Icesp apresenta resultados detalhados de ensaio clínico com fosfoetanolamina

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

6 de novembro de 2017

Em março deste ano, o Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp) suspendeu a inclusão de novos participantes nos testes com fosfoetanolamina sintética em função da falta de comprovação da eficácia da substância no combate ao câncer.

O instituto apresentou o detalhamento dos resultados no 20° Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, realizado no Rio de Janeiro no final de outubro: de 73 pacientes com tumores sólidos avançados tratados com o produto em monoterapia, apenas um indivíduo obteve resposta parcial. Os dados do ensaio clínico tornaram-se alvo de questionamentos, e fazem parte dos tópicos em discussão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo que investiga a liberação da substância no estado de São Paulo[1].

A fosfoetanolamina sintética, produzida há mais de 20 anos pelo pesquisador Gilberto Chierice e equipe quando este integrava o Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos, gerou grande polêmica no país, pois vinha sendo distribuída a pacientes oncológicos sem ter sua eficácia comprovada por meio de estudos clínicos, e sem ter registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O fornecimento do produto era amparado apenas nos dados de pesquisas pré-clínicas que sugeriam que a droga tinha atividade anticâncer[2,3,4,5].

Em 2016 o Icesp iniciou um estudo de fase II de múltiplas coortes de pacientes com tumores sólidos. A pesquisa teve como objetivo primário avaliar a taxa de resposta dos participantes que utilizavam a fosfoetanolamina em monoterapia.

Segundo a Dra. Milena Perez Mak, médica do Icesp que apresentou os dados da pesquisa no congresso, inicialmente foi feita uma análise interina de segurança com 10 pacientes que foram tratados por pelo menos um mês. Como não foi identificada toxicidade significativa, os testes prosseguiram, incluindo 73 pacientes acompanhados entre julho de 2016 e março de 2017. Todos tinham diagnóstico de câncer confirmado histologicamente, e um quadro não passível de tratamento curativo, recorrente ou metastático.

Câncer colorretal foi a neoplasia predominante na amostra (N=21), seguida por melanoma (N=14), mama (N=12), colo uterino (N=7) e próstata (N=7). Outros tipos de tumores incluídos na investigação foram: carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço, pulmão e estômago, todos com três pacientes, e ainda pâncreas (N=2) e carcinoma hepatocelular (N=1).

A fosfoetanolamina usada na pesquisa foi sintetizada pelo laboratório PDT Pharma no município de Cravinhos, interior paulista. A Fundação para o Remédio Popular (Furp), laboratório oficial da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, encapsulou e entregou a droga ao Icesp.

A dose de ataque foi de 1500 mg/d via oral por três semanas. O tratamento consistiu em 1000 mg/d via oral. A fosfoetanolamina era ingerida com água, preferencialmente após uma refeição.

A maioria dos participantes era do sexo masculino (55%) e a idade média foi de 57 anos. Quarenta e quatro por cento dos indivíduos apresentaram quadro metastático ao diagnóstico e 45% usaram três ou mais linhas paliativas previamente.

Na avaliação de 16 semanas, apenas um paciente (com melanoma) registrou índice de remissão dos tumores maior do que 30%. A maioria dos avaliados, no entanto, apresentou progressão da doença (69,7%). Em outros 19 indivíduos (28,8%), a doença ficou estável.

Sobrevida livre de progressão (SLP) e sobrevida global (SG) foram desfechos secundários avaliados no estudo. No primeiro caso, a mediana foi de 1,64 (intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,62 - 1,66). Para SG, os autores encontraram uma mediana de 7,20 (IC de 95%, 5,86 - 8,53).

Quanto aos eventos adversos (outro resultado secundário avaliado), não houve casos graves, sendo mais comum anemia, aumento de fosfatase alcalina/alanina aminotransferase (ALT/AST), obstipação, dor, fadiga, náuseas e vômito. Segundo a Dra. Milena, um paciente descontinuou o uso da substância por elevação de transaminases.

Como conclusão, os autores notaram que, "embora o perfil de toxicidade tenha sido aceitável, houve escassez de eficácia da droga nas doses estudadas". Como nem ao menos 20% dos participantes apresentaram taxa de resposta, o recrutamento foi suspenso. A continuidade apenas na coorte de melanoma, visto que um paciente desse grupo obteve resposta parcial, está sendo considerada.

Durante debate, o Dr. Paulo Hoff, diretor-geral do Icesp, explicou que a ausência de fase I não compromete os resultados da pesquisa. Essa etapa, segundo ele, destina-se a validar a segurança da droga, porém, diante do relato de milhares de pacientes o grupo julgou que o produto era seguro. Mesmo assim, foi feita uma investigação inicial com 10 pacientes que foi equivalente à fase I com relação à análise de segurança.

"A fase I é importante ainda para determinar a dose mais adequada, porém esse não era nosso objetivo, pois queríamos responder se a dose que já estava sendo usada pelas pessoas era eficaz", disse.

Para o médico, o resultado observado na pesquisa "é extremamente desapontador". Embora o estudo ainda esteja aberto, com três pessoas atualmente em uso do produto, ele afirmou que a equipe "tem muito pouco interesse em continuar", e acrescentou: "em um cenário no qual novas drogas, tal como a imunoterapia, vêm revelando resultados promissores, a significância de uma resposta em 72 casos é questionável".

Segundo o Dr. Hoff, entre os aspectos do estudo questionados na CPI, estão a escolha da dosagem, o modo de administração e as condições dos pacientes (voluntários estariam já debilitados, o que comprometeria o efeito)[5].

"Se há discordância com relação aos resultados, outros estudos podem ser desenhados e elaborados por outras equipes. No entanto, creio que dificilmente uma pequena modificação na dose ou no regime trará grandes modificações nos resultados", afirmou.

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