COMENTÁRIO

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Dr. Fernando Lyra

Notificação

26 de dezembro de 2017

Neste artigo

Processamento sensorial na infância em crianças nascidas pré-termo: revisão sistemática

Dr. Fernando Lyra

Nesta seção o Dr. Fernando Lyra comenta estudos divulgados recentemente em publicações de impacto na área da pediatria. Membro do departamento científico de cuidados domiciliares da Sociedade de Pediatria de São Paulo, o Dr. Lyra também é especialista em acupuntura médica (pelo Colégio Médico de Acupuntura) e em administração em saúde (AMB e Sociedade Médica Brasileira de Administração em Saúde).

Os autores fizeram uma revisão sistemática da literatura, seguindo protocolo adaptado dos princípios estabelecidos pela Cochrane Library, de trabalhos publicados de 2005 a 2015, envolvendo crianças entre zero e nove anos de idade, com o interesse de investigar como o nascimento pré-termo pode afetar o processamento sensorial na infância.

O processamento sensorial refere-se à forma como o sistema nervoso central (SNC) gerencia as informações recebidas dos órgãos sensoriais, isto é, os estímulos visual, auditivo, tátil, gustativo, olfativo, proprioceptivo e vestibular. O transtorno do processamento sensorial (TPS) é o termo usado para se referir a dificuldades no processamento e na utilização de informações sensoriais para regulação de respostas fisiológicas, motoras, afetivas e/ou de atenção, que interferem na organização do comportamento e na participação em atividades da vida diária. O TPS tem prevalência estimada de 5% a 16% na população aparentemente anormal, e entre 30% e 80% na população com diagnósticos específicos.

Fatores genéticos, familiares e ambientais têm sido associados ao TPS, e crianças nascidas pré-termo são consideradas de risco para TPS.

As manifestações clínicas dos TPS podem incluir choro, agitação excessiva, dificuldade de autoconsolo, problemas de sono e aceitação alimentar, exacerbação da angústia de separação dos pais, timidez persistente e exagerada perante estranhos, intolerância a mudanças, além de falta de interesse e apatia à interação social. Essa manifestações serão traduzidas em problemas funcionais, que podem persistir até a idade adulta, resultando em dificuldades sociais e emocionais.

TPS e prematuridade

Fatores como complicações médicas associadas ao nascimento prematuro, e experiências sensoriais em UTI nos estágios iniciais do desenvolvimento, podem explicar a presença de respostas e processamento sensorial diferenciados a estímulos sensoriais, presente em alguns prematuros.

Dos 581 artigos achados pelos descritores, e termos livres, foram selecionadas e incluídas oito publicações, sendo três de desenho prospectivo.

Os instrumentos de avaliação utilizados nas publicações foram o Infant/Toddler Sensory Profile(questionário para pais), o Test of Sensory Function in Infants (instrumento observacional) e o Short Sensory Profile.

Os autores identificaram que crianças nascidas prematuramente apresentaram maior frequência de alterações no processamento sensorial. A idade gestacional (sugerindo que o risco para TPS aumenta quanto maior  o grau de prematuridade) e o gênero masculino parecem ser fatores de risco, estando frequentemente ligados aos resultados de processamento sensorial. Dados de ressonância magnética (RM) encontraram associação entre piores resultados de processamento sensorial e lesões da substância branca, sendo encontrada diferenças significativas entre crianças com TPS e com desenvolvimento típico, com aquelas com TPS apresentando mais frequentemente anormalidades da substância branca.

Os autores discutem que a revisão sugere que as dificuldades de processamento sensorial em crianças nascidas pré-termo têm por origem a combinação de riscos biológicos e neonatais da prematuridade.

Para lembrar
Os resultados da presente revisão são de extremo valor, especialmente pela contribuição para a identificação e consequente intervenção precoce nas dificuldades de processamento sensorial, especialmente em grupo de risco e com necessidade de acompanhamento pormenorizado como os prematuros. Entretanto, devem ser interpretados com cautela, como destacado pelos próprios autores.

O TPS deve ser considerado em situações como diminuição das habilidades sociais e da interação em brincadeiras, habilidades motoras deficientes, atraso de linguagem, hipersensibilidade tátil, dificuldade de autoconsolo, déficits de atenção, dificuldade em escrita e leitura, problemas de equilíbrio, timidez exagerada, desinteresse pela interação social, e intolerância a mudanças, entre outras alterações.

O TPS vem apresentando crescente interesse, e baseia-se na observação de comportamentos da criança, assim como na aplicação de questionários para pais, sendo as ferramentas citadas ainda não validadas o Brasil.
Referência
  • Machado, A.C.C.; Oliveira, S.R.; Magalhães, L.C.; Miranda, D.M.; Bouzada, M.C.F. Rev Paul Pediatr.  2017;35(1):92-101.

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