogêneo em todos os diferentes subgrupos, foi observado tanto em pacientes abaixo quanto acima dos 40 anos de idade, e foi independente do status do receptor de estrogênio, bem como o tipo e duração de quimioterapia recebida", observou o Dr. Lambertini.

Um ano após a conclusão do esquema de quimioterapia, as taxas de amenorreia não foram significativamente diferentes entre os dois grupos, em 36,8% para mulheres que receberam tratamento com aGnRH associado, em relação a 40,4% para pacientes do grupo controle.

No entanto, dois anos após o tratamento as taxas de amenorreia foram essencialmente reduzidas para metade entre as pacientes que receberam aGnRH em comparação com as pacientes do grupo controle, de 18,2% para aquelas que receberam tratamento ativo durante a quimioterapia, para 30% para as que não o fizeram (P = 0,009).

Mais importante ainda, 10,3% do grupo de aGnRH conseguiram engravidar após o término do tratamento, em comparação com 5,5% daquelas que receberam quimioterapia isolada (P = 0,30).

O Dr. Lambertini ressaltou que todas as gestações ocorreram em mulheres com 40 anos ou menos, e que 84% das gestações que aconteceram no grupo aGnRH foram em mulheres com doença negativa para o receptor de estrogênio.

Importante também destacar, "após mais de cinco anos de acompanhamento, não houve diferenças entre os dois grupos em sobrevida global ou livre de doença", observou o Dr. Lambertini, "atestando a segurança dessa abordagem".

Como aconselhar as mulheres

Solicitado pelo Medscape a comentar sobre como os médicos devem aconselhar mulheres jovens com câncer de mama precoce que estão preocupadas com a preservação da função ovariana e, possivelmente, fertilidade, o Dr. Lambertini advertiu que usar um aGnRH durante a quimioterapia claramente não impede a menopausa precoce em todas as pacientes, mas diminui o risco.

"Portanto, as pacientes candidatas ao uso de aGnRH durante a quimioterapia são mulheres que estão preocupadas com o desenvolvimento da menopausa precoce e querem preservar a função ovariana, mesmo que não estejam interessadas em engravidar após a conclusão do tratamento", disse ele.

Por outro lado, se uma mulher está interessada em ter um bebê após a conclusão da quimioterapia, "eu acho que primeiramente ela deve ser aconselhada sobre o uso de procedimentos de criopreservação, porque estas são as técnicas mais estabelecidas e, em seguida, o aGnRH pode ser administrada depois que o procedimento de crioconservação for feito", acrescentou.

As mulheres que não têm acesso à criopreservação devem proceder diretamente com o tratamento com aGnRH durante a quimioterapia, sugeriu Dr. Lambertini.

"Para ambos grupos de mulheres, acho que o aGnRH deve agora ser considerado conduta-padrão", concluiu.

Solicitado pelo Medscape a comentar o estudo, a Dra. Jennifer Litton, professora-associada do Departamento de Oncologia Médica da Mama, do University of Texas MD Anderson Cancer Center, em Houston, disse que as pacientes devem ser encorajadas a buscar outras opções de tratamento.

"Eu acho que esta é uma opção razoável para as pacientes, mas também acho que é muito importante realizar uma consulta de endocrinologia reprodutiva, quando possível, para consideração da recuperação de oócitos anteriormente à quimioterapia para melhorar as chances de gravidez futura", disse a Dra. Jennifer por e-mail.

"No entanto", acrescentou ela, "devido ao custo e a questões de tempo, isso nem sempre é possível".

Importante mencionar que um estudo em curso, o ensaio Pregnancy Outcome and Safety of Interrupting Therapy for Women With Endocrine Responsive Breast Cancer (POSITIVE), também está investigando o que acontece quando as pacientes interrompem a terapia endócrina para engravidar e, em seguida, a retomam para completar o curso de quimioterapia.

O objetivo do estudo é pesquisar se a interrupção temporária da terapia endócrina para permitir a gravidez está associada a um maior risco de recorrência do câncer de mama.

Estudos indicam que aproximadamente metade das mulheres jovens com câncer de mama recém diagnosticado estão preocupadas com o desenvolvimento de IOP, e que aproximadamente a mesma porcentagem de mulheres está interessada em engravidar após o término da quimioterapia.

O Dr. Lambertini recebeu taxas de consultoria de Teva e uma doação para viagem de Astellas. A Dra Jennifer recebeu financiamento de pesquisa de EMD Serono, AstraZeneca, Pfizer, Genentech e GlaxoSmithKline, e participa de conselhos consultivos de Pfizer e AstraZeneca.

San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS) 2017: Resumo GS4-01, apresentado 7 de dezembro de 2017.

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