A interminável novela da fosfoetanolamina sintética, o composto desenvolvido por um químico da USP e popularizado com o nome de "pílula do câncer", ganhou novo capítulo na semana passada, com uma análise mostrando que o produto vendido no país como suplemento alimentar não contém sequer traços da substância.
A análise foi feita pelo Laboratório de Química Orgânica Sintética da Universidade de Campinas (Unicamp), a pedido do grupo gaúcho de comunicação RBS. Em outubro do ano passado, um ex-sócio da empresa americana que produz o suplemento, a Quality Medical Line, denunciou que o produto estava sendo falsificado para reduzir os custos de produção. A RBS, então, solicitou o teste para a Unicamp, que é referência internacional nesse tipo de análise.
"Não há sequer traço de fosfoetanolamina no lote que analisamos," afirma Luiz Carlos Dias, professor-titular do Instituto de Químca da Unicamp, pós-doutor em Química pela Harvard University, que coordenou o estudo.
"O produto contém 57% de excipientes, como monocelulose microcristalina, sílica gel e dióxido de titânio, 39% de fosfatos de cálcio, magnésio e zinco e 4% de monoetalonamina agregada a fosfatos, uma substância tóxica, necessária ao processo de síntese da fosfoetanolamina. A concentração é baixa, felizmente, incapaz de causar danos ao ser humano," explicou o pesquisador ao Medscape.
Dias também não encontrou a vitamina D que os produtores do suplemento de fosfoetalonamina alegam ter acrescentado à fórmula original desenvolvida pelo seu ex-mentor, o químico aposentado da USP, Gilberto Orivaldo Chierice. Além disso, Dias explicou que a fosfoetanolamina é um composto solúvel em água, mas as cápsulas que testou são 96% insolúveis.
"São cápsulas absolutamente inócuas, como se fossem cápsulas de farinha", afirmou.
Marcos Vinicius Almeida, bioquímico, e Renato Meneguelo, clínico geral, romperam com o grupo de Chierice há mais de um ano e, depois da proibição da substância e do fiasco dos testes em pacientes oncológicos realizado pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) decidiram vender a fosfoetanolamina como suplemento alimentar, categoria que lhes permite escapar da regulamentação exigida para medicamentos. Para isso, se associaram à Quality Medical Line, empresa com sede em Miami e com proprietários brasileiros, para produzir o composto. No site da empresa[1], eles alegam seguir a formulação de Chierice, apenas acrescentando vitamina D e "pelo fato da rota de síntese ter sido aperfeiçoada". Como o suplemento não é reconhecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as vendas são realizadas pelo correio, individualmente, por meio da empresa uruguaia Federico Diaz. Cada frasco custa US$ 90.
Questionada, a Quality Medical Line alega não ter recebido os laudos, que foram enviados pelo grupo RBS, e desqualifica o denunciante, Humberto de Lucca, ex-sócio do grupo. De Lucca tem considerável ficha policial, acusado de estelionato, falsidade ideológica e porte ilegal de armas, entre outros. Ele alega que Almeida e Meneguelo se surpreenderam com a enorme demanda pelo produto, e que a empresa americana recorreu a produtores chineses para baratear os custos em até 75%, falsificando o composto.
Caso de polícia
Não bastasse a falsificação do suplemento, a Quality Medical Line está na mira da Delegacia de Repressão ao Crime de Lavagem de Dinheiro, do Denarc, da Delegacia do Consumidor, do Deic e do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Isso porque, na semana passada, a Operação Placebo da Polícia Civil gaúcha apreendeu veículos, documentos, e 130 frascos de fosfoetanolamina de Marco Antônio Freitas Rocha, um dos sócios da empresa. Rocha é investigado por lavagem de dinheiro de origem suspeita, e teria usado empresas de fachada, veículos e o investimento na empresa para legalizar recursos de origem ilícita. O Ministério Público gaúcho suspeita de que a organização criminosa investigada investiu na empresa para fazer lavagem de dinheiro, e 33 contas bancárias foram bloqueadas.
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Citar este artigo: Empresa de brasileiros nos EUA vende fosfoetanolamina sintética falsa pelo correio - Medscape - 8 de janeiro de 2018.
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